segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Que os telefones toquem


Existem essas páginas no Facebook em que as pessoas postam fotos aleatórias e em preto-e-branco com uma frase mais aleatória ainda sobre a imagem. A maioria é puro lixo cibernético. As que não são batidas, não fazem o menor sentido.

Mas hoje, rolando pela minha timeline, uma delas me chamou a atenção. A fotografia - obviamente em preto-e-branco - era de dois telefones, e a frase em cima da foto dizia "Que os telefones toquem." Não sei quem é o autor de tal frase, mas é, de fato, algo muito interessante para desejar.

Hoje é o último dia de um ano que, para mim, começou todo errado. Nada deu muito certo, eu perdi várias oportunidades, me enfiei em cada cilada e, infelizmente, vários telefones não tocaram quando eu precisei que eles o fizessem. Não sei como foi o seu 2012, mas, de qualquer forma, para o bem ou para o mal, ele acaba hoje. E eu quero muito que os telefones toquem, para mim e para você que está lendo.

Quando precisarmos ouvir aquela voz, aquela única que consegue desfazer o nó no peito, que o telefone toque, e seja ela do outro lado. Só quem sente isso sabe o quanto é bom ver o mundo se desmanchando em pedacinhos de alívio, o ar voltando a circular novamente pelos nossos pulmões. Telefones que tocam nessas horas salvam vidas. E eu não estou falando só de amores, mas também de amigos que sabem exatamente quando ligar, sabem como ninguém quando você precisa desabafar.

Que o telefone toque também e, do outro lado da linha, seja aquela pessoa cuja voz você nunca ouviu. A gente vive num mundo cheio de tecnologias e a nossa comunicação se resumiu a textos. Você manda mensagens no celular, conversa via bate-papo, lê sobre a vida de uma pessoa no blog ou no perfil dela. Mas e a voz? De quantas pessoas na sua lista de amigos no Facebook, ou de quantos seguidores no Twitter, você conhece a voz? Acredito que de poucas. E quando você está conhecendo alguém pelo mundo virtual, então? A pessoa é linda, simpática, divertidíssima, um amor, um doce, mas... como será que é a voz dela? Quero muito que em 2013 (ou antes) você descubra. Que o telefone toque, e seja essa voz desconhecida do outro lado, te dizendo "adivinha quem é?"

Qual é a cor da roupa-de-baixo que você vai usar hoje? Muita gente diz que uma cueca vermelha traz amor, uma amarela traz dinheiro, cada cor tem sua consequência. Mas vamos falar da amarela. Vamos falar de dinheiro. É o que muita gente quer, prosperidade, grana, money no bolso. E sabem qual é o primeiro sinal de que vem grana chegando? Exatamente, um telefone tocando. Porque do outro lado está o gerente de uma empresa te chamando para uma entrevista. Ou, melhor ainda, dizendo que você passou na entrevista que fez, quando pode começar? Pouca gente trata disso por e-mail, e é quase improvável que alguém vá até a sua casa conversar sobre isso. Então, tomara que o telefone toque para isso, também. Seja você alguém querendo um emprego formal, ou um freelancer, que depende de trabalhos avulsos, espero que o telefone toque. E toque muito.

Telefones tocando podem trazer más notícias também e, infelizmente, a vida é assim. De vez em quando a gente não ouve o que quer. Nesses casos, eu espero que você saiba lidar, seja forte, e que tenha alguém do outro lado de algum telefone que vai tocar.

Mas de resto, que os telefones toquem, sim, com amigos te chamando para beber, com declarações de amor inesperadas, com pedidos de desculpas. Que toquem e que sejam pessoas de bem, amigos de infância, amores verdadeiros. Que sejam seus avós, seus pais, sua família, pessoas que te amam tanto. Que seja alguém que ficou sabendo que você passou no vestibular, e ligou para te parabenizar! Que seja um convite para o cinema, para assistir àquele filme que você mal via a hora de sair. Que sejam ligações incríveis.

E, se seu ano não começar assim, tenha paciência. Mas não fique esperando muito, também. Se o seu telefone não toca, coragem! - faça o de alguém tocar.

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A imagem foi retirada da página Je suis mes lettres (Drika)

De onde eu sou


"De onde você é?" É assim que começam várias conversas na internet. Uma leitora do blog, que assinou como Camila, me pergunta isso em um comentário. E eu respondo: sou de São José do Rio Preto, sou do interior de São Paulo, sou do Brasil, da América do Sul, sou da Terra. Embora meu signo diga que eu sou de Vênus. Logo, sou de Libra. Mas não sou de acreditar nessas coisas, porque sou de Vênus, mas sou também de Lua - mudo de humor, porque sou de repente. Sou de chuva, não muito de calor, sou mais de inverno.

Sou de difícil convivência, de compreensão complicada. Sou de poucos, mas de bons amigos. E já fui de algumas pessoas. Fui - e sou - de chorar. Sou de deixar bilhetes e escrever cartas. Sou de colar avisos na porta da geladeira. Sou de aguentar as coisas calado, mas não sou de ferro.

Sou dos livros, do cheiro das páginas, das histórias que eles carregam. Também sou do cinema e do teatro. Sou de filmes em que, no final, as pessoas se superam e surpreendem todo mundo. Sou da trilha sonora, da iluminação, infelizmente não sou do elenco - mas sou de elenco, embora também veja filmes com atores os quais eu não conheço. Porque sou de conhecer gente, de fazer piadas e quebrar o gelo.

Sou de pensamentos lógicos, científicos, racionais. Mas também sou de sentimentos intensos. Sou de impulsos, de desejos imediatos, de hoje, de agora, deste exato minuto. Sou do contra e, por isso, de vários inimigos. Porque tem muita gente que não entende isso - que se existe gente de dentro, tem que existir gente de fora. Mas sou de perdão fácil, também. Porque não sou de guardar rancor.

Sou de Natal, embora não seja de nenhuma religião, porque gosto de como a cidade se transforma: sou de me impressionar com coisas bobas. Sou de fogos de artifício, de estrelas cadentes, de luzes enfeitando as coisas.

Quando me deito, sou de sono leve e sonhos estranhos. Sou do rock e do pop, um pouquinho da mpb, mas não sou desses que pesquisam a vida de um cantor e sabem até de que tipo sanguíneo eles são. Eu sou bem de boa quanto a isso.

A mais, sou de Martha Medeiros, de Sidney Sheldon, sou muito de chick-lit, embora não seja do público alvo deste tipo de literatura. Sou de escrever. E sou de começar as coisas, mas não terminar (este texto, por exemplo, se você estiver lendo, é algo bom, porque eu não desisti dele e ele foi publicado.)

É isso, Camila. É daqui que eu sou. E você?

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Obrigado a todos que passam por aqui, que divulgam o blog entre seus amigos, que comentam, que compartilham no Facebook ou em outras redes sociais. Obrigado pelas mais de 10 mil visitas! Significa muito pra mim. 

Um beijo, 
Bruno.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Um passo à frente


As pessoas pensam que ser evoluído é saber falar mais de uma língua, saber mexer no computador e estar antenado em tudo. Isso, na minha opinião, é o mínimo que você pode fazer para não insultar seu próprio cérebro, mas não é evolução.
Evolução é ter ideias novas e próprias. É não se aprisionar na escravidão da moda, do consumismo, da mídia. Evolução é não achar que "música" eletrônica é foda só porque todo mundo acha. Evolução é admitir, em público, que você gosta daquilo que ninguém mais gosta.

Evoluir é não ser maria-vai-com-as-outras. Vejo muita gente submissa e pau-mandada por aí, que detesta algo em um segundo, e no outro já ama, só porque alguém disse que "se você não gosta disso, você não se encaixa." Ser evoluído é aceitar seus próprios defeitos, entender que todo mundo os possui, e não andar por aí atuando, controlando um avatar de si mesmo, só para agradar outras pessoas.

Agora, o que não é: ser evoluído não é encher a cara só pra contar no dia seguinte; não é ir para outro país só para contar que foi e não absorver as coisas boas da viagem porque passou a maior parte do tempo se preocupando em postar fotos no Instagram, no Facebook, no Tumblr, só para esfregar na cara de todo os outros aquilo que você não é, aquilo com que ninguém se importa; não é odiar Crepúsculo nem amar Beatles; não é ler Clarice e Nietzsche; não é comprar um iPhone, iPad, ou qualquer outro produto, só porque ele tem uma maçã mordida em sua capa. Ser evoluído não é ser moderno, porque a modernidade é um saco. Também não é ser hipocritamente antigo, só porque é cool ser retrô.

Evoluir é ter uma ideia brilhante e não ter vergonha de anunciá-la para todo mundo. É sentar para ler um livro, ou ver um filme, ou ouvir a uma música, e tentar ler nas entrelinhas tudo o que está sendo dito ali, mas não concordar cegamente com tudo. É ter amigos, mas não modelos para serem seguidos. Conheço muita gente que imita os amigos nas gírias, nas atitudes, algumas até no tom da voz. Conheço gente que não coloca cinto de segurança no carro de um amigo que também não coloca só para não parecer careta, e põe em risco sua própria vida! Conheço gente que se o amigo diz "vamos", ela vai, e quando o amigo desiste, ela também concorda que não era uma boa ideia.

Isso não é evolução. Isso é ter um cérebro e deixá-lo ali, parado, à mercê da correnteza, na inércia dos pensamentos alheios e não seus.

Acorde para a vida e evolua. Se não por você, pelas pessoas que te querem bem. E se não por elas, por respeito a cada partícula de energia que fez um ser microscópico e unicelular evoluir à humanidade pensante da qual você faz parte.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O melhor de mim


Você é uma pessoa incrível, todo mundo te diz. Seus amigos te adoram, assim como muita gente que te conhece faz meia hora. Você tem um papo legal, uma cabeça boa. Você pensa. Você defende os animais. Gosta de cinema, de livros, de poesia. Seu gosto musical é bom. Você poderia escrever um livro, e apesar de não acreditar em Deus, você é uma pessoa boa. Além de tudo, você tem um coração cheio de amor para dar para alguém, você tem disposição para fazer tudo pela pessoa, você dirigiria uma hora durante a madrugada, você faria qualquer coisa por alguém.

Você é realmente uma pessoa incrível.

Mas a vida tem uma forma engraçada de te recompensar por certas coisas. Porque, com tanta gente legal para você conhecer, com tantas experiências bacanas e enriquecedoras, você esbarra justamente com alguém que vai te puxar pra baixo, te transformar no pior que você pode ser, te fazer sentir esse vazio e esse peso gigantesco que você tem que carregar sozinho.

Todos nós temos o nosso melhor lado, e eu tenho pensado muito a respeito de como eu tenho desperdiçado o meu. Por que será que a gente insiste em jogar pérolas aos porcos?

Ninguém merece ser tratado como um nada, principalmente quando você não é um nada. Ninguém merece sentir essa vontade enorme e triste de ser outra pessoa, principalmente quando a pessoa que você é vale muito.

Tem horas que a gente tem que colocar o sentimentalismo de lado, o amor do outro, e começar a usar o cérebro que nos foi dado. Por trás de toda pessoa incrível, há um ser humano. Alguém com sentimentos e méritos. Alguém com um pouco de amor próprio a zelar. Alguém que para tudo o que está fazendo pra ir te ver, e que talvez por este motivo não mereça ser praticamente mandado embora da sua casa.

Antes que você me pergunte, sim, este texto é pra você. Pela primeira vez, eu não me importei de ter vindo embora. Pela primeira vez eu não quis dar a volta no quarteirão e voltar pra sua casa. Pela primeira vez, eu acho que você não merece mais o melhor de mim, e talvez nunca tenha merecido. E saber disso é, de certa forma, libertador.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Signal in the Sky



Eu li em uma reportagem da Superinteressante de algum tempo atrás que a tendência a ter fé é um fator que já nasce conosco. Está no DNA humano acreditar em algo superior. Talvez seja uma herança de séculos e séculos de crenças e religiões que nos fez assim. Não importa o quanto você seja cético, todos nós temos uma predisposição genética para a superstição.

Talvez seja essa característica que nos faz acreditar em sinais. E pedir por eles. Coincidências que nos deixam surpresos. Sonhos dos quais procuramos significados. Oráculos imaginários. Todos nós estamos desesperados para encontrar respostas para nossas perguntas: o que vai acontecer? O que eu devo fazer? Alguém me dê um sinal!

E, de vez em quando (ou quase sempre, eu diria), a vida nos dá sinais. O problema é que eles nunca vêm em formato de carta, com as palavras escritas em letra legível "Faça isso e dará certo." Não chegam até nós trazidos por anjos, sonhos ou cartas de baralho. Os sinais que recebemos são subjetivos demais e, muitas vezes, não são convenientes. Porque não queremos apenas sinais, mas também exigimos que eles sejam positivos: sinal de que o namoro vai dar certo, de que a vaga de emprego será sua, de que tudo vai ficar bem.

Alguns sinais são tão naturais e claros que nós não conseguimos reconhecê-los. Um relacionamento que está complicado há meses, que se prolongam por anos, e a gente fica querendo saber quando é que as coisas vão ficar bem. Um emprego que atrasa sua vida, que nunca dá certo, que não sai daquilo e não te deixa crescer. Um projeto que nunca sai do papel, ou que nem chegou a ser colocado lá. Uma árvore que não gera frutos. É assim que os sinais chegam até nós. Disfarçados de cotidiano, de banalidade. Disfarçados de realidade, de vida.

Se um sinal chegar até você, você acha que conseguirá interpretá-lo? Porque muitas vezes é assim: estamos rodeados deles, eles estão piscando por todos os lados, e a gente continua pedindo por eles. Implorando por aquilo que já temos e que nem sempre é o que queremos saber: a verdade.

*Ouvindo "Signal In The Sky - Matt Hires

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Tem gente ilustrativa

A foto do BigMac é deliciosa. Um lanchão enorme, com pão fresquinho e fofo, coberto de gergelim dourado, carne suculenta, alface bem lavado, e o molho, ah, o molho cremoso escorrendo junto com o queijo derretido. Aí você abre a caixinha e nada mais é do que um lanche de pão amassetado e oleoso, carne ressecada e alface murcha. Que decepção.

Mas tem muita gente BigMac por aí. De longe são pessoas atraentes e interessantes. Mas quando você chega perto, descobre que os olhos não são tão brilhantes como você havia imaginado, que o beijo não é tão cremoso e que as ideias não são tão suculentas. São sem-sal. Não sustentam. E algumas ainda custam caro. Você quebra seu porquinho, sua reserva de paciência, dedicação, amor, atenção, todas aquelas moedinhas douradas de afeto que você guardou por tanto tempo para gastar com algo que valesse a pena, e acaba gastando com uma farsa. Tudo por causa de uma imagem bem tratada, uma propaganda enganosa.

E o pior é que ninguém vai te dar o dinheiro de volta, a vida não aceita reclamações posteriores, sequer tem um SAC. Tonto de você que não teve o cuidado de ler as letrinhas pequenas na lateral inferior direita do anúncio: imagem meramente ilustrativa.

Tem gente que apetece, mas não mata a fome.

domingo, 16 de setembro de 2012

Respostas

Eu não queria saber de merda nenhuma do que você tinha pra me dizer, então eu simplesmente bati a porta do carro com tanta força que meu braço doeu, enfiei a chave no contato com um pouco de dificuldade por causa do nervosismo e antes que você pudesse abrir o portão e dizer algo que fosse me fazer ficar - algo que, mais uma vez, pela bilionésima vez, fosse me fazer ficar -, eu meti o pé no acelerador e fui embora da sua casa, deixando todas as minhas roupas, porque eu não queria elas de volta, eu não queria nada que algum dia eu fosse encarar e saber que esteve perto de você, já me bastava meu próprio rosto que eu teria que encarar na porra do espelho toda manhã, meu pescoço sem as marcas que você deixava as vezes, meu corpo idiota que você um dia disse que achava bonito, eu teria que conviver com todas essas coisas que um dia estiveram contigo, que um dia foram quase-suas, isso já era o bastante para mim, então aqui vai a primeira resposta para a mensagem que você me mandou depois, me perguntando centenas de coisas, foi por isso, Leo, que eu deixei as minhas roupas na sua casa e, respondendo à segunda pergunta, não, eu não pretendo pegá-las de volta.

A terceira indagação era sobre o tempo que ficamos juntos, e você é mesmo um ridículo por querer falar de tempo agora, justo você que me fez perder todo o meu precioso tempo, justo você que nunca tinha tempo pra mim, vir falar de tempo é, no mínimo, uma hipocrisia tão grande que mal cabe em nós dois. Mas, hipoteticamente falando, como se você realmente tivesse algum direito nesse mundo de me perguntar sobre o tempo - como se você realmente tivesse algum direito nesse mundo de me perguntar sobre alguma merda de coisa -, o tempo foi o maior culpado disso tudo, porque quando tudo começou você sabia, e eu sabia, EU SABIA, Leo, que não iria dar certo, nada disso iria funcionar porque nós dois estávamos vibrando em frequências tão diferentes que eram quase opostas, e quando eu pensei que finalmente a gente tinha chegado num ponto comum, foi exatamente neste instante do tempo que tudo veio abaixo, como aqueles programas científicos em que alguém consegue atingir a mesma frequência vibratória de uma taça de cristal e ela explode, foi assim com a gente também, foi assim que a gente explodiu, virou caquinhos de cristal sangrentos, foi assim que a gente se feriu: quando atingimos uma frequência em comum. Em comum, e não igual, é bom dizer. A gente nunca esteve na mesma sintonia. Aqui está minha resposta sobre o tempo: ele me fez ver isso.

Sobre culpa, também, você menciona culpa, mas como uma afirmação e não como pergunta, mas eu me reservo no direito de comentar: sim, eu sinto culpa. Porque eu não soube entender certos problemas seus, porque eu desejei morrer tantas vezes enquanto você tentava me arrancar um sorriso, porque eu deveria ter sido alguém melhor, eu deveria ter entrado em uma academia dez anos antes de te conhecer para te poupar de um corpo tão sem sal, eu deveria ter dormido mais para não ter olheiras tão grandes e crônicas, eu deveria ter continuado meu tratamento com antidepressivos e terapia para não ser tão pessimista, para não chorar tanto por motivos bobos, eu deveria ter estudado para estar em uma faculdade legal e ser qualquer coisa acima de um medíocre sem emprego e sem uma perspectiva concreta de vida, eu deveria ter lido menos comédias românticas e mais livros cult para ter ideias diferentes das que você está acostumado a ouvir, eu nunca deveria ter abandonado tantos empregos, eu deveria ter me dedicado mais a algum deles para ter dinheiro e um pouco mais de independência, eu sei, Leo, eu sinto culpa por tudo isso, sim, eu sinto culpa por ser assim, eu sinto culpa por não ter sido bom o bastante. É um comentário, uma confissão, não use isso contra mim.

Então você terminou a mensagem dizendo que tudo bem se era assim, se eu queria ir embora e não conversar mais com você e nunca mais olhar para esses teus olhos tão ridiculamente lindos pra caralho, tudo bem se eu não quisesse buscar minhas roupas e meus livros e minhas tintas, tudo bem se era pra ser assim, e você postou coisas no seu Facebook, fotos de festas, músicas que não falavam absolutamente nada sobre a gente, piadas que só você e seus amigos imaturos entenderiam, tudo para mostrar que não se importava, que sua vida continuou sem mim, que eu não estava fazendo a menor falta e que você poderia muito bem encontrar outra pessoa para ocupar o meu lugar na sua casa, na sua cama, você não está nem aí, eu sei, você vai seguir e eu não fui nada, eu sei. Você está mentindo para mim e para você mesmo, eu sei.

Eu sei, Leo, eu sei que ninguém nunca vai fazer as loucuras que eu fiz por você, ninguém nunca vai abrir mão de tanta coisa, ninguém nunca vai torrar tanta grana com você como eu torrei, ninguém vai te surpreender com coisas tão pequenas, ninguém nunca vai ser o que eu fui, eu sei que você sabe disso porque eu sei disso, e eu costumo ter dúvidas sobre as coisas, mas quando eu sei de uma coisa, eu sei, da mesma forma que eu sabia que eu nunca deveria ter te visto pela segunda vez, da mesma forma que eu sabia que te amava, da mesma forma que eu sabia exatamente o que iria escutar se não tivesse acelerado o carro antes de te dar a chance de falar, eu sei disso tudo da mesma forma que sei que se você tivesse me pedido para ficar, eu teria ficado, e que se você aparecer aqui agora, eu vou abrir mão de mais um monte de coisa por você de novo e vou acreditar quando você disser que me ama de novo, eu sei, eu sei de muita coisa, Leo, mas se tem uma coisa que eu nunca soube e que eu nunca vou saber é como esquecer de você. E essa é a resposta para o seu "a gente se vê um dia". Não. Por favor, não apareça. Porque vai ser difícil te deixar ir de novo.

Queime as minhas roupas,
Fred.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Não falta


Vontade não falta. De mudar as coisas, de entrar em outra frequência, de tirar todos os móveis do lugar e pintar as paredes de branco pra poder preenchê-las com enfeites de cores vivas. Vontade não falta de pegar um carro e passar por mil lugares estranhos e afáveis. De beber e não ter pressa. De desligar o celular sem me preocupar com "e se ele ligar?" Vontade não falta de jogar tudo pro alto, dar adeus às velhas dores, encontrar motivos bons. Vontade não falta de deitar em uma cama que nem é minha, sentindo o calor de um corpo que não é meu mas que decidiu ser, nem que por algumas horas e saber: vontade não falta de estar ali. Vontade não falta. De me apaixonar e valer a pena. De me libertar das minhas prisões mentais. Vontade não falta. Falta força, só.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fly away, breakaway


Há algumas espécies de pássaros que migram, todos os anos, para lugares mais quentes quando o inverno chega. É intrigante e ninguém sabe dizer ao certo como eles sabem para onde ir, mas assim que os primeiros sinais de frio começam a aparecer, um pássaro decide levantar voo, e então o bando inteiro o segue.

É uma lei de sobrevivência, não só para os pássaros que migram, mas para todo ser vivo de sangue quente: buscar calor. Quando fica frio, quando um inverno se instala, quando é impossível aguentar o vazio e o gelo de uma estação, é o que fazemos para continuar a viver.

Como sabemos para onde ir? Como esses pássaros fazem para encontrar o lugar exato, todo ano? Qual é o segredo da busca? Não pode ser apenas instinto. É o que você sente dentro que te move para o lugar certo. O frio que você sente te leva para o calor que você procura. Talvez seja assim com os pássaros, também. Magnetismo e força vital.

O que nos diferencia dos pássaros, além das características óbvias, é que nós não estamos em bando. Cada um de nós sabe o momento exato de alçar voo. Cada pessoa tem que decidir sozinha quando o frio deixa de ser agradável e se torna mortal. Somos pássaros solitários e essa é a parte mais difícil das nossas migrações: no momento em que você decide abrir as asas, você está voando sozinho.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O som de um novo começo


É sempre igual quando nos cansamos de alguma coisa, e isso acontece o tempo todo na vida: começamos a implorar por mudanças. Transformações na vida como a conhecemos em algo completamente novo, empolgante, brilhante. Desejamos acordar e encontrar as coisas em lugares diferentes, abrir a porta do quarto e dar de cara com novas possibilidades, novos ângulos, perspectivas às quais não havíamos prestado atenção ainda.

Assim, é irônica a forma como, mesmo desejando tanto estas mudanças, continuamos agindo da mesma forma e cometendo os mesmos erros. E a verdade é que queremos as mudanças tanto quanto as tememos. Porque, e se você descobrir no meio do processo que mudar significa abrir mão de certas coisas? E se você se deparar com uma mudança tão grande que requer um espaço que já está ocupado dentro de você há muito tempo, e então se ver obrigado a esvaziá-lo? Algumas mudanças são verdadeiras reformas, exige que derrubemos paredes, reconstruamos estruturas, mudemos as nossas bases. 

Mudar é perder coisas. A gente sabe que se as coisas mudarem, vamos sorrir de uma forma diferente. Ninguém quer isso. Então lutamos contra tudo aquilo que nos leve a caminhos diferentes, fechamos os olhos para as possibilidades que aparecem e que poderiam, de fato, mudar nossas vidas.O problema é que não podemos manter as coisas como elas estão para sempre: a vida muda o tempo todo, querendo ou não. Em um dia, em um segundo, em um instante. Você pode insistir em se manter no mesmo caminho para sempre, mas vai chegar uma hora em que você vai dar de cara com um muro infinitamente alto e terá que escolher continuar pela esquerda ou pela direita - menos em frente. Vai chegar um momento em que a única escolha será a mudança. Você está preparado para isso?

Ou você provoca suas próprias mudanças ou terá que aceitar as que a vida impor. E eu não sou um especialista nisso, mas aqui vai o que eu sei sobre as mudanças: as pessoas que mais sofrem são aquelas que lutam contra as transformações e, de repente, são obrigadas a mudar.

"Sem luz, sem luz nos seus olhos azuis brilhantes,
Eu nunca pensei que a luz do dia pudesse ser tão violenta,
Uma revelação à luz do dia, 
Você não pode escolher o que fica e o que desaparece,
E eu faria qualquer coisa pra você ficar."
(No Light, No Light - Florence and the Machine)

*O título deste texto é inspirado na música "Now is the start - A Fine Frenzy"

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Eu tenho um medo


Quem é você no final do dia? Quando todas as luzes se apagaram e não há nada além do travesseiro, o cobertor e sua cabeça. Sua cabeça bagunçada, cheia de medos, de perguntas, sua cabeça com seus pensamentos tristes, ousados, difíceis. Quem é você quando tudo o que você podia fazer no hoje esgotou seu prazo?

Eu li em algum lugar que a paisagem do deserto no final do dia é diferente da paisagem no começo dele. O vento move as dunas e se você se perder em um deserto provavelmente será difícil sair dele, já que tudo ao seu redor vai estar diferente em algumas horas.

Um dia nunca termina como começa, por mais monótono que seja. E ainda assim temos a péssima mania de olhar para o passado. Vasculhamos ele. Procuramos fotos do passado das pessoas com quem estamos e nada é mais assustador do que este pensamento: virar passado. Ser a areia que é jogada para outra duna, no outro lado do deserto. Transformar-se em uma memória, ou nem isso: ser apenas um pretérito (im)perfeito.

Só que a gente nunca sabe como um dia vai acabar. E esta talvez seja a maior angústia que nós temos: não saber. Essa é a razão pela qual consultamos horóscopos. Por isso existem meteorologistas. Ultrassom, radiografia, pai de santo, adivinha, bola de cristal, por isso a gente lota clínicas de psicanálise, contrata detetives, hackers, bisbilhota até o limite, até a gente achar o que a gente quer. Porque a gente não suporta não saber. Não saber é uma prisão, é paranoia, é claustrofóbico, rarefeito. Não saber o que vai acontecer, não saber o que fazer para impedir. Não ter um mapa no final do dia que te ajude a sair do deserto, uma bússola que te dê as coordenadas. Isso deixa muita gente louca.

O que sobra pra nós no final? Do dia. Do amor. Do medo. O que sobra pra nós quando tudo aquilo que a gente conhece e aprendeu a amar acaba, muda, transforma-se, quando a paisagem não é mais a mesma e a gente se perde em um deserto dentro da gente?


De vez em quando sobra uma mensagem que a gente esquece de apagar no celular. Sobra uma foto, uma música, um texto que a gente escreveu, um ingresso de cinema, um cupom fiscal. Sobra a dor e um caminho de volta coberto por areia. Sobra a paisagem, deformada. A gente grita e ninguém aparece para nos salvar.


Não é isso que eu quero ser, um passado, um acontecimento, uma página virada. Não quero ser protagonista de uma dessas fotos que não significam mais muita coisa, não quero ser uma memória, boa ou ruim. 


Quem eu serei no final do dia? E o que me trouxe aqui? O que aconteceu com a minha paisagem? Ninguém sabe. E isso me tira o sono quase todas as noites.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Em nossas mãos



Você deve conhecer aquela história de que, se você jogar uma moeda em um determinado poço mágico e fizer um pedido, ele se tornará realidade. Pessoas fazem isso, apesar de parecer tolice. Elas se viram de costas, fecham os olhos, cruzam os dedos, pedem com força, e atiram uma moedinha de ouro em um poço profundo.


Pode ser que o desejo dessas pessoas se realizem, mas as chances de ter sido por causa da moeda jogada no poço são praticamente nulas. Mas ninguém pode julgar essas pessoas, porque todos nós fazemos o mesmo com as nossas vidas o tempo todo. Que atire a primeira moeda de ouro quem nunca abriu mão de algo precioso e verdadeiro em troca de promessas vazias, amores falsos, empregos duvidosos, quem nunca abriu mão de algo seguro em troca do incerto? 


Jogar coisas valiosas e que às vezes demoramos para conseguir dentro de um poço sem se dar conta de que aquela moeda, única, nunca vai voltar. A gente vive fazendo isso!


A verdade é que a gente nunca sabe o valor das coisas quando as temos em nossas mãos. São lindas, brilhantes, são perfeitas. São exatamente aquilo que procurávamos para nós, exatamente aquilo que nos complementa. Mas o fato de as termos faz com que nos esqueçamos de como elas vieram parar aqui. E não foi fácil. Foi necessário tempo, anos de dor e decepções até a gente encontrar o que estava procurando. E então, em um momento de descuido, em um minuto de indiferença e orgulho, nós perdemos: o tempo, as pessoas, o amor verdadeiro, as amizades insubstituíveis, as oportunidades únicas, a felicidade.

Depois que perdemos as coisas, nós as observamos em fotos antigas, tentamos enxergar lá no fundo do poço, e só então percebemos o quanto eram importantes: quando não as temos mais. E o que podemos fazer quando uma oportunidade se foi, quando uma pessoa seguiu sem a gente, quando o amor verdadeiro passou pelos nossos olhos e a gente nem deu atenção?

Nós achamos que vamos ter uma segunda chance, que se pode abusar da sorte, que dá pra consertar os erros que cometemos. Mas, na maioria das vezes, nós só temos uma oportunidade para aproveitar o que nos foi dado, para nos sentir gratos por isso e não deixar escapar aquilo que é tão precioso, raro, insubstituível. Às vezes, a gente só tem uma moeda. E perdê-la para um poço muito fundo muitas vezes é irreversível.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Julho




Eu tenho um limite que não vai daqui ali, é um espaço dentro da minha cabeça, um buraco na minha alma, uma carga infinita que eu consigo carregar mesmo quando não dá mais pra mover as pernas. Eu luto. Mesmo quando está escrito em todos os livros, em todos os espelhos, em todos os seus dois olhos que eu vou perder, que eu vou desabar, que eu vou precisar de descanso. Eu luto e dissolvo o tempo na água, engulo com sede, é amargo, passa rápido, o tempo mal chega no estômago e já foi embora pelos meus poros, junto com todas as certezas que trouxe consigo, junto com uma luz que eu pensei ter visto na sua janela, junto com a textura desconfiada da tua língua.

Um livro ao lado da cama, o cheiro do papel e da tinta, eu queria que fosse nossa história e que fosse feliz. Eu alimento meus peixes e invejo a simplicidade das cores que eles pintam com seus movimentos puros, ingênuos, autênticos, soníferos.

Sou um ótimo colecionador de pedaços, sei exatamente como você respira quando dorme, sei o sabor que tem teu queixo, sei da folha de outono seca, laranja e quente que você guarda dentro do peito. Sei das manchas no teu pescoço e da cicatriz no teu espírito. Cada núcleo das tuas células é condutor de uma eletricidade azul, cor de um quarto iluminado só com a luz do poste, e eu levo um choque quando com os lábios toco tua testa e teu nariz e teu ombro. Sei o quanto eu gosto disso. Sei disso tudo e não sei absolutamente nada.

Só tem chocolate no teu copo de sorvete, só tem chocolate nos teus olhos derretidos, a maré que te arrasta é a mesma que me joga pra longe do oceano, de cara na areia, o sal ardendo em meus olhos e eu juro que não estou chorando, é apenas o sal, são apenas meus olhos, são apenas os teus...

De repente a madrugada me engole, eu giro até cair na cama, meu sono é um monólogo rápido, meu cérebro é uma pedra fria, cinza e maciça, eu não consigo pensar. Eu desenho formas abstratas no silêncio, com o silvo da minha respiração difícil e eu brinco que é de verdade que você vai ficar.

Eu queria que você ficasse aqui pra sempre, você e a música na tua voz, você e tua risada, você e seu humor, você e suas mãos e seus dedos, você e sua mordida, você e suas gírias, você e eu quando estou com você, porque é o melhor eu que eu conheço, é o eu mais completo dentre todos os meus eus, eu nunca preciso de muita coisa quando você está aqui, eu só preciso te dizer todas as coisas que eu te digo, eu só preciso me deitar no teu ombro e ouvir o ar entrando pela tua garganta, é tudo que eu preciso, é tudo que o meu melhor eu precisa: você e tudo isso aí que eu mencionei, você e eu, você e essa vontade enorme que eu tenho todos os dias de ser teu.

Julho se arrasta pelas minhas veias como mel escorrendo para o ralo, lentamente, provocante. Julho é uma piada, é uma tragédia grega, é uma comédia romântica barata, julho é uma guerra, é um desafio, julho é tudo e é nada. Julho te levou e você estará aqui quando julho acabar. Eu estarei aqui, também. Eu estarei aqui em julho e em todos os outros meses, eu estarei aqui enquanto eu tiver tempo, eu estarei aqui enquanto eu tiver forças, eu estarei aqui, cara. Eu estarei aqui. Porque eu vou ficar. Eu queria que você também ficasse...


Porque eu não vou a lugar algum sem você.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Placebo


Era uma vez aquela dor de cabeça que você curou com uma aspirina. E na manhã seguinte ela estava lá de novo, e por algumas horas você conseguiu ficar sem ela, graças a outro comprimido, que foi eficaz apenas até a hora do almoço. Um mês depois, a aspirina deixou de fazer efeito e você procurou um médico, para descobrir que o problema era mais sério do que apenas uma dorzinha de cabeça.

Era uma vez uma manchinha que você cobriu com base, e que se transformou em um câncer. Um resfriado inofensivo que resistiu ao antibiótico errado e se transformou em pneumonia. Era uma vez uma história mal contada que você relevou, fingiu que acreditou, e descobriu tarde demais que se tratava de uma traição.

O corpo avisa a gente. Quando tem alguma coisa errada, quando algo está onde não deveria estar, a gente sente isso na pele, nos ossos, nos músculos, na mente. Chamam isso de sintomas e existem milhares de remédios para todos eles, o que nos fez desenvolver essa mania irracional de remediar temporariamente coisas maiores do que parecem ser.

Nós nunca prestamos atenção nesses sintomas. Tratá-los mais a fundo geralmente requer tempo, muitas vezes exige métodos complicados e dolorosos. Então nós apenas os ignoramos, tratamos certas dores com meios que são eficazes apenas por um determinado momento, cobrimos feridas expostas, levamos adiante situações que fazem mal. Mas a cada dia fica mais difícil varrer tudo para debaixo do tapete, e um dia as dores se tornam incuráveis, as feridas inflamam, o tapete se torna pequeno demais.

Por mais que você tente ignorar um sintoma, mais cedo ou mais tarde terá de lidar com a causa dele. Então olhe mais de perto, preste mais atenção, não ignore seus instintos. Se tem uma voz no fundo da sua cabeça, não cale-a. Dê olhos e ouvidos a todos os sinais. No final, é deles que sairá a verdadeira cura: a verdade.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Acidente


Hoje eu quis dirigir o carro em alta velocidade na direção de um poste, um muro, um viaduto. Eu quis fechar meus olhos, tirar o cinto, soltar o volante, acelerar. Sentir a força da inércia. Eu quis desistir de tudo. Deixar tudo isso pra lá. Não sentir mais essa dor, não sentir mais essa falta.

Hoje os pássaros pararam de cantar nos fios e ficaram apenas sentados, esperando, observando. O mundo estava coberto de cinzas. Hoje a verdade desabrochou como uma flor negra e horrível. Hoje as páginas que eu tinha escrito sobre você se dissolveram, queimaram, doeram. Nunca foram reais. As músicas que eu escrevi mentalmente sobre quem você era, hoje se arranharam em galhos secos, se distorceram.

Hoje eu tentei ser forte mas não consegui. Eu tentei dizer todas as coisas, mas a voz falhou na primeira sílaba. Doeu tanto que eu não consegui chorar. Hoje eu deixei você ir. Aceitei a verdade sobre as suas mentiras. Engoli cada uma delas como se fossem veneno e agora estou me sentindo morto aos pouquinhos. Hoje eu sei que nunca existiu amor. Que foi só o tempo que precisava passar. Que foi só a primeira gota da tempestade. Hoje eu vejo isso.

Hoje eu me senti perdido, sem saber de onde eu vim, como foi que eu vim parar aqui, nessa tristeza tão grande, nessa falta de esperança tão morta? Senti como se você tivesse me raptado, me enfiado dentro do porta-malas de um carro e me levado para qualquer lugar, mais longe do que eu queria ir, e então me soltou aqui, e eu não sei voltar, eu não sei dormir, eu não sei comer. Eu deveria ter gritado, pedido por socorro na primeira noite, "me tirem daqui!", mas acho que ninguém me ouviria porque nem eu mesmo me ouvi.

Hoje eu esperei você ligar, mandar uma mensagem, me devolver um pouquinho da atmosfera, dizer que quer mais do que qualquer outra coisa me ver, passar o dia comigo, me levar para ver um filme nem que seja dublado, que quer muito passar horas só deitado, sem dizer nada, só deixando que cada gotinha de amor pingue dentro desse coração que você fechou, caia na sua corrente sanguínea e derreta o gelo que você me propôs segurar mas que eu não consegui por muito tempo. Hoje eu esperei. Uma, duas, cem milhões de horas. Esperei por uma resposta para a minha pergunta, um protesto ao meu ultimato, esperei que o Universo voltasse a fazer sentido. A tela do celular está escura, fria, vazia até agora.

Hoje eu quis dirigir o carro em alta velocidade na direção de um poste, um muro, um viaduto. E eu quis que você me impedisse. Que você me desse outra escolha. Eu quis que você me ligasse e me escolhesse.

Tem um incêndio começando. O que você faz? Corra. Pegue tudo o que é importante, salve seus livros, seus discos e seus entes queridos, e fuja o mais rápido que você puder. Porque quando as portas e as janelas estiverem bloqueadas pelo fogo e você descobrir que é tarde demais para tentar se salvar, tudo o que você poderá fazer será ficar olhando. E tudo o que restará de você serão cinzas.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Longe demais



Quando eu conto sobre a minha vida amorosa para as pessoas, geralmente a reação é a mesma. Eu fui alguém que repetiu dois anos de ensino médio basicamente por causa de relacionamentos. Eu saí de um emprego por causa de um namoro que acabou. Eu me prendi oito meses a um relacionamento com alguém que não teve a decência de ser grato pelas coisas boas que eu fiz e, em vez disso, jogou minha confiança no lixo. Eu já me vi abrir mão de várias coisas, inclusive de mim mesmo, por pessoas que passaram, deixaram um rastro de bagunça, como um tornado, e então se foram, fizeram questão de ir. Sempre que alguém ouve minhas histórias mal resolvidas, a conclusão é de que eu passei dos limites, enfiei os pés pelas mãos, joguei pérolas aos porcos. Fui idiota demais, ingênuo demais, cego demais. Fui longe demais.

Existe um limite para todos nós, uma carga máxima que cada um consegue carregar, seja ela física ou emocional. É impossível levantar um ônibus com as mãos ou carregar uma tonelada nas costas. Mas uma vez que nossa carga emocional não pode ser medida com números ou qualquer outro tipo de lógica, como a gente sabe que é demais? Qual é o limite que cada um de nós consegue arrastar, e por quanto tempo? Por quanto tempo é possível empurrar uma carga emocional, e puxar alguém junto ao mesmo tempo? Como a gente sabe que está indo longe demais?

Eu obviamente gostava destas pessoas por quem eu me esforcei. Fiz todas as coisas que podia para mantê-las ao meu lado e quando elas decidiram fazer o contrário, eu sofri. Desabei de lá de cima de alguma montanha  imaginária da qual eu tentava alcançar o topo (se é que existe um topo, um auge, nesse tipo de coisa). Todas as vezes que eu pisava em falso, era um escorregão, e eu me machucava de alguma forma, caía alguns metros, segurava em algum ponto da montanha e voltava a subir, mas dessa vez mais fraco, mais ferido, menos confiante de que algum dia veria o sol nascer por trás dela. Até que o chão tremia, eu perdia o equilíbrio e decidia que não valia mais a pena. Eu soltava. Caía de costas no chão e ficava sem ar com o impacto. O céu girava, eu me sentia nauseado.

É assim quando a gente decide se soltar de uma montanha tão importante para nós, que a gente deu tanto duro pra conseguir escalar, é triste e faz o coração doer, a garganta queima e a gente chora de repente, em momentos aleatórios e inesperados, dentro do trabalho, enquanto dorme, enquanto come, como se alguém nos tivesse dado um soco na boca do estômago, dolorido, inesperado. As pessoas que nos amam olham para nós depois, feridos e frustrados, cheios de poeira e sangue pela pele, com a roupa amarrotada, os lábios ressecados e a olheira monstruosa. "Reaja", essas pessoas dizem. "Você não merece isso. Vai lá, toma um banho, encara a vida, encara o sol, procura outra montanha para escalar. Você já foi longe demais!"

Eu entendo cada um de vocês. Peço desculpas, do fundo do meu coração, por não reagir, por não encarar as coisas desta forma tão positiva. É que eu não acho que algo esteja acabado até que realmente tenha acabado, até que eu não tenha mais forças para lutar e decida me soltar dessa montanha que eu encontrei sem querer.

Sei que quando eu decidir me soltar, haverá pessoas lá embaixo para me segurar, ou pelo menos para me ajudar a levantar do chão, e eu sou profundamente grato por isso. Mas infelizmente cabe a cada um de nós saber o quanto está disposto a se esforçar por algo, e quando não vale mais a pena. Quando não dá mais para aguentar o peso e a gente sente que foi longe demais, acho que a gente está completamente errado: fomos longe, sim, mas eu diria que fomos longe o bastante para dizer para nós mesmos "aguentei o máximo que pude". E então a gente se permite soltar, descansar e, depois do baque repentino e das feridas que a gente vai ter que curar, respirar novamente.


Mas, até lá, é uma bela de uma subida. E haja força.

domingo, 1 de julho de 2012

Laranja


Eles têm um método na Indonésia para capturar macacos: é colocada uma laranja, ou qualquer outra fruta grande dentro de uma cumbuca, com um espaço pequeno o suficiente para que apenas a mão do animal consiga entrar. O macaco, procurando por alimento, enfia sua pata na cumbuca e agarra a fruta. Feito. Ele está preso. A mão conseguiria sair com a mesma facilidade com que entrou, se não fosse pelo detalhe chave do mecanismo: o animal não solta a fruta, que é grande demais para passar pelo buraco, impedindo-o assim de se libertar.

Parece uma estupidez gigante à primeira vista, mas não é incomum ver isso acontecendo o tempo todo, não só na Indonésia, não só com os macacos, mas aqui e com todos nós. Quem nunca se viu preso a uma laranja, colocando em risco a própria sobrevivência e, mesmo sabendo disso, recusando-se a deixá-la? Quem nunca se enfiou sem pensar em um espaço muito pequeno, acreditando que ali dentro haveria algo delicioso, suculento e vital, mas que acabou se mostrando um verdadeiro cativeiro?

Todos já nos sentimos como animais irracionais, lutando por algo que nunca vai poder ser conciliado com a vida, com a liberdade, uma escolha entre a laranja e a sobrevivência, entre o amor que encontramos sem querer e a paz de espírito que demoramos longos meses para construir, entre fazer alguém feliz e ser feliz, amar e sentir-se amado - todos nós já tivemos laranjas difíceis de soltar.

Lutamos, ralamos os pulsos, gritamos, gastamos toda a nossa energia, só para descobrir no final que se quisermos mesmo encontrar alguma liberdade é preciso soltar a laranja. O buraco na cumbuca não vai aumentar. A laranja não vai se adaptar ao buraco. E ficar preso a ela é suicídio. A única forma de sobreviver a este tipo de prisão é, obviamente, abrir mão. Por mais brilhante e perfumada que seja uma laranja, não vale a pena se colocar em risco por ela. 


Os macacos que sobrevivem acabam descobrindo que existem outras laranjas pela floresta, que muitas delas estão apenas penduradas em galhos, livres, e que nada pode ser mais suculento e valioso do que uma laranja que está conciliada com a harmonia, a paz de espírito e a liberdade.

sábado, 30 de junho de 2012

Goodbye



Eu tive que me acostumar com as despedidas. A vida as impôs várias vezes no decorrer da minha existência, e por mais que elas continuem acontecendo constantemente, por mais que eu tenha me acostumado com elas, há uma parte difícil em cada despedida com que eu nunca vou aprender a lidar.

Há um espaço em todas as despedidas. Um espaço vazio onde havia algo importante, essencial, acolhedor. Uma ausência no espaço entre seus dedos. Uma casa vazia e ruas pelas quais você não vai passar por um bom tempo. O espaço entre um minuto e o outro, entre julho e agosto. Dizer adeus é quase como uma amputação, um membro fantasma que estará ali durante muito tempo, mesmo não estando mais. Toda despedida leva consigo um pedaço de você, um pouco do seu oxigênio.

Eu disse adeus várias vezes, e cada uma delas foi dolorosa de uma forma particular. Despedir-se significa uma determinada gama de perdas. Ninguém é igual a ninguém, nenhum amor é igual ao outro, nenhuma história se repete, e isso faz com que cada despedida seja única, dolorosa, e a gente nunca vai se acostumar com isso: a perda de algo singular e insubstituível.


No geral, eu aprendi algo sobre ter que dizer adeus: ame alguém com toda a energia vital que lhe foi dada. Esforce-se. Faça tudo o que puder se seu coração sentir que deve. Leve cupcakes para a pessoa se ela teve um dia ruim, beije-a como se fosse a última vez, respire o ar quente que sobe do pescoço dela quando ela está deitada ao seu lado. Ame-a e deixe que ela saiba disso. Mas tenha em mente que nada dura para sempre, e acredite nisso com todas as forças que você conseguir reunir para convencer-se de alguma coisa. 


No momento em que você pensa que tem algo, ele se vai. E na maioria das vezes não há nada que você possa fazer para ele ficar.

Goodbye, brown eyes, goodbye for now.
Goodbye, sunshine, take care of yourself. 
(Goodbye - Avril Lavigne)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Tomorrow




Quando algumas coisas ruins acontecem, nós demoramos para reagir. Se você cai, o corpo demora alguns segundos para sentir dor. Alguém que sofre um acidente de trânsito entra em choque na hora, fica imóvel, sem reação, mal respira. Uma notícia ruim é tão inacreditável que a gente tem que fechar os olhos para processá-la.

De uma forma geral, quando algo ruim acontece, existe sempre algo pior por vir. O momento do impacto é neutro: o pior é o que vem depois. Gostamos de mentir para nós mesmos que amanhã será melhor, amanhã fará sol, amanhã tudo será diferente. Mas nem sempre é assim. Na maioria das vezes, amanhã é mais difícil do que hoje.

Hoje é o dia em que a notícia foi dada, em que a bomba explodiu, em que você se chocou com a verdade. Hoje é imóvel, é silencioso, é repentino. Mas amanhã é o dia em que você vai descobrir que é verdade, mesmo, que não foi só um sonho ruim, que você dormiu, acordou e realmente aconteceu, as paredes realmente vieram abaixo, o chão sumiu, o nó na sua garganta está mais apertado do que nunca, você estava indo em uma velocidade muito alta e não se deu conta de que havia um muro à sua frente.

Amanhã é o dia em que você vai ter que aprender a dar os primeiros passos de novo: pra fora da cama, e depois do quarto, e então de casa, encarar o mundo seguindo em frente lá fora, os carros seguindo para qualquer lugar, as pessoas entrando e saindo de seus locais rotineiros, a vida acontecendo naturalmente, mesmo que pareça que houve uma interrupção no tempo, que o mundo parou um pouquinho. Será o primeiro "tudo, e com você?" que você vai responder para alguém, tentando não transparecer a verdade. Amanhã você terá que aprender a sorrir de uma forma diferente, a engolir certas lembranças ásperas no meio de um dia útil. É o primeiro dia depois da mudança; é o começo da cura. Amanhã são horas intactas, cheias de escolhas e recaídas. Amanhã é a primeira refeição que você vai engolir por obrigação. Amanhã é o primeiro expediente que você vai fazer sentindo o tempo se arrastar, ouvindo todas as pessoas falarem de coisas que, por alguma razão, te lembre do impacto. 


Amanhã é ir para a casa depois do trabalho sem vê-lo, para não dificultar as coisas. Amanhã é a força que você vai ter que descobrir onde encontrar. Amanhã você vai se perguntar por quê. Não haverá respostas. E amanhã vai doer. 


Amanhã é pesado, é o dia um, é o (re)começo da escalada. O principal motivo de adiarmos as coisas é que, de alguma forma, sabemos que as consequências das nossas escolhas geralmente são mais difíceis do que imaginamos que seriam. No entanto, depois de amanhã, vem outro amanhã. E então outro, e mais outro, e mais outro. E se soubermos encarar todos os dias, sem adiá-los, sem temê-los, um belo dia a gente acorda em um amanhã que se transformou em um hoje, e descobrirá que hoje realmente é melhor, que realmente faz sol, que as coisas estão mesmo diferentes.

Porque amanhã realmente é difícil. Mas será ainda pior se não nos permitirmos hoje dar início ao primeiro passo de toda a dor e também de toda a cura: o depois.

sábado, 23 de junho de 2012

A verdade em suas mentiras



Você sabe quando uma pessoa está mentindo. Dizem que ela emite vários sinais, tão pequenos que não somos capazes de interpretar conscientemente, mas que no fundo de nossa mente, sem saber, nós os captamos. Alguém que está mentindo não te olha nos olhos, talvez porque tenha medo de que você enxergue a verdade diretamente na fonte da mentira: a alma.

Mas nós enxergamos, mesmo assim. A mentira tem cheiro. Conseguimos ver a mentira de longe. Aquela contração de um milionésimo de segundo entre as sobrancelhas da pessoa, que nós nem sabemos que vimos, faz um alarme apitar dentro das nossas cabeças, e a gente sabe quando algo não é verdadeiro. Todos nós temos este mecanismo, alguns de nós nem sabem que têm, outros não o desenvolveu.

A diferença, no entanto, não está em como enxergamos a mentira. Está em como não queremos enxergar a verdade. Às vezes ela é tão fria e difícil que preferimos acreditar na mentira que nos é contada. Programamos nosso próprio cérebro para acreditar em uma história cheia de buracos porque sabemos que se a verdade resolver vir à tona, vai doer. Então nós tapamos os olhos, ignoramos os sinais, e só ouvimos. Deixamos que a mentira entre e nos conforte, mesmo quando ela tem arestas mal aparadas que não se encaixam em lugar nenhum.

Mas por mais que tentemos acreditar nas mentiras dos outros, existe essa voz em algum lugar que não nos deixa mentir para nós mesmos. Não adianta tentar tapar o sol com a peneira. Ela está ali, clara, nua e crua, bem debaixo do nosso nariz: a versão real dos fatos; a resposta para todas as nossas perguntas; o antídoto para todos os venenos que circulam em nossas mentes. A verdade.

A verdade desata a maioria dos nós, clareia tudo aquilo que parece confuso e sem sentido, preenche as lacunas das nossas dúvidas. A verdade é a única coisa que pode nos salvar, e, mesmo assim, é a última coisa que queremos enxergar nos olhos de alguém.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Insustentável Leveza


Eu aguento o não. Eu aguento a verdade. É uma forma completamente distorcida do que eu desejo, mas eu consigo suportar. Consigo aguentar o frio de qualquer madrugada, e aguento a fome de dias sem o menor apetite. Suporto a falta de oxigênio e a insuficiência dos meus pulmões. Tolero o modo como as cores ficam mais brilhantes por causa da adrenalina da espera, e como elas se tornam opacas quando a expectativa é frustrada.

Eu aguento o chão gelado de manhã, aguento me virar na cama e procurar pelo telefone. Não é tão difícil. Eu o alcanço e são sete horas. Eu volto a dormir e de repente são oito e meia. Durmo de novo, são nove e quinze, uma mensagem nova. Eu consigo aguentar esses intervalos.

O pedaço de papel rabiscado e que eu joguei fora porque tinha escrito algo que queria te dizer, mas que não podia. O pedaço de frase que eu engoli porque seria assustador pronunciá-la inteira. O sabor de sangue que fica em meus lábios quando você me beija e meus batimentos cardíacos acelerados que você sempre ouve e comenta. Eu consigo aguentar o espaço apertado no carro, o espaço apertado no tempo, o espaço apertado na garganta que dificulta a passagem do ar de vez em quando.

Mas ainda não aprendi a lidar com o cheiro que fica em minha pele quando eu chego em casa depois de te ver. Ainda não sei sair lá fora e não te procurar em todas as placas, em todas as portas, em todas as músicas que tocam nos carros ao lado. Não suporto a chuva fria molhando minha roupa, que gruda em mim, e eu sinto frio mas não tem você para aquecer meus ossos. Ainda não consigo aguentar o cheiro do açaí, alguém falando inglês perto de mim. Tudo isso me lembra você de repente e eu não consigo me preparar, simplesmente vem, quando eu menos estou esperando, quando minha cabeça está seguindo um padrão normal de pensamento, de repente você está ali na minha frente - e não está - sorrindo, com seus olhos semi-cerrados e sua boca bem desenhada. 


E é assim, um dia eu aprendo, a gente sempre aprende, depois de um tempo que a gente passa explicando pra gente mesmo que "vai passar, vai passar", realmente a gente aprende a aguentar. Mas de todas essas coisas, acho que há uma que eu nunca vou aprender a suportar: não saber. 


Não saber é insuportável.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O que dói



Há um ditado popular que diz que o que arde cura. Nossos avós diziam isso, e é um ponto de vista interessante se você considerar que dor muitas vezes significa que tem algo de errado acontecendo. Um corpo estranho. Um sangramento. Algo que não deveria estar ali, mas está. Mas se você parar pra pensar na maioria das intervenções médicas que temos - cirurgias, injeções, remédios - chegará à conclusão de que muitas vezes a dor é o principal sintoma da cura.

Todos nós passamos por ela durante a vida, porque fomos projetados para sentir dor. Cada centímetro de nossos corpos está exposto, e dói quando a gente cai no chão e se rala. Dói quando a gente tem que deixar alguém ir embora. Dói ter que abrir mão de pedaços importantes de nós mesmos. Dói saber certas coisas e dói mais ainda não saber outras. Alguém gritando dói, e o silêncio muitas vezes é insuportavelmente doloroso. A espera dói, a esperança se esgotando dia após dia, cada vez que o ponteiro do relógio se move. O "não" se tornando mais nítido do que o "sim". O telefone que não toca - e quando toca não é quem você estava esperando. Tempo perdido dói. Sentir-se desperdiçado (e despedaçado) dói. Viver dói - é assim, e é um dos nossos únicos mecanismos para provar que estamos vivos.

Quando dói significa que algo tem que mudar e, exceto para queles que se deixam engolir por ela, dor muitas vezes significa que algo já está mudando, crescendo, trocando de forma, ficando mais forte. Como o fogo que arde e transforma uma gosma de vidro em uma peça bela e preciosa, como o tempo que pulsa dolorosamente em nossas cabeças, como o vento forte e cortante que transforma a paisagem no deserto todos os dias. Quando a dor chega ao seu ápice e a gente tem que prender a respiração, quando parece que a gente não vai mais aguentar, significa que esse é o ponto alto da mudança. É aqui que a gente toma as decisões mais sábias, porque quando a dor desafia a própria sobrevivência, a gente começa a enxergar com mais clareza. Ou a gente usa a dor como ferramenta, ou a gente é engolido por ela.

Quando há algo errado e uma dor é muito grande, o corpo inteiro se concentra naquele ponto. Literalmente. Tanto que é difícil se concentrar em outras coisas. E embora existam vários tipos de analgésicos disponíveis, capazes de dizimar certas dores em segundos, sejam elas físicas ou emocionais, elas sempre voltam. E então a gente percebe que nossos avós estavam certos: o que dói realmente cura, e o melhor remédio para a dor é, no final das contas, deixar doer.

groselha



O mundo está em pedaços e você é a parte que falta de um quebra-cabeça difícil. O céu ganha cor de groselha de vez em quando e eu tento abrir a boca e sugá-lo gota a gota só para ter a sensação de que algo pode preencher docemente um vazio amargo que você não vai preencher. Eu fecho os olhos de vez em quando e ouço a voz das outras pessoas e de repente todo mundo tem tua voz, todo mundo tem o teu nome, de repente o mundo mudou de cor e ficou como teus olhos cor de chocolate. E quando eu abro os olhos você está estampado em um outdoor, mesmo não sendo você, e aquela camiseta larga da universidade te cai tão bem...

Eu me deito na noite e você é uma pergunta que nunca se cala, como uma charada infantil engraçada, mas eu não sei se vou rir da resposta. De repente é como se você estivesse dentro de mim desde sempre e agora que eu te descobri você quer ir embora como um pássaro bonito e exótico, querendo voar e se misturar no céu vermelho, na groselha e no chocolate, e ser parte de tudo aquilo que é doce nesse mundo que está sempre em pedaços.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Sol de cada um



Se algum dia o Sol explodir, vai demorar oito minutos para que a gente perceba. Este é o tempo que demora para que a luz chegue até nós. É o que diz o filme Tão Forte e Tão Perto. Dentro de oito minutos ainda teremos luz para iluminar nossos olhos; ainda haverá calor para corar nossas faces. Durante esse tempo, ainda haverá uma fonte de vida. Depois, tudo será escuro, frio e sem cor.

Mas o Sol explode o tempo todo, metaforicamente. O Sol particular de cada um de nós. As expectativas que criamos e que iluminam nossos dias, aquecem nossos corações, colocam cor e vida em nossas existências. Os planos que fazemos para o futuro, tão concretos, tão possíveis, minunciosamente traçados. Os amores pelos quais a gente se dedica, se esforça, atravessa rios e trânsitos, porque são tão bons, são tão acolhedores, tão quentes, como um Sol... até que explodem. Demora um tempo. A gente acha que está tudo bem, e de repente fica tudo escuro. De repente faz muito frio. Oito minutos, oito anos, oito segundos. Quanto mais perto você estiver do seu Sol, menor vai ser o tempo para que você perceba que ele não existe mais.

Tudo no Universo funciona equilibrado, mas nem sempre é assim. Às vezes a gravidade se desregula e a gente se desprende do chão, só pra descobrir que ela vai voltar a qualquer momento para nos puxar de volta violentamente. Às vezes nosso peso é várias vezes maior do que o normal porque o coração está afundando dentro do peito. E, voltando ao Sol... às vezes um deslize da natureza, uma fagulha fora do lugar, uma palavra que você colocou de forma errada dentro de uma frase, e o Sol explode. Tudo aquilo que você acreditava ser forte, eterno e seguro se transforma em escuridão. Uma vez que estamos acostumados ao calor, é difícil se adaptar à falta dele. Como explicar para nós mesmos que em tão pouco tempo a gente perdeu algo tão importante e que nem nos demos conta de que o frio estava chegando? Como se acostumar com uma queda tão grande de temperatura? Como sobreviver sem aquilo que faz nossos dias nascerem?

No começo é desesperador. Não há pra onde correr, aquela era sua fonte de luz e de sobrevivência. Se parece com a morte. Mas se a gente respirar fundo e deixar que nossos olhos se adaptem à escuridão, descobriremos que há bilhões de estrelas brilhando, emitindo luz e calor, e que se a gente souber olhar bem cuidadosamente e cultivar a estrela certa, um dia ela poderá se transformar em um Sol lindo, amarelo, vital... e tudo voltará ao seu devido lugar.

sábado, 9 de junho de 2012

Incêndio



Teste de inteligência emocional: tem um incêndio começando. O que você faz? Você tenta apagar o fogo, desencorajar as faíscas, você abafa o calor que começa a subir pelas paredes porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai se tornar um grande incêndio e você não poderá controlá-lo? Você salva o que pode e foge o mais rápido que puder? Você grita por socorro? Quando você sabe que algo pode te ferir, queimar tuas células, arder em teu sangue, abalar teus sentidos... o que você faz? Hipoteticamente, todos nós correríamos, tentaríamos nos salvar. É um instinto de sobrevivência - qualquer ser vivo corre do perigo.

É preciso tomar uma decisão rápida, mas no geral, quando o incêndio é dentro da gente e não fora, a tendência é a gente ficar parado. Esperando. Esperando que a faísca se transforme em um belo show pirotécnico. Esperando pelo ápice do fogo.  E a gente sabe que pode doer, em algum momento, que vai ser intenso e perigoso e vermelho. Mas agimos assim independente do perigo iminente e quanto maior for o alerta de risco, mais atraente se torna. Quais as chances de você se ferir em um incêndio desse tipo? Se você vê o fogo e, em vez de correr do perigo, decide participar dele de dentro, na alma do incêndio, no coração da tempestade? Quais as chances de você se arrepender e ser tarde demais?

Não há respostas aqui, apenas perguntas.

Repito: tem um incêndio começando. O que você faz?


"'Cause I see sparks fly 
Whenever you smile"
(Taylor Swift - Sparks Fly)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Não é amor...


Eu achava que era amor, e quem não acharia? Aquela sensação de que seu coração poderia explodir em mil pedacinhos cor-de-rosa a qualquer momento. O nó na garganta e a falta de ar. A vontade mortal de estar perto. O chão, caramba, onde ficava o chão mesmo?

Era amor, era claro que era amor. Amor dos bons. Amor dos grandes. Amor da minha vida. Aí acabou... Acabou o namoro, a amizade, depois acabou o contato, acabou a felicidade, passou o sofrimento e... acabou o tal do amor.

Que coisa estranha. Mas amor não é eterno? Amor não colore a vida? Que raio de amor é esse que faz o coração doer dentro do peito, que te deixa sem ar, sem chão. Cheguei à conclusão de que não era amor, coisa nenhuma. Porque se dói, cansa. E se cansa, uma hora a gente não quer mais, e acaba. Só que amor - verdadeiro - não acaba.

Amor de verdade te faz respirar, isso sim. Te dá tranquilidade no peito, a sensação de que está tudo bem e que você não precisa temer - vai dar tudo certo, porque é amor, porque é de verdade. Amor que é amor te faz sentir o chão nítido e sólido debaixo dos pés. Te faz acordar tranquilo e jamais te tira o sono. Nunca que vai ter esse alarme berrando na tua cabeça, perigo! perigo!. Você vai deitar nesse amor e ele vai ser confortável como uma coberta no meio do outono. Amor de verdade só vai te pegar de surpresa quando for surpresa boa; vai curar tuas feridas - não vai causar novas.

Esse amor que vendem por aí, que deixa a pessoa fora de si, não é amor. É loucura. É castigo. É guerra, caos, é morte. Amor de verdade faz com que você se encontre, não com que se perca. Amor de verdade enche tua cabeça de razão e lucidez. E quando você encontrar, quando for de verdade, você vai saber.

Se dói, se te deixa inseguro, se faz mais mal do que bem, pode apostar: é tudo... menos amor.

domingo, 3 de junho de 2012

Por favor, não vá embora



Quando eu me lembro daqueles dias, daquela casa naquela cidade pequena, eu sinto uma leve dor de estômago. Lembro-me que eu fechava os olhos e pedia com força, enquanto ele dormia ao meu lado, que eu nunca perdesse aqueles momentos, que eu nunca tivesse que aprender a esquecer aquele garoto, que eu pudesse ter força e sabedoria pra lutar por ele e fazer dar certo, fazer ele ficar, fazer ele nunca querer ir embora.

Foram meses sufocantes e dolorosos de uma ansiedade que quase me rendeu uma úlcera. Eu vivia com medo do fim. De não poder ter mais aquelas conversas inacabáveis por telefone todos os dias antes de dormir. De estar passando na rua, pensando em qualquer coisa, e sentir aquele soco no estômago que a gente sente quando algo minúsculo, ridículo, insignificante, quase inconsciente, tem o poder de despertar memórias tão vívidas e poderosas - um carro de que ele gostava, alguém mencionando um lugar em que vocês estiveram juntos, uma gíria que ele costumava usar.

E eu fiz o que a gente faz quando tem medo de perder algo: eu lutei por aquilo. Todos os dias, era uma luta constante, uma luta contra mim - para esconder meus medos e ser uma pessoa "normal" -, uma luta por aquele relacionamento que era tão bom e ao mesmo tempo tão assustador, tão cheio de quedas repentinas que me faziam perder o fôlego e o controle. Eu dormi na praça da cidade dele em uma noite de frio para que eu pudesse estar perto dele, eu abri mão de tanta coisa, eu lutei.

Lutei até o último segundo, até a última gota de possibilidades, lutei até mesmo depois que acabou. E, no final das contas, apesar de toda a dor que isso me causou, de todas as cicatrizes que essa luta me rendeu, eu aprendi que não importa se você ama tanto alguém que seu coração queima dentro do seu peito, não importa o quanto seu sangue circule em suas veias infectado pelo nome daquela pessoa, não importa o quanto você feche os olhos e peça, reze, negocie com Deus ou com quem quer que seja, e afinal não importa o quanto você lute - aquilo que tem que ir, que não foi feito pra ficar, aquilo que não é verdadeiro e que não tem força para durar por muito tempo, acaba, independente do que você faça.

E não é destino, não é "se tiver que ser, será". É pura seleção natural: o que for forte o bastante  sobrevive.

Infelizmente é assim. A vida é difícil, mesmo, e os momentos bons são raros e duram pouco. Mas se a gente souber relaxar os dedos e abrir mão de lutas antigas que não valem a pena, a gente vai descobrir que algumas coisas são exatamente tão passageiras quanto parecem, a gente é que coloca muita fé nelas e as enxerga maiores do que são. E você descobre, também, que existem caminhos mais fáceis se a gente souber procurar, e é tão simples interpretar as placas e os sinais que a gente nem presta atenção, mas aqui vai uma dica: alguém que te ama e por quem vale a pena lutar, nunca vai ser um objeto de luta porque vai lutar com você.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sem o ar pra respirar


Quanto tempo alguém pode ficar sem respirar? Li em algum lugar que, com muita prática, a média é de três minutos, embora existam recordistas no mundo que já ficaram mais de dez minutos sem nenhuma molécula de oxigênio entrando em seus pulmões. Parece loucura, parece insuportável. A gente perde o fôlego só de imaginar.

Eu consegui por dois minutos e cinquenta e três segundos. O tempo de uma ligação. Depois de passar a manhã inteira ensaiando na frente do espelho tudo o que eu tinha pra dizer, chegando à conclusão de que eu não ia lembrar de metade e, então resolvendo escrever, coloquei tudo no papel, com caneta vermelha para me lembrar das partes importantes, e de repente era uma folha inteira ensanguentada, com palavras inflamadas tiradas do fundo do organismo de alguém...

Tudo pronto. Celular na mão, disquei o número, tão familiar, consigo repeti-lo como uma canção de ninar, oito um cinco cinco, parece que eu conheço esse número desde o útero, que antes mesmo de abrir os olhos eu já tinha aquela sequência de oito dígitos gravada no meu subconsciente... O botão verde ali, poucos milímetros abaixo do dedo, parecia quente demais, tocá-lo poderia causar uma queimadura grave. E foi aqui, neste exato momento, que eu tomei ar, prendi a respiração, e disquei.

Se chama seis vezes, cai na caixa postal. Chamou quatro e eu pensei em desligar, que bobagem, o que vai adiantar? Chamou cinco, e ele atendeu. Foi difícil, alguns segundos de silêncio, os primeiros sintomas da falta de ar - pontos pretos na vista, tontura, aquela pressão no peito - começaram a surgir. Eu só tinha mais dez minutos sozinho em casa. É agora, disse para mim mesmo, é agora ou nunca, fala. Fala tudo.

Eu não queria ter dito aquelas coisas, foi tudo da boca pra fora, aquela raiva era só um mecanismo de defesa pra que eu não sofresse, uma hora eu tive que encarar a verdade e a verdade é que sinto sua falta, sei que não é de uma hora para a outra, mas eu queria que fôssemos amigos, a vida é curta demais, não quero acordar daqui a dois anos sabendo que eu não fiz nada, que eu deixei as coisas como elas estavam, que eu perdi algo muito importante...


Nada de ar entrando em meus pulmões, só saindo, eu disparei tudo aquilo que estava preso dentro de mim por cinco meses, eu falei tudo, eu vomitei as palavras, eu emagreci mil quilos, eu desdei todos os nós dos meus nervos, eu perdi todo o sangue e repus, a vista ficou preta, eu quase desmaiei, eu quase caí. Mas eu falei tudo que estava preso, sugando meu sangue, consumindo minha energia vital.

Só isso?
Só.
Então tá... tchau.


E eu voltei a respirar, dois minutos e cinquenta e três segundos depois. Mas por algum motivo ainda estou sem fôlego. A gente tem que lutar por algumas coisas, a gente tem que ser a gente mesmo, a gente tem que prender a respiração e mergulhar fundo e nadar até não conseguir mais mover os braços, se a gente quiser chegar em algum lugar.

Mas... às vezes, a gente deveria deixar as coisas como elas estão, pelo nosso próprio bem, pela nossa própria saúde, pelo valor do ar que a gente inspira... e expira.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Escrevi e mandei


Sabe aquela história do "escrevi mas não mandei"? Aquela mensagem que fica gritando no fundo do seu cérebro enquanto você tenta fazer outras coisas mais úteis e você a digita para se livrar dela, mas não manda de fato, para evitar o turbilhão de consequências que ela pode desencadear? Bom, digamos que eu mandei.

Não vou dizer que mandei aquela mensagem despretensiosamente, só por mandar. A gente não faz uma coisa dessas, não se desafia assim, não injeta mais adrenalina no sangue do que acha que pode produzir, não se joga de cabeça na água gelada, se a gente não achar que vai valer a pena, que a gente vai ter uma resposta positiva e que tudo ficará bem. Existe esse sentimento estúpido e delicioso, como uma rebeldia da alma: a esperança. Esse buraco microscópico no muro que deixa uma frestinha de luz entrar. A esperança é esse pequeno empurrãozinho... esse MALDITO empurrãozinho que faz você rolar ladeira abaixo e se quebrar todo.

A mensagem era simples, no geral. Nada meloso demais, nada depressivo demais. "Me liga se quiser sair pra conversar um dia, não quero mais essa mágoa entre a gente, sinto falta da sua amizade mas não vou mais te procurar porque não quero ser insistente, então tá na sua mão." Mais ou menos isso.

A gente tenta, eu sei, todo mundo já passou por isso. Todo mundo já se sentiu a ponto de explodir se não fizesse algo, se não saísse da inércia por alguns minutos, do "deixa rolar", do "se for pra ser, será". Nada pode ser mais irritante do que isso, esperar que a vida, o Universo, Deus, Santo Antônio, a mãe Tereza ou, quem quer que seja, resolva sua vida, como se você não fosse o autor dela, o protagonista e diretor da sua própria existência. De vez em quando eu pego meu violão, desafinado mesmo, e começo a tocar acordes aleatórios só pra sentir que eu estou tirando música de algo, fazendo o ar vibrar e produzir algum som diferente do silêncio de costume, só pra ter certeza de que de vez em quando dá pra romper um ciclo de mesmice, nem que seja com um violão desafinado. De vez em quando eu pego meu celular e mando mensagens para ele, pra tentar quebrar essa parede imensa que ficou entre a gente por tão pouco, por coisas que foram ditas e feitas no momento do mais puro sofrimento e raiva.

Mandei essa mensagem e minha cabeça deu várias voltas. Toda vez que o celular vibra eu dou um pulo, saio do corpo, entro em alfa, meu coração pula uma batida, tudo isso na fração de segundos que antecede o ato triste de pegar o celular e ver que não foi ele. Nunca é ele. É sempre uma tela sensível ao toque - a mais insensível de todas - mostrando o horário pra me fazer lembrar que talvez seja tarde pra tentar algo que não deu certo nem quando tinha que dar, e o nível da bateria - um lembrete cruel de que minha paciência também está se esgotando.

Como eu queria poder mudar certas coisas, entender por que é que ele tem tanta resistência em falar comigo, mesmo eu não tendo feito nada demais, mesmo depois de tudo que a gente teve, e eu não tô falando de amor não, porque eu sei que amor acaba e deixa um rastro de sujeira pra trás, como um tsunami que chega de repente, assusta todo mundo, entra na vida das pessoas tirando tudo do lugar e depois vai embora, deixando dor e desordem por onde passa. Eu me refiro à amizade que a gente teve, mesmo. Àquela vez em que eu abracei ele no carro e chorei no ombro dele, com a cara enterrada na camiseta rosa com cheirinho de limpa, por um motivo que era só meu. Às nossas risadas e cumplicidade. À tanta coisa que ainda parece viva e nítida pra mim, mas que pelo jeito não tiveram tanto valor assim pra ele. Como eu queria poder entender isso: pra onde vão todas essas memórias e todos esses sentimentos? Como é possível alguém esquecer tudo isso, vomitar tudo, fingir tão bem que nunca aconteceu que de fato deixa de existir no tempo? Como pode algo continuar tão vivo dentro de mim, como uma estrela que não tem a menor intenção de explodir, enquanto pra ele ficou tudo em um universo paralelo que implodiu e se transformou em uma rocha cinza, fria, do tamanho de um grão de areia?

Até agora eu não obtive nenhuma resposta. Nem dessas perguntas, nem da mensagem que eu mandei. Mas a mensagem que eu gostaria de deixar no final deste texto não é pessimista. O que eu realmente gostaria de dizer pra todo mundo que está lendo isso aqui, e que escreve mas não manda, é: mande! Arrisque até sua última ficha. Se tem algo gritando no fundo do seu cérebro, significa que precisa ser dito ou feito o quanto antes.

Às vezes a resposta não é a esperada. Às vezes sequer existe uma resposta. E dói - o silêncio, a tela com o horário e o nível da bateria, o desprezo. A indiferença. É como um daqueles sonhos em que você quer correr e gritar mas não consegue sair do lugar, por mais que mova suas pernas, e nem emitir sons, mesmo que seus pulmões estejam quase explodindo por tentar gritar. A indiferença sufoca, desespera, "claustrofoba", dói. Dói.

Mas, se você não fizer nada, algum dia vai descobrir que ficar parado e não saber como teria sido se... (e esse "se..." deixa muita gente louca), dói mais ainda.

sábado, 26 de maio de 2012

Borboletas Mortas



Quando você foi, daquela maneira tão triste e violenta, ficou um vazio. Eu tive que te arrancar de dentro de mim com tanta força, que um pedaço meu foi junto. Eu virei pedra.

Eu aprendi a guardar certas coisas dentro de mim, bem lá no fundo, onde ninguém consegue ver ou tocar, a jogar no lado seguro da vida, a ser feliz com o que eu tenho hoje e não com memórias velhas de coisas que nem aconteceram, coisas que eu criei em minha mente um dia para fingir que tudo estava bem. Eu me tornei maior, mais forte e mais sóbrio. Às vezes um pouco mais sério e frio do que eu gostaria, mas são só os efeitos colaterais de se enterrar dentro de si mesmo.

Só que, de vez em quando, você aparece nos meus sonhos, os transforma em pesadelos, e eu não posso dizer com certeza mas acho que eu paro de respirar por alguns segundos na minha cama, porque eu sempre acordo com essa pressão enorme no peito e essa sensação de afogamento. É possível se afogar dentro da gente? Eu te enterrei na parte mais escura da minha memória, no inconsciente, no outra-vida-outro-lugar, mas de vez em quando você teima em aparecer, em mostrar teu rosto - todos esses traços incoerentes e exóticos e lindos - que eu tenho lutado tanto pra esquecer. Mas esses sonhos nunca são bons, eles duram uma eternidade, um filme inteiro, um romance ruim de mil páginas, têm começo-meio-e-fim, e geralmente acabam com você me traindo e eu volto a experimentar aquela sensação horrível de ter alguém esmagando seu coração com os dedos.

Por sua causa, eu aprendi a boicotar meus sentimentos. Aprendi a me distanciar de tudo aquilo que pode me tocar mais profundamente do que na pele. A evitar mudanças súbitas de temperatura interna. Matei todas as borboletas no meu estômago. Aprendi a fechar os olhos quando descubro que o rosto de alguém consegue provocar mudanças climáticas tão grandes dentro de mim que preocupariam o Greenpeace.

Eu só não aprendi, até hoje, a lidar com toda essa bagunça que você deixou dentro e fora de mim.



Mas em toda a história, é nossa obrigação
Saber seguir em frente, seja lá qual direção.
Eu sei. 
(Assinado Eu - Tiê)


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Poeira

Eram duas horas da tarde de um dia útil quando o telefone vibrou sobre a mesinha, tocando aquela música de que tanto gosto, e eu não prestei muita atenção no número de algum telefone fixo que o visor exibia, antes de atender.
A voz entrou e fez várias curvas no meu cérebro, tentando encontrar um nome, um rosto, algo que me fizesse saber de quem vinha aquele alô, tão familiar e tão estranho, como se viesse de outra vida, de outro planeta, em outra galáxia, em algum universo paralelo e impossível.

O tempo é uma coisa engraçada. Nada nem ninguém pode pará-lo, a gente tem que aceitar isso, e de repente uma voz consegue parar seu tempo em uma fração de segundos tão grande que você mal consegue respirar. A poeira dançando na luz que entra pela janela congela, e você se pergunta se o resto do mundo também sentiu essa freada brusca, esse tranco, essa sensação de ter caído em um completo vácuo e tentar gritar mas saber que sua voz não vai se propagar no nada por mais que você tente emitir algum som, algum pedido de socorro, algum pedido de perdão.

Tudo por uma simples voz, vinda de algum lugar do tempo em que você não pode mais estar, nunca mais poderá, porque é assim que as coisas são, a gente deixa muita coisa pra trás e depois fica se perguntando em qual ponto exato desta linha de tempo a gente deixou tudo cair das nossas mãos, tão fracas, tão brancas, tão cansadas de tentar se segurar a uma linha fina e cortante.

Que força é essa capaz de tirar a gente da gente, de fazer a mente morrer e nascer em tão pouco tempo, que força é essa que muda o magnetismo dos nossos polos, faz a gente perder o Norte, faz o chão estremecer e abrir-se em um buraco negro que suga a gente para tão longe e depois cospe a gente com tanta violência para o agora, para a realidade, para as duas horas da tarde de um dia útil de maio, que força é essa que abre páginas e queima capítulos, que faz a gente querer ser minúsculo, do tamanho de um grão de poeira dançante que agora está parado, e que se transforma em um desejo de ser enorme, do tamanho do mundo, que agora está parado também... que força é essa?

Como um suspiro de quem suga a vida de volta pra dentro, com tanta ânsia, com tanta sede, o mundo voltou a girar, bem devagar como quem está acordando, retomando a consciência, aquela fração de segundo empoeirada e anestésica se desmancha e a poeira retoma seu curso em direção a quê, afinal? Tudo se reconstitui, era uma voz, era apenas uma voz, de um garoto, em uma galáxia empoeirada e distante.

As coisas que a gente mais quer mudar são exatamente aquelas que serão sempre as mesmas.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Debaixo da Pele

Quando você quer algo com tanta intensidade que dói e, de repente, você o perde. Quando você ama com tanta força que se cansa, e então se decepciona. Quando aquilo que você mais precisa é exatamente aquilo que te destrói aos poucos. Ninguém nos disse como lidar com isso. Mas a verdade é que estamos expostos a vários tipos de danos, o tempo todo, durante toda a vida. Podemos nos cortar ou nos queimar. Corremos o risco de perder nossos sentidos. Alguns de nós ficam loucos. Nossa mente tem uma conexão direta com nossa pele e ferir-se é consequência de estar vivo - nem mesmo o mais forte de nós está isento disso.

O problema é que quanto maior for uma ferida, quanto mais dor ela causar, maior a nossa vontade de escondê-la. Não queremos aceitar, então a escondemos, apesar da dor que mal nos deixa dormir à noite, apesar da energia que ela consome, fingimos que ela não existe. E ela dói, e sangra e uma hora a gente não consegue mais suportar. Por mais escondidos que estejam alguns cortes, mais cedo ou mais tarde será impossível disfarçar.

Passamos tempo demais negando uma ferida e enquanto isso ela inflama. Todos os nossos valores são esquecidos e a gente profere palavras pontiagudas, incendiamos lugares mentalmente, desejamos a morte, desejamos morrer. É o efeito colateral de toda ferida que não foi permitida curar-se: ardemos em febre e deliramos as vinganças mais diabólicas. Queremos ferir de volta, expor a nossa dor para o mundo inteiro ver e unir-se a nós contra quem nos feriu.

Demora para que a gente perceba que algumas feridas não irão se curar sozinhas, e que só dependem da gente. Escondê-las é adiar o inevitável: uma hora será necessário encará-las. Porque você pode fingir que elas não existem por quanto tempo achar necessário, negá-las para si mesmo e para o resto do mundo. Mas quando você pensar que elas se curaram e que são apenas cicatrizes, descobrirá que ainda estão ali.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Amanhã você não fez

Tive uma professora em um curso que eu fiz que, ao se despedir, dizia "Sejam felizes por vinte e quatro horas." A reação das pessoas era sempre a mesma: riam e comentavam "Nossa, mas só por vinte e quatro horas? E amanhã?" E talvez esse seja exatamente o nosso problema: amanhã.

A gente entra em depressão no domingo porque amanhã é segunda-feira. Sofremos de insegurança em um relacionamento que está indo bem hoje, mas que amanhã pode acabar. Lemos o horóscopo do mês pra saber o que vai acontecer no futuro, compramos revistas pra saber o que vai acontecer na novela a semana inteira, nos preocupamos com a vida pós-morte. Mas e a pré-morte? E o domingo ensolarado que está fazendo hoje? E a mensagem inesperada que você recebeu nessa madrugada?

Temos o péssimo costume de querer viver no futuro, resolver coisas que nem aconteceram ainda, e no final das contas, a gente não vive hoje e nem o amanhã, porque quando ele chega, a gente já está preocupado com o depois de amanhã. A vida se transforma na cenoura pendurada na frente do cavalo, que a persegue eternamente, sem nunca conseguir saboreá-la de fato.

Não estamos satisfeitos em ser felizes hoje, queremos ser felizes para sempre. Queremos que o feriado não acabe nunca, que o amor verdadeiro dure até que a morte nos separe ou além. Pagamos mais caro por produtos com garantia estendida de vinte e cinco anos. Ignoramos que talvez as felicidades instantâneas sejam as mais sinceras e raras, que amores de curto prazo são capítulos bons das nossas vidas que doem ao ir embora, mas que nos tornam mais maduros, nos ensinam a dar valor nos momentos, porque realmente a gente nunca sabe quando (e se) eles vão acabar... mas a gente aprende que, depois que acabou, depois que um momento único e incrível se foi, não tem mais volta. A gente só pode viver eles no agora.

Acho que era mais ou menos isso que a professora Gláucia queria dizer. Ser feliz em vinte e quatro horas é mesmo um desafio. Mas a vida não espera, nem tem garantia estendida. É o único prazo garantido que a gente tem pra ser feliz.

domingo, 4 de março de 2012

Eu quero inteiro

Não nascemos inteiros. Nascemos cheios de lacunas e adquirimos nossas peças que faltam conforme a vida passa. Mas quando estaremos completos? Talvez nunca.

Mesmo assim, nos entregamos em uma jornada de busca, procurando coisas que talvez nos completem. Pessoas, objetos, momentos. Um relacionamento sério. Uma boa posição em um vestibular. Um emprego bem remunerado. Uma casa com margaridas saudáveis na janela. Tudo isso dá uma sensação temporária de integração e a gente acha que conquistar essas coisas vai fazer com que nada mais falte. E então a gente chega mais perto, estica um dedo e toca isso que a gente pensa que é concreto, e tudo se desmancha. Porque não é real. Porque não é inteiro.

Este é o maior problema em querer estar completo -- a gente acaba aceitando o que nos é dado, acreditando ser algo completo. Mas então descobrimos que são apenas migalhas que não chegam nem perto de matar a fome, pedaços insossos e mornos do que a gente realmente busca, produtos perecíveis que, após abertos, devem ser consumidos em 8 dias. Grande erro, querer se completar com metades.

Tenho quase 20 anos e passei boa parte desse tempo me desperdiçando com pedaços, com pessoas incompletas que nunca justificaram suas passagens em minha vida, amores mornos e sonos leves. Perdi tempo tendo que aceitar poréns e entretantos. Me alimentei do mínimo, aceitei minutos, me contentei com promessas. Nada nunca foi inteiro, real ou palpável. Nada nunca teve nenhum efeito que passasse do comum, do sóbrio. Não é assim que eu escolho as coisas, daqui pra frente. Quero coisas inteiras, vivas, quentes. Quero sensações autênticas. Quero pessoas verdadeiras. Quero acordar pela manhã e saber que existe algo que me prende no chão além da gravidade. Quero um tempo que diga a que veio.

Talvez pareça radical, mas é assim que eu sou, oito ou oitenta, tudo ou nada. Não por querer me completar -- já passei por essa fase e entendi que só a gente pode se completar e que esperar que alguém te complete é como esperar que o mundo gire ao seu redor. Eu quero, na verdade, me complementar. Vou até ali e já volto me parece muito vago, eu quero é ir e ficar e descobrir e criar raízes e fazer dar frutos. E para isso, coisas pela metade não me bastam. Que seja inteiro, ou então melhor que não seja.

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