sábado, 28 de novembro de 2009

O outro lado

Parecia o dia perfeito para morrer. O céu estava cinza e era claro que uma tempestade estava chegando. Uma tempestade naquela cidade! Essa era boa.
Ela relutou ao sair daquele bar quando ele a encontrou virando outro copo de vinho branco. Os amigos dela ficaram olhando ele dizer:
- Eu quero falar com você.
Talvez seja o efeito do álcool, pensou ela. Ele não é real. Não aqui, pedindo para falar comigo, depois de tudo o que fez três anos atrás.
Só se convenceu de que sim, ele era perfeitamente real, quando sentiu as mãos grandes e geladas dele tocando seu braço e puxando-a com força em direção ao seu carro. Como ele ousava? Mas ela preferiu não dizer nada. Estava, na verdade, grata por vê-lo de novo. Depois de tanto tempo.
De repente estava dentro do carro dele. Ele dirigia numa velocidade estranha que poderia muito bem ser lenta quanto rápida, mas ela não conseguia distinguir por causa das várias doses de álcool correndo em suas veias. As luzes passavam rápido pela janela e era tudo que ela poderia descrever se alguém perguntasse.
- Onde estamos indo?
Mas ele não disse nada, então ela sentiu medo. De repente, o carro parou.
- Você me deve quinhentos reais - disse ele.
- O quê?!
Só poderia ser brincadeira. Ele não poderia ter a cara de pau de voltar a procurá-la, três anos depois de a ter traído, para cobrar quinhentos reais.
- Quinhentos reais - repetiu. - Ou você não se lembra de ter quebrado meus móveis?
Bem, disso ela se lembrava. E se lembrava bem, se alguém quer saber.
Era maio e ela viu quando ele beijou a secretária em uma rua escondida. Sabia que não seria boa ideia seguí-lo com o carro, mas ali estava, vendo seu noivo beijar outra mulher. Então voltou ao seu apartamento - que também era dele. Fez suas malas, pegou tudo que era seu e quebrou tudo que não era. O sofá, a mesa, o rádio. De repente estava longe dali, deixando para trás apenas um bilhete. "Seja feliz com ela, filho da puta". Não sabia para onde ir. Simplesmente foi. Passou algumas noites em um hotel. Depois ligou para a irmã e se mudou para a casa dela, na capital. E ali estava ele, cobrando pelos móveis quebrados.
- Você está brincando, certo? Você me traiu, idiota! Você beijou a secretária! Não consegue ser mais clichê do que isso?!
Mas só percebeu que estava chorando quando as lágrimas começaram a entrar em sua boca, tornando o sabor amargo da raiva em puro sal.
- Agora dê a volta nesse carro e me leve de volta para o bar com meus amigos! Estava muito bem até você aparecer. - Mas era mentira. Nada a fazia mais feliz do que vê-lo, apesar da dor. Nem ela sabia da existência (e o tamanho) da sua saudade.
- Não vou embora até você ouvir tudo que eu tenho pra te dizer.
E isso mudava as coisas. Então ele tinha algo a dizer? Ele iria implorar por perdão? Iria dizer que errou? Ela tinha certeza que não iria perdoar. Que iria dizer tudo o que estava entalado, mandar ele ir catar coquinho e sair daquele carro estúpido como em uma cena de filme onde a mocinha supera tudo com um gran finale. Mas foi pega de surpresa.
- Você estragou tudo, sabe? Eu te amava, mas você se lembra o que me disse quando te convidei para sair no dia do nosso aniversário de namoro?
Ela ficou pensativa. Não se lembrava.
- Você me disse que estava cansada. E chateada comigo.
- Mas eu estava mesmo! Você se esqueceu que eu odeio coisas amarelas e me deu um vestido amarelo!
- Será que você não poderia ver o lado bom, o lado em que seu noivo idiota te comprou um presente? Então passamos a noite do nosso aniversário em casa, dormindo. Você na cama, eu no sofá. O vestido que eu te dei jogado no chão da sala, você chateada comigo e eu me sentindo o culpado.
- Mas você era o culpado!
- Sim, eu era mesmo! - de repente ele estava gritando. Tão atípico nele. Sua voz rouca nunca se elevava muitos decibéis. - Eu era o culpado de estar estragando a minha vida! De perder o meu tempo e o meu dinheiro comprando presentes para uma pessoa que o iria jogar no chão porque não gosta de amarelo.
- Olha aqui, caso você não se lembre, quem tem que estar com raiva aqui sou eu! Foi você quem me traiu, não eu.
E isso era demais para ele. Ela se fazendo de vítima, se achando a dona da razão.
- Você nunca demonstrou nada por mim - a voz dele ficando trêmula -, você sempre reclamava das coisas que eu fazia para você. Eu te amava, sabe? De repente a mulher que ia se casar comigo estava sentada no sofá, me ignorando porque tinha que estudar.
- Mas eu tinha mesmo! - protestou ela.
- Sim, eu sei que você tinha. Mas eu também deixava de fazer minhas coisas para ficar com você muitas vezes. E eu me senti como se você estivesse distante. Como se você não me amasse mais.
A chuva começou a batucar o teto do carro e foi o único barulho que se ouviu durante alguns minutos.
- Vocês ainda estão juntos? - ela perguntou. Quando viu, já tinha saído. Prometeu durante todos esses três anos que nunca demonstraria interesse. E lá estava ela, se traindo.
- Não. Foi só aquela vez. Sabe, ela começou a me tratar com carinho e... foi a minha última esperança. Eu tinha quase certeza de que você não me amava, mas não conseguia sentir nada por ninguém. E apesar de não ser nada intenso, eu senti uma leve atração por ela. Ela era a única que demonstrava carinho, ela se tornou você. E quando você foi embora, eu te liguei várias vezes, mas você desligava o celular. Eu me senti sem chão. Era você que eu amava. Era você que eu queria ver depois de cada dia difícil. E é você que eu amo até hoje.
Os olhos dele se encheram de lágrimas. Ela sentiu que ia desmaiar de pânico.
Então era isso. A culpa, afinal, era dela.
- Desculpe.
Não era para ser assim. Era para ele estar pedindo perdão, não ela. Mas o jogo havia virado. O reflexo no espelho de repente era o ser de carne e osso. O culpado de repente era a vítima e a vítima se transformou em uma bruxa.
- Eu sinto sua falta - disse ele. - Cada única noite.
- Eu também. Eu sinto... eu sinto tanta vergonha. Eu te amo. Me perdoe, por favor. Vamos fazer tudo de novo. Vamos voltar ao início e nos conhecer, como se ainda tivessemos dezessete anos.
Ele deu um beijo no rosto dela e sussurrou, entre lágrimas: "Muito prazer."
Só então ela conseguiu respirar direito, depois de todo esse tempo. A vida dá voltas. Há sempre a outra parte da história. A parte imperdoável que você só consegue superar quando conhece. Há o outro lado, o inesperável, aquele lado que dissolve todo o seu orgulho e as cenas de raiva que você projetou em sua cabeça. O lado que te conforta, que te aquece e que, para o equilíbrio das coisas, te dá uma segunda chance.

3 comentários:

Pαмуs disse...

AMEEEEEEEEEEI Sabe lembrou um pouquinho da minha história ;; então adorei mto.. Já pensou escrever fics?! *-* Beijos

Patricia Mieskalo disse...

Incrível! De verdade, você tá de parabéns. Muito, muito bom.

michele disse...

nossa..esse é o melhor texto q eu ja li..amei..

Visitas