quinta-feira, 28 de março de 2013
Incompleto
Eu estava sentado em um banco, próximo à biblioteca da faculdade, esperando dar o horário de uma prova enquanto dava uma última revisada na matéria sobre protozoários, esponjas e outros detalhes que cairiam nela. Foi quando duas garotas passaram perto de mim, provavelmente indo almoçar, e depois de compartilharem um silêncio pensativo, uma delas perguntou à outra: "Às vezes não te parece que falta alguma coisa?", e a outra respondeu "Sempre." As duas riram e seguiram seus caminhos em direção ao portão, e os protozoários já eram. Fiquei olhando para um ponto e perguntando para mim mesmo: "Não te parece que falta alguma coisa?"
Nunca estaremos completos e talvez seja isso que nos faz continuar vivendo: a busca. O que te faz sair de casa todos os dias, encarar um mundo difícil, se arriscar? Por que você comete a enorme loucura de se apaixonar por alguém, de aceitar dividir todos os seus pensamentos, esforços e sentimentos com outro ser humano? O que faz com que nos joguemos de cabeça nas coisas sem avaliar as consequências, o que nos deixa tão cegos? O vazio, a sede de preencher uma lacuna dentro da gente e, finalmente, nos encontrar de verdade.
Temos uma obsessão enorme por querer completar cada espaço disponível que ainda temos, e isso nos leva a cometer erros, como tentar preencher nossas lacunas com o que não deveria estar ali. Assim, nos lançamos em relacionamentos difíceis, acreditamos em promessas frágeis, deixamos que qualquer coisa faça parte de nós sem avaliarmos o valor real de cada espaço, de cada vazio, de cada falta que algo nos faz.
Muitas vezes, aceitar esse vazio e deixá-lo em paz é mais importante do que tentar preenchê-lo. Às vezes, preencher um buraco é sufocar todo o resto. O vazio é essencial para que possamos continuar caminhando, carregando nosso próprio peso, lidando com nossas próprias cargas, encarando nossas próprias decepções, sempre tendo um espacinho não preenchido ali, nos lembrando de que não está acabado, que a busca continua, que ainda há lugar para coisas melhores. Deixar alguns espaços vazios é permitir que a alma respire.
É importante sair do próprio corpo de vez em quando e olhar para nós mesmos. A gente acaba percebendo que o vazio não é tão ruim assim, que algumas lacunas nos caem bem. Parece que falta alguma coisa? Sempre parece. Mas que continue sendo assim, e que a gente encontre forças para preencher estes espaços e esvaziar outros sempre que for necessário, para que coisas maiores possam vir. Gente completa demais transborda e fica vazia de novo, até que aprenda que é nas lacunas, no silêncio e na solidão que a gente encontra espaço para existir de verdade.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Deixe ir
Deixar ir não é fácil, principalmente quando amamos aquilo que acreditamos possuir. Estamos tão acostumados com as coisas que elas passam a fazer parte da natureza do nosso mundo particular, como a gravidade. Se você abre mão delas, a sensação é a de ficar sem chão, sem ar, sem luz. Deixar ir dá medo porque e se você der a algo a escolha de ir embora ou ficar, e ele optar por ir? E se você passar muito tempo da sua vida desejando que tinha algo e em uma fração de segundos ter que encarar a realidade de que nunca foi seu de verdade, que nunca quis fazer parte da sua vida? Poucas coisas são tão insuportáveis.
Mas às vezes temos que aceitar que algumas coisas precisam ir embora, e que essa é a engrenagem que move a vida: a perda. É perdendo tempo que a gente aprende a valorizá-lo, é perdendo a sanidade que a vida nos ensina a pensar duas vezes e contar até cem antes de fazer algo por impulso ou raiva, é abrindo mão de velhos hábitos que a gente se dá a chance de perceber o quanto a vida pode ser melhor sem eles. Perder é se permitir ganhar.
Às vezes, é preciso abrir a porta da gaiola e ver o que acontece. Deixar ir é um ato de libertação para todas as partes. Ninguém quer viver preso a algo, assim como ninguém merece dedicar sua vida a um pássaro que quer voar embora - Fly Away, como diz uma outra tatuagem que eu conheço muito bem. É necessário deixar ir um amor, um projeto, e principalmente o orgulho.
No final das contas, há outra pergunta que fazem sobre a minha tatuagem, e ela é bem pertinente: por que há um pássaro e um coração dentro da gaiola? Por que eles não foram embora com os outros pássaros? E a resposta para isso é mais simples ainda: porque eles escolheram ficar.
"Quando a luz do dia chegar, eu terei que ir
Mas esta noite eu vou te abraçar bem forte."
(Daylight, Maroon 5)
sábado, 16 de março de 2013
I Will Survive
Eu pensei que fosse morrer. Quando ele disse que não queria mais, uma parte de mim não conseguia acreditar, processar a informação, e a outra entrou em desespero, acionou um alarme vermelho que ficou rodando e apitando dentro da minha cabeça. Eu preciso ficar sozinho, ajeitar minha vida. É por causa do seu ex, né? Não, Bruno, não é. É sim. Não é. Ok, por que você não pode ajeitar sua vida comigo nela, então? Não é assim, Bruno. Como não é assim? A gente se vê só de final de semana, não vai te atrapalhar em nada. Não é assim, Bruno. Você só sabe falar isso? Bruno...
Quando um amor acaba e parece que uma parte de nós se foi, a gente não quer saber de mais nada. Tira esse sol daqui, fecha essa janela e essa porta que eu quero dormir para sempre; não quero saber de comer, de tomar banho, não quero ficar bonito nem saudável. Quero apenas me deitar nessa cama, me enfiar debaixo desse edredom, e só sair daqui quando esquecer de tudo, seja vivo ou morto.
Levanta daí, Bruno. Para com isso. Você é tão bonito, tão bacana, tanta gente gosta de você. E daí? Ele não gosta mais. E daí que não? Ele não é a coisa mais importante da sua vida. É sim. Não é, Bruno, não é, você vai encontrar outra pessoa, que te mereça, que valha a pena. Mas ele disse que me amava, disse que ficaria comigo, acontecesse o que acontecesse. Não era verdade, Bruno. Por que não era? Não sei. Ninguém sabe. Ninguém sabe. Agora, levanta daí, e vai comer.
Mas eu não fui, e acabei no hospital com desidratação. O médico receitou um soro, o enfermeiro veio aplicar. Pensei nele. Doeu. O enfermeiro procurou uma veia, mas não achou. Será que já estou morto? Procurou de novo, encontrou uma bem fina na base do pulso. Pensei nele de novo. Doeu mais. O enfermeiro colocou a agulha. Doeu. Está doendo? Não. Se começar a doer, me chama. Chorei.
O maldito sol que nascia todos os dias. Mal sabia eu que era ele que ia me jogar para frente. Eu já estava bem, quando descobri que ele estava com o ex de novo. Foi triste. Perdi a cabeça, quebrei tudo que ele tinha me dado, chutei o carro do cara, xinguei ele de todos os nomes, falei um milhão de verdades que estavam entaladas na minha garganta. Me libertei. Descobri a pessoa que ele era, que sempre foi, mesmo estando comigo durante todos esses meses. Me arrependi. Chorei. Chorei. Quis bater em alguém, quis matar alguém, quis me matar. Mas o sol, ah o sol... Estava lá, acontecesse o que acontecesse, ele sim estava lá sempre. Me obrigando a levantar da cama, a encarar a realidade, a juntar meus cacos rapidinho e ir para o mundo, que não ia ficar esperando para sempre.
Fui lá fora e encontrei olhos azuis. Ganhei um livro, depois de ter vendido todos os meus por ele. Encontrei amigos. Vi as nuvens. Conversei com desconhecidos no ônibus. Almocei na universidade. Perguntei os nomes dos outros. Elogiei alguém. Comprei tênis novos. Vi um pedaço de vegetal no microscópio, e a vida é tão linda, tão perfeita, tão encaixada - tudo está ali por um motivo. Dobrei uma esquina e começou a chover, uma chuva pesada, típica de verão, tão densa que dava para passar por entre as gotas sem se molhar. Dei risada com uns amigos. Fui para festas. Morri de rir. Dancei. Beijei alguém. Gostei. Ouvi alguém tocar violão para mim. Adorei. Andei de carro sem ele, ouvi os CDs que eu costumava ouvir com ele sem ele, fui aos velhos lugares sem ele... aprendi a viver sem ele e, com um susto enorme, descobri que não faz a menor falta.
Aprendi que não adianta a gente lutar contra os dias que estão por vir, as dores que eles trarão e a cura a qual teremos que buscar. Essas são as consequências de se estar vivo e, por mais que às vezes doa, é preciso encarar as coisas com bom humor e otimismo, porque tudo passa, tudo sempre vai passar, seja bom ou ruim, seja grande ou pequeno.
Eu pensei que fosse morrer... e estou mais vivo do que jamais estive.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Quem diria?
Eu nunca pensei que as coisas estariam como elas estão agora. Há um mês, tudo fazia sentido. Tudo estava onde deveria estar e, apesar da minha personalidade instável, eu estava calmo. Eu nunca imaginei que fosse possível sentir um vazio tão grande e inenarrável dentro de mim. As pessoas não deveriam desaparecer quando sentem isso? Não. Fácil demais.
Mas, mais do que tudo, acho que eu nunca cogitei que fosse desejar nunca mais vê-lo. Eu, que sempre fiz questão de estar perto dele, jamais teria me convencido de que pensar naquele rosto fosse me causar um arrependimento tão grande, uma vontade tão sobre-humana de nunca ter acontecido daquela forma, de nunca ter clicado naquele nome, de nunca ter iniciado uma conversa, um beijo, um relacionamento que só significou algo para mim.
Eu achava que aquele amor fosse uma boa ideia. Pensei o tempo todo que, apesar de certas dificuldades, fosse valer a pena. Nunca me ocorreu que eu estaria aqui, onde eu estou, rasgando todas as lembranças que eu tenho de nós dois, querendo me mudar para um outro planeta onde eu não tenha que dividir o ar com ele e com a indecência que ele esconde por trás daquela máscara.
Nunca pensei que fosse ter uma decepção tão grande em um intervalo tão curto de tempo... e, mesmo assim, no fundo da minha mente, eu soube desde o primeiro dia.
Mas, mais do que tudo, acho que eu nunca cogitei que fosse desejar nunca mais vê-lo. Eu, que sempre fiz questão de estar perto dele, jamais teria me convencido de que pensar naquele rosto fosse me causar um arrependimento tão grande, uma vontade tão sobre-humana de nunca ter acontecido daquela forma, de nunca ter clicado naquele nome, de nunca ter iniciado uma conversa, um beijo, um relacionamento que só significou algo para mim.
Eu achava que aquele amor fosse uma boa ideia. Pensei o tempo todo que, apesar de certas dificuldades, fosse valer a pena. Nunca me ocorreu que eu estaria aqui, onde eu estou, rasgando todas as lembranças que eu tenho de nós dois, querendo me mudar para um outro planeta onde eu não tenha que dividir o ar com ele e com a indecência que ele esconde por trás daquela máscara.
Nunca pensei que fosse ter uma decepção tão grande em um intervalo tão curto de tempo... e, mesmo assim, no fundo da minha mente, eu soube desde o primeiro dia.
domingo, 10 de março de 2013
Para todo fim
Quando inventaram a autoajuda, não sei se tinham ideia da popularidade que ela alcançaria. Todos nós, por mais cultos que queiramos parecer, já nos rendemos a certos livros ou frases, seja para nos sentir melhores em momentos difíceis, seja para tentar entender o lado quase incompreensível da vida e ver que não somos os únicos a passar por certas coisas. Não sou fã deste tipo de literatura, mas simpatizo com uma de suas frases clichês: "para todo fim, um recomeço."
Vivemos as coisas com uma intensidade tão grande que acreditamos que elas durarão para sempre. Não é um defeito, mas uma característica natural das pessoas apaixonadas por algo ou alguém: nos dedicamos, jogamos todas as nossas fichas, arriscamos tudo, colocamos a perder. E um belo dia você descobre que acabou. Seus planos foram por água abaixo, nada é como você havia imaginado, e nós somos lançados a uma das tarefas mais difíceis e importantes da vida: recomeçar.
Não é fácil recolher os cacos e começar de novo, principalmente porque quando uma nova fase se inicia, nunca começamos do zero: temos uma bagagem ainda maior para carregar conosco na subida do que tínhamos quando tudo começou. Nós lutamos contra as perdas e os recomeços como se tivéssemos algum controle sobre eles. Quando chega a hora de dizer adeus a algo, não há autoajuda, sofrimento ou barganha que nos salve. O que tem que ir, inevitavelmente vai. Podemos passar a vida negando uma perda, tentando brigar contra ela... mais cedo ou mais tarde teremos que encarar que, querendo ou não, recomeços são necessários, e se soubermos encará-los com força e maturidade, será transformador.
É verdade o que a autoajuda diz; para todo fim, há mesmo um recomeço. É assim que funciona, para o nosso próprio bem. Mas eu diria que, mais importante do que isso, o contrário também é verdadeiro: para cada recomeço, é necessário um fim.
sábado, 2 de março de 2013
Eu quero acreditar
Não parece que é de verdade. Ainda tem uma camiseta sua na minha gaveta, e seu cartão de Valentine's Day ainda está guardado no meu armário. Seus presentes estão expostos na minha prateleira de livros, sua voz ainda vibra nos meus ouvidos, e eu finjo que você está dentro do meu carro, venho o caminho inteiro conversando com um banco vazio. Por um minuto, pareceu real, até que eu tive que fazer uma curva e olhar para meu lado direito.
É difícil acreditar que você foi embora. Que pegou todos os nossos planos e as nossas memórias e enfiou em algum lugar que eu não sei onde é, não se importou em pedir minha opinião, não se deu ao trabalho de olhar para elas com carinho, não pensou, sequer entendeu. É isso, a gente terminou, eu fico repetindo pra mim o tempo todo, obrigando meu cérebro a processar a informação, tentando enfiar essa dose horrível de realidade goela abaixo. E isso revira meu estômago, e eu fico doente de verdade.
Tudo está aqui como era antes, e eu acordei hoje sabendo que era uma manhã daquelas em que você estava aqui, deitado na minha cama, dormindo silenciosamente, coberto mesmo estando calor. Nada mudou, você só levou você mesmo embora, o resto está aqui, pendurado, exposto, emitindo sons, sangrando.
Você me pediu para ter forças e respirar fundo. Prometeu que eu ia ficar bem. E eu quero acreditar. Quero acreditar que eu vou te esquecer, que minha vida vai voltar ao normal, mesmo com um buraco em várias partes dela. Quero acreditar que a gente acabou, mesmo, que você foi embora e me deixou aqui, atônito, chocado. Eu quero acreditar nisso.
Mas eu não consigo acreditar em você.
---
Atualização, 03/03/2013, 11:50 AM:
Acreditei, e deixei ir.
É difícil acreditar que você foi embora. Que pegou todos os nossos planos e as nossas memórias e enfiou em algum lugar que eu não sei onde é, não se importou em pedir minha opinião, não se deu ao trabalho de olhar para elas com carinho, não pensou, sequer entendeu. É isso, a gente terminou, eu fico repetindo pra mim o tempo todo, obrigando meu cérebro a processar a informação, tentando enfiar essa dose horrível de realidade goela abaixo. E isso revira meu estômago, e eu fico doente de verdade.
Tudo está aqui como era antes, e eu acordei hoje sabendo que era uma manhã daquelas em que você estava aqui, deitado na minha cama, dormindo silenciosamente, coberto mesmo estando calor. Nada mudou, você só levou você mesmo embora, o resto está aqui, pendurado, exposto, emitindo sons, sangrando.
Você me pediu para ter forças e respirar fundo. Prometeu que eu ia ficar bem. E eu quero acreditar. Quero acreditar que eu vou te esquecer, que minha vida vai voltar ao normal, mesmo com um buraco em várias partes dela. Quero acreditar que a gente acabou, mesmo, que você foi embora e me deixou aqui, atônito, chocado. Eu quero acreditar nisso.
Mas eu não consigo acreditar em você.
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Atualização, 03/03/2013, 11:50 AM:
Acreditei, e deixei ir.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Súbito
Aconteceu de repente, e eu não consigo pensar em nada bom que possa acontecer de repente. De repente pessoas morrem, de repente aviões caem, de repente prédios desabam.
De repente era de manhã, estava tudo estranho, talvez fosse pelo álcool da noite anterior, talvez a dor de cabeça ou o sol muito forte que faz nessa cidade, eu percebi um contorno diferente nas coisas, um tom sépia triste, eu beijei seu pescoço numa marca de sol, senti seu cheiro e foi a última vez, não consigo acreditar, foi a última vez que eu te dei um beijo, você estava de costas pra mim, mexendo no seu celular, essa memória parece tão triste agora, tão solitária, você, sua marca de sol, e foi só isso.
De repente eu sabia, sabia e não fazia a menor ideia de que seria isso, não conseguia acreditar na minha própria intuição, não fazia sentido, não era possível que você fosse terminar comigo, não tinha motivos, tinha? Eu aprendi a lidar com meus medos assim, me perguntando se eles tinham algum fundamento, alguma base em fatos reais, e dessa vez foi assim também, fiz uma análise cuidadosa dos nossos últimos dias, e tudo estava tão bem, nós assistimos àquele filme juntos, nós tomamos milk shake juntos, nós nos deitamos na minha cama e ficamos inventando versões em português para músicas americanas, você me beijou, você me abraçou e me chamou de filhote, como você sempre fazia, é horrível escrever verbos no passado para me referir a você, porque não parece que foi no passado, e parece que foi há um século, parece que foi ontem, foi há uma semana.
De repente nada fazia mais sentido. Você entrou no carro e a gente não se beijou. Você não estava falando coisa com coisa, eram só murmúrios, eu pensei que fosse só mais uma daquelas nossas discussões sem motivos bons, que iríamos ficar em silêncio por um tempo, e depois nos abraçaríamos e o mundo voltaria a fazer sentido para nós, mas não foi. Você respirou fundo... e saiu. Todas aquelas palavras, tão inacreditáveis, ele não pode estar falando sério, não pode ser verdade, ele só está bravo, ele só está cansado, talvez seja o álcool da noite anterior. Não era.
De repente eu estava em casa, não conseguia acreditar, eu chorava como se fosse morrer disso, até agora não consegui parar, existe uma outra versão de mim sem você e eu não a reconheço, não faz parte do que eu imaginei para mim, eu me olho no espelho e não sou eu, é outro cara ali, sem você, não é possível que ele realmente exista, não é possível que ele um dia vá olhar nesse espelho para arrumar o cabelo e sair de casa sem você, que ele vá escovar os dentes nesse espelho e sorrir para outra pessoa, não parece real, parece um sonho, parece uma notícia tão estranha e inacreditável, aquele tipo de coisa que você nunca pensa que vai acontecer de verdade, e já aconteceu comigo um milhão de vezes, mas dessa vez eu pensei que fosse ser diferente, pensei que você fosse ser diferente, por um momento de ingenuidade eu pensei que fosse ser para sempre.
O que eu faço com as nossas mil fotos, com nossos objetos, o que eu faço com o visor do meu celular que não acende com a foto do seu cachorro, porque você não vai mais me ligar no meio da tarde, só pra perguntar se está tudo bem, o que eu faço com nossos lugares, com meu quarto, com meu carro, onde eu jogo todas essas lembranças, onde eu encontro paz, em que abraço as coisas vão ficar bem, como é que eu vou te devolver tudo isso, seus objetos, suas fotos, seus lugares, seus abraços, como é que isso vai ficar bem agora?
O avião caiu enquanto eu lia um livro, o prédio desabou enquanto eu tomava um café, estava tudo normal, estava tudo bem, agora não está mais, eu estou aqui debaixo dos escombros, tentando entender como aconteceu, o que causou o acidente, quando foi que as coisas começaram a dar errado, em que ponto foi o defeito, e como é que eu vou fazer para sair dessa de novo.
De repente era de manhã, estava tudo estranho, talvez fosse pelo álcool da noite anterior, talvez a dor de cabeça ou o sol muito forte que faz nessa cidade, eu percebi um contorno diferente nas coisas, um tom sépia triste, eu beijei seu pescoço numa marca de sol, senti seu cheiro e foi a última vez, não consigo acreditar, foi a última vez que eu te dei um beijo, você estava de costas pra mim, mexendo no seu celular, essa memória parece tão triste agora, tão solitária, você, sua marca de sol, e foi só isso.
De repente eu sabia, sabia e não fazia a menor ideia de que seria isso, não conseguia acreditar na minha própria intuição, não fazia sentido, não era possível que você fosse terminar comigo, não tinha motivos, tinha? Eu aprendi a lidar com meus medos assim, me perguntando se eles tinham algum fundamento, alguma base em fatos reais, e dessa vez foi assim também, fiz uma análise cuidadosa dos nossos últimos dias, e tudo estava tão bem, nós assistimos àquele filme juntos, nós tomamos milk shake juntos, nós nos deitamos na minha cama e ficamos inventando versões em português para músicas americanas, você me beijou, você me abraçou e me chamou de filhote, como você sempre fazia, é horrível escrever verbos no passado para me referir a você, porque não parece que foi no passado, e parece que foi há um século, parece que foi ontem, foi há uma semana.
De repente nada fazia mais sentido. Você entrou no carro e a gente não se beijou. Você não estava falando coisa com coisa, eram só murmúrios, eu pensei que fosse só mais uma daquelas nossas discussões sem motivos bons, que iríamos ficar em silêncio por um tempo, e depois nos abraçaríamos e o mundo voltaria a fazer sentido para nós, mas não foi. Você respirou fundo... e saiu. Todas aquelas palavras, tão inacreditáveis, ele não pode estar falando sério, não pode ser verdade, ele só está bravo, ele só está cansado, talvez seja o álcool da noite anterior. Não era.
De repente eu estava em casa, não conseguia acreditar, eu chorava como se fosse morrer disso, até agora não consegui parar, existe uma outra versão de mim sem você e eu não a reconheço, não faz parte do que eu imaginei para mim, eu me olho no espelho e não sou eu, é outro cara ali, sem você, não é possível que ele realmente exista, não é possível que ele um dia vá olhar nesse espelho para arrumar o cabelo e sair de casa sem você, que ele vá escovar os dentes nesse espelho e sorrir para outra pessoa, não parece real, parece um sonho, parece uma notícia tão estranha e inacreditável, aquele tipo de coisa que você nunca pensa que vai acontecer de verdade, e já aconteceu comigo um milhão de vezes, mas dessa vez eu pensei que fosse ser diferente, pensei que você fosse ser diferente, por um momento de ingenuidade eu pensei que fosse ser para sempre.
O que eu faço com as nossas mil fotos, com nossos objetos, o que eu faço com o visor do meu celular que não acende com a foto do seu cachorro, porque você não vai mais me ligar no meio da tarde, só pra perguntar se está tudo bem, o que eu faço com nossos lugares, com meu quarto, com meu carro, onde eu jogo todas essas lembranças, onde eu encontro paz, em que abraço as coisas vão ficar bem, como é que eu vou te devolver tudo isso, seus objetos, suas fotos, seus lugares, seus abraços, como é que isso vai ficar bem agora?
O avião caiu enquanto eu lia um livro, o prédio desabou enquanto eu tomava um café, estava tudo normal, estava tudo bem, agora não está mais, eu estou aqui debaixo dos escombros, tentando entender como aconteceu, o que causou o acidente, quando foi que as coisas começaram a dar errado, em que ponto foi o defeito, e como é que eu vou fazer para sair dessa de novo.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Raro
Fui a um café hoje e ele era todo decorado com objetos antigos - televisões, rádios, máquinas de escrever. Você deve conhecer vários lugares assim, nostálgicos, cheios de velharia que dão um toque superespecial ao ambiente. Tem também aquelas pessoas que colecionam carros antigos. E quadros velhos. E móveis da época dos bisa, tataravós. Objetos antigos são charmosos, mas principalmente caros. Ninguém fabrica mais um Bel Air, por exemplo, e é por isso que ele tem um valor tão alto: é um objeto raro.
Todos nós já ouvimos o ditado clichê de que só damos valor às coisas quando as perdemos. E eu me lembro de ter tido medo disso. Passei um bom tempo temendo o que estava por vir, com medo de ter que encarar a perda, lidar com a falta. E de fato acabei perdendo. Escapou pelos meus dedos como água, nunca mais voltou. Deixou um espaço, um eco, e também uma lição: nós sempre queremos mais da vida do que já temos. Queremos um relacionamento perfeito, sem erros, com uma pessoa sem defeitos. Queremos ganhar mais dinheiro, subir de cargo a qualquer custo. Somos loucos por mais: mais livros, mais amigos, mais momentos. Mas uma hora somos forçados a perceber que o que já temos é raro e que muitas vezes demorou para consegui-lo.
Querer mais é o que nos toca para frente, claro. Ninguém pode estar sempre satisfeito, ou pararíamos no tempo, envelheceríamos e morreríamos sem nunca ter lutado pelo melhor que a vida podia nos oferecer. É importante dar valor às coisas que podemos ter no futuro, mas... e as que você tem hoje? Quanto elas valem para você? Onde elas estão na sua lista de prioridades, e quanto você se esforça para desfrutá-las enquanto ainda as possui?
Seja grato pelo que você tem, e pelo tempo que ainda tem disponível. Isso significa que você tem possibilidades, e representa o que você é hoje, o resultado das suas lutas. É clichê, eu sei, mas não deixa de ser verdade: o valor das coisas aumenta quando nós não as temos mais.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O gato na caixa
Imagine que você tem uma caixa. Ela não é transparente, mas você sabe que dentro dela há um gato. Junto com o gato, um dispositivo que, se acionado, quebra um frasco de veneno, que mataria o bichinho. No entanto, o sistema pode não ser acionado, e o gato permaneceria vivo. Depois de algum tempo, o animal está, simultaneamente, vivo e morto.
Esse é um experimento de mecânica quântica conhecida como "o gato de Schrödinger" e eu, felizmente, ainda não cheguei a um nível tão grave de loucura a ponto de entendê-lo completamente, mas há uma linha desse experimento mental que vale a pena ser citado: a única forma de saber se o gato está vivo ou morto é abrindo a caixa, e fazendo isso, alteraremos todas as probabilidades do estado do gato.
Quem nunca se viu diante de situações em que a única maneira de mudar o curso do acaso seria tomando uma atitude, uma decisão? Podemos passar a vida nos perguntando o que há dentro da caixa, ou temendo o que há atrás da porta da sala, ou nos preocupando com o que pode acontecer se apenas tentássemos descobrir. Porque é bom quando as probabilidades de algo bom são tão boas quanto as possibilidades de algo ruim. Um namoro pode ou não dar certo. Um emprego pode trazer coisas boas, ou te fazer perder tempo. Uma ligação que você faz para alguém pode ser humilhante, ou... pode mudar sua vida. A dúvida, que é massacrante para alguns, pode ser uma dádiva para outros: ter ambas as possibilidades nas mãos é melhor do que ter apenas uma ruim revelada. "Ignorância é bênção."
Mas, uma hora, é preciso descobrir o que o acaso (ou seja lá como você queira chamar a força - física ou não - que nos coloca exatamente onde devemos estar) decidiu para nós. Rasgar o envelope, abrir a porta, discar o número, destapar a caixa. É assim que descobrimos quais são os resultados reais das nossas probabilidades, e quais delas são apenas teorias.
Um gato em uma caixa, um exame médico, o resultado de um vestibular, a resposta de uma pessoa. Somos todos experimentos do acaso, da incerteza, do universo quântico. Vivo ou morto? Sim ou não? Com ou sem? A única forma de saber é abrindo a caixa... ou seja lá o que esteja escondendo a resposta.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Futilidades
É, vai começar o Big Brother. Mas o pior nem é isso. O pior é a onda de revoltadinhos pseudointelectuais que surge nas redes sociais nessas épocas. São os mesmos que adoram esfregar na cara de todo mundo que são ateus, maconheiros, rebeldes. Não gostar de Big Brother é mais um atributo indispensável para pagar de cult nas redes sociais. Afinal, Big Brother é fútil (palavra clássica!)
O curioso é que essas mesmas pessoas que exigem uma televisão aberta de qualidade raramente procuram tal programação. Por exemplo, pergunte a alguma delas o que passa na TV Cultura na hora do Big Brother (ou em qualquer outro horário). Ou, para as que têm acesso à TV a cabo, quantas vezes na semana elas assistem a documentários, programas culturais, noticiários? Quantas vezes no ano elas trocaram a balada cheia de gente fútil (olha só a palavrinha clássica aqui de novo) por um filme em casa, ou um livro? Se o Big Brother fosse tirado do ar para dar lugar a algum programa cultural, quantas dessas pessoas assistiriam? Pouquíssimas.
O Big Brother está longe de ser o único programa fútil da televisão. As novelas estão aí para não me deixar mentir. Sem contar os amantes do Casos de Família - não consigo ver diferença nenhuma: pessoas compartilhando seus problemas pessoais, na maior baixaria, com roteiros evidentemente combinados, para dar audiência à emissora. Qual a diferença? E futebol, então? As pessoas choram, torcem enlouquecidamente, se agridem, se matam, por um time de 11 jogadores (no BBB são 14, né?) que ganham milhões por mês às custas da audiência.
Não tem nada de errado com o Big Brother. É só mais um programa que visa lucro, e portanto audiência, e faz isso utilizando a proposta de entretenimento. Querendo ou não, é isso que a televisão oferece. No entanto, não é culpa das emissoras, mas da própria população que apoia e exige esse tipo de programação. Portanto, o Big Brother não é nada extraordinário, e não se difere em nada de programas que fazem o maior sucesso, com a maior naturalidade.
Como eu disse em uma postagem no Facebook, assistir é tão opcional quanto não assistir. Agora, quem assiste, briga, se descabela, e faz de um programa de televisão a razão da sua vida, o único assunto de que sabe falar nas rodas de amigos - ou pior, em locais mais sérios, como no trabalho - e acha que as redes sociais são blogs a respeito, aí são outros 500. Esse tipo de gente merece, sim, um pouquinho de esculhambação pública. Mas que fique claro que isso não te faz nem mais nem menos culto.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Que os telefones toquem
Mas hoje, rolando pela minha timeline, uma delas me chamou a atenção. A fotografia - obviamente em preto-e-branco - era de dois telefones, e a frase em cima da foto dizia "Que os telefones toquem." Não sei quem é o autor de tal frase, mas é, de fato, algo muito interessante para desejar.
Hoje é o último dia de um ano que, para mim, começou todo errado. Nada deu muito certo, eu perdi várias oportunidades, me enfiei em cada cilada e, infelizmente, vários telefones não tocaram quando eu precisei que eles o fizessem. Não sei como foi o seu 2012, mas, de qualquer forma, para o bem ou para o mal, ele acaba hoje. E eu quero muito que os telefones toquem, para mim e para você que está lendo.
Quando precisarmos ouvir aquela voz, aquela única que consegue desfazer o nó no peito, que o telefone toque, e seja ela do outro lado. Só quem sente isso sabe o quanto é bom ver o mundo se desmanchando em pedacinhos de alívio, o ar voltando a circular novamente pelos nossos pulmões. Telefones que tocam nessas horas salvam vidas. E eu não estou falando só de amores, mas também de amigos que sabem exatamente quando ligar, sabem como ninguém quando você precisa desabafar.
Que o telefone toque também e, do outro lado da linha, seja aquela pessoa cuja voz você nunca ouviu. A gente vive num mundo cheio de tecnologias e a nossa comunicação se resumiu a textos. Você manda mensagens no celular, conversa via bate-papo, lê sobre a vida de uma pessoa no blog ou no perfil dela. Mas e a voz? De quantas pessoas na sua lista de amigos no Facebook, ou de quantos seguidores no Twitter, você conhece a voz? Acredito que de poucas. E quando você está conhecendo alguém pelo mundo virtual, então? A pessoa é linda, simpática, divertidíssima, um amor, um doce, mas... como será que é a voz dela? Quero muito que em 2013 (ou antes) você descubra. Que o telefone toque, e seja essa voz desconhecida do outro lado, te dizendo "adivinha quem é?"
Qual é a cor da roupa-de-baixo que você vai usar hoje? Muita gente diz que uma cueca vermelha traz amor, uma amarela traz dinheiro, cada cor tem sua consequência. Mas vamos falar da amarela. Vamos falar de dinheiro. É o que muita gente quer, prosperidade, grana, money no bolso. E sabem qual é o primeiro sinal de que vem grana chegando? Exatamente, um telefone tocando. Porque do outro lado está o gerente de uma empresa te chamando para uma entrevista. Ou, melhor ainda, dizendo que você passou na entrevista que fez, quando pode começar? Pouca gente trata disso por e-mail, e é quase improvável que alguém vá até a sua casa conversar sobre isso. Então, tomara que o telefone toque para isso, também. Seja você alguém querendo um emprego formal, ou um freelancer, que depende de trabalhos avulsos, espero que o telefone toque. E toque muito.
Telefones tocando podem trazer más notícias também e, infelizmente, a vida é assim. De vez em quando a gente não ouve o que quer. Nesses casos, eu espero que você saiba lidar, seja forte, e que tenha alguém do outro lado de algum telefone que vai tocar.
Mas de resto, que os telefones toquem, sim, com amigos te chamando para beber, com declarações de amor inesperadas, com pedidos de desculpas. Que toquem e que sejam pessoas de bem, amigos de infância, amores verdadeiros. Que sejam seus avós, seus pais, sua família, pessoas que te amam tanto. Que seja alguém que ficou sabendo que você passou no vestibular, e ligou para te parabenizar! Que seja um convite para o cinema, para assistir àquele filme que você mal via a hora de sair. Que sejam ligações incríveis.
E, se seu ano não começar assim, tenha paciência. Mas não fique esperando muito, também. Se o seu telefone não toca, coragem! - faça o de alguém tocar.
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A imagem foi retirada da página Je suis mes lettres (Drika)
De onde eu sou
"De onde você é?" É assim que começam várias conversas na internet. Uma leitora do blog, que assinou como Camila, me pergunta isso em um comentário. E eu respondo: sou de São José do Rio Preto, sou do interior de São Paulo, sou do Brasil, da América do Sul, sou da Terra. Embora meu signo diga que eu sou de Vênus. Logo, sou de Libra. Mas não sou de acreditar nessas coisas, porque sou de Vênus, mas sou também de Lua - mudo de humor, porque sou de repente. Sou de chuva, não muito de calor, sou mais de inverno.
Sou de difícil convivência, de compreensão complicada. Sou de poucos, mas de bons amigos. E já fui de algumas pessoas. Fui - e sou - de chorar. Sou de deixar bilhetes e escrever cartas. Sou de colar avisos na porta da geladeira. Sou de aguentar as coisas calado, mas não sou de ferro.
Sou dos livros, do cheiro das páginas, das histórias que eles carregam. Também sou do cinema e do teatro. Sou de filmes em que, no final, as pessoas se superam e surpreendem todo mundo. Sou da trilha sonora, da iluminação, infelizmente não sou do elenco - mas sou de elenco, embora também veja filmes com atores os quais eu não conheço. Porque sou de conhecer gente, de fazer piadas e quebrar o gelo.
Sou de pensamentos lógicos, científicos, racionais. Mas também sou de sentimentos intensos. Sou de impulsos, de desejos imediatos, de hoje, de agora, deste exato minuto. Sou do contra e, por isso, de vários inimigos. Porque tem muita gente que não entende isso - que se existe gente de dentro, tem que existir gente de fora. Mas sou de perdão fácil, também. Porque não sou de guardar rancor.
Sou de Natal, embora não seja de nenhuma religião, porque gosto de como a cidade se transforma: sou de me impressionar com coisas bobas. Sou de fogos de artifício, de estrelas cadentes, de luzes enfeitando as coisas.
Quando me deito, sou de sono leve e sonhos estranhos. Sou do rock e do pop, um pouquinho da mpb, mas não sou desses que pesquisam a vida de um cantor e sabem até de que tipo sanguíneo eles são. Eu sou bem de boa quanto a isso.
A mais, sou de Martha Medeiros, de Sidney Sheldon, sou muito de chick-lit, embora não seja do público alvo deste tipo de literatura. Sou de escrever. E sou de começar as coisas, mas não terminar (este texto, por exemplo, se você estiver lendo, é algo bom, porque eu não desisti dele e ele foi publicado.)
É isso, Camila. É daqui que eu sou. E você?
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Obrigado a todos que passam por aqui, que divulgam o blog entre seus amigos, que comentam, que compartilham no Facebook ou em outras redes sociais. Obrigado pelas mais de 10 mil visitas! Significa muito pra mim.
Um beijo,
Bruno.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Um passo à frente
As pessoas pensam que ser evoluído é saber falar mais de uma língua, saber mexer no computador e estar antenado em tudo. Isso, na minha opinião, é o mínimo que você pode fazer para não insultar seu próprio cérebro, mas não é evolução.
Evolução é ter ideias novas e próprias. É não se aprisionar na escravidão da moda, do consumismo, da mídia. Evolução é não achar que "música" eletrônica é foda só porque todo mundo acha. Evolução é admitir, em público, que você gosta daquilo que ninguém mais gosta.
Evoluir é não ser maria-vai-com-as-outras. Vejo muita gente submissa e pau-mandada por aí, que detesta algo em um segundo, e no outro já ama, só porque alguém disse que "se você não gosta disso, você não se encaixa." Ser evoluído é aceitar seus próprios defeitos, entender que todo mundo os possui, e não andar por aí atuando, controlando um avatar de si mesmo, só para agradar outras pessoas.
Agora, o que não é: ser evoluído não é encher a cara só pra contar no dia seguinte; não é ir para outro país só para contar que foi e não absorver as coisas boas da viagem porque passou a maior parte do tempo se preocupando em postar fotos no Instagram, no Facebook, no Tumblr, só para esfregar na cara de todo os outros aquilo que você não é, aquilo com que ninguém se importa; não é odiar Crepúsculo nem amar Beatles; não é ler Clarice e Nietzsche; não é comprar um iPhone, iPad, ou qualquer outro produto, só porque ele tem uma maçã mordida em sua capa. Ser evoluído não é ser moderno, porque a modernidade é um saco. Também não é ser hipocritamente antigo, só porque é cool ser retrô.
Evoluir é ter uma ideia brilhante e não ter vergonha de anunciá-la para todo mundo. É sentar para ler um livro, ou ver um filme, ou ouvir a uma música, e tentar ler nas entrelinhas tudo o que está sendo dito ali, mas não concordar cegamente com tudo. É ter amigos, mas não modelos para serem seguidos. Conheço muita gente que imita os amigos nas gírias, nas atitudes, algumas até no tom da voz. Conheço gente que não coloca cinto de segurança no carro de um amigo que também não coloca só para não parecer careta, e põe em risco sua própria vida! Conheço gente que se o amigo diz "vamos", ela vai, e quando o amigo desiste, ela também concorda que não era uma boa ideia.
Isso não é evolução. Isso é ter um cérebro e deixá-lo ali, parado, à mercê da correnteza, na inércia dos pensamentos alheios e não seus.
Acorde para a vida e evolua. Se não por você, pelas pessoas que te querem bem. E se não por elas, por respeito a cada partícula de energia que fez um ser microscópico e unicelular evoluir à humanidade pensante da qual você faz parte.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
O melhor de mim
Você é uma pessoa incrível, todo mundo te diz. Seus amigos te adoram, assim como muita gente que te conhece faz meia hora. Você tem um papo legal, uma cabeça boa. Você pensa. Você defende os animais. Gosta de cinema, de livros, de poesia. Seu gosto musical é bom. Você poderia escrever um livro, e apesar de não acreditar em Deus, você é uma pessoa boa. Além de tudo, você tem um coração cheio de amor para dar para alguém, você tem disposição para fazer tudo pela pessoa, você dirigiria uma hora durante a madrugada, você faria qualquer coisa por alguém.
Você é realmente uma pessoa incrível.
Mas a vida tem uma forma engraçada de te recompensar por certas coisas. Porque, com tanta gente legal para você conhecer, com tantas experiências bacanas e enriquecedoras, você esbarra justamente com alguém que vai te puxar pra baixo, te transformar no pior que você pode ser, te fazer sentir esse vazio e esse peso gigantesco que você tem que carregar sozinho.
Todos nós temos o nosso melhor lado, e eu tenho pensado muito a respeito de como eu tenho desperdiçado o meu. Por que será que a gente insiste em jogar pérolas aos porcos?
Ninguém merece ser tratado como um nada, principalmente quando você não é um nada. Ninguém merece sentir essa vontade enorme e triste de ser outra pessoa, principalmente quando a pessoa que você é vale muito.
Tem horas que a gente tem que colocar o sentimentalismo de lado, o amor do outro, e começar a usar o cérebro que nos foi dado. Por trás de toda pessoa incrível, há um ser humano. Alguém com sentimentos e méritos. Alguém com um pouco de amor próprio a zelar. Alguém que para tudo o que está fazendo pra ir te ver, e que talvez por este motivo não mereça ser praticamente mandado embora da sua casa.
Antes que você me pergunte, sim, este texto é pra você. Pela primeira vez, eu não me importei de ter vindo embora. Pela primeira vez eu não quis dar a volta no quarteirão e voltar pra sua casa. Pela primeira vez, eu acho que você não merece mais o melhor de mim, e talvez nunca tenha merecido. E saber disso é, de certa forma, libertador.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Signal in the Sky
Eu li em uma reportagem da Superinteressante de algum tempo atrás que a tendência a ter fé é um fator que já nasce conosco. Está no DNA humano acreditar em algo superior. Talvez seja uma herança de séculos e séculos de crenças e religiões que nos fez assim. Não importa o quanto você seja cético, todos nós temos uma predisposição genética para a superstição.
Talvez seja essa característica que nos faz acreditar em sinais. E pedir por eles. Coincidências que nos deixam surpresos. Sonhos dos quais procuramos significados. Oráculos imaginários. Todos nós estamos desesperados para encontrar respostas para nossas perguntas: o que vai acontecer? O que eu devo fazer? Alguém me dê um sinal!
E, de vez em quando (ou quase sempre, eu diria), a vida nos dá sinais. O problema é que eles nunca vêm em formato de carta, com as palavras escritas em letra legível "Faça isso e dará certo." Não chegam até nós trazidos por anjos, sonhos ou cartas de baralho. Os sinais que recebemos são subjetivos demais e, muitas vezes, não são convenientes. Porque não queremos apenas sinais, mas também exigimos que eles sejam positivos: sinal de que o namoro vai dar certo, de que a vaga de emprego será sua, de que tudo vai ficar bem.
Alguns sinais são tão naturais e claros que nós não conseguimos reconhecê-los. Um relacionamento que está complicado há meses, que se prolongam por anos, e a gente fica querendo saber quando é que as coisas vão ficar bem. Um emprego que atrasa sua vida, que nunca dá certo, que não sai daquilo e não te deixa crescer. Um projeto que nunca sai do papel, ou que nem chegou a ser colocado lá. Uma árvore que não gera frutos. É assim que os sinais chegam até nós. Disfarçados de cotidiano, de banalidade. Disfarçados de realidade, de vida.
Se um sinal chegar até você, você acha que conseguirá interpretá-lo? Porque muitas vezes é assim: estamos rodeados deles, eles estão piscando por todos os lados, e a gente continua pedindo por eles. Implorando por aquilo que já temos e que nem sempre é o que queremos saber: a verdade.
*Ouvindo "Signal In The Sky - Matt Hires
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