quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Tem gente ilustrativa

A foto do BigMac é deliciosa. Um lanchão enorme, com pão fresquinho e fofo, coberto de gergelim dourado, carne suculenta, alface bem lavado, e o molho, ah, o molho cremoso escorrendo junto com o queijo derretido. Aí você abre a caixinha e nada mais é do que um lanche de pão amassetado e oleoso, carne ressecada e alface murcha. Que decepção.

Mas tem muita gente BigMac por aí. De longe são pessoas atraentes e interessantes. Mas quando você chega perto, descobre que os olhos não são tão brilhantes como você havia imaginado, que o beijo não é tão cremoso e que as ideias não são tão suculentas. São sem-sal. Não sustentam. E algumas ainda custam caro. Você quebra seu porquinho, sua reserva de paciência, dedicação, amor, atenção, todas aquelas moedinhas douradas de afeto que você guardou por tanto tempo para gastar com algo que valesse a pena, e acaba gastando com uma farsa. Tudo por causa de uma imagem bem tratada, uma propaganda enganosa.

E o pior é que ninguém vai te dar o dinheiro de volta, a vida não aceita reclamações posteriores, sequer tem um SAC. Tonto de você que não teve o cuidado de ler as letrinhas pequenas na lateral inferior direita do anúncio: imagem meramente ilustrativa.

Tem gente que apetece, mas não mata a fome.

domingo, 16 de setembro de 2012

Respostas

Eu não queria saber de merda nenhuma do que você tinha pra me dizer, então eu simplesmente bati a porta do carro com tanta força que meu braço doeu, enfiei a chave no contato com um pouco de dificuldade por causa do nervosismo e antes que você pudesse abrir o portão e dizer algo que fosse me fazer ficar - algo que, mais uma vez, pela bilionésima vez, fosse me fazer ficar -, eu meti o pé no acelerador e fui embora da sua casa, deixando todas as minhas roupas, porque eu não queria elas de volta, eu não queria nada que algum dia eu fosse encarar e saber que esteve perto de você, já me bastava meu próprio rosto que eu teria que encarar na porra do espelho toda manhã, meu pescoço sem as marcas que você deixava as vezes, meu corpo idiota que você um dia disse que achava bonito, eu teria que conviver com todas essas coisas que um dia estiveram contigo, que um dia foram quase-suas, isso já era o bastante para mim, então aqui vai a primeira resposta para a mensagem que você me mandou depois, me perguntando centenas de coisas, foi por isso, Leo, que eu deixei as minhas roupas na sua casa e, respondendo à segunda pergunta, não, eu não pretendo pegá-las de volta.

A terceira indagação era sobre o tempo que ficamos juntos, e você é mesmo um ridículo por querer falar de tempo agora, justo você que me fez perder todo o meu precioso tempo, justo você que nunca tinha tempo pra mim, vir falar de tempo é, no mínimo, uma hipocrisia tão grande que mal cabe em nós dois. Mas, hipoteticamente falando, como se você realmente tivesse algum direito nesse mundo de me perguntar sobre o tempo - como se você realmente tivesse algum direito nesse mundo de me perguntar sobre alguma merda de coisa -, o tempo foi o maior culpado disso tudo, porque quando tudo começou você sabia, e eu sabia, EU SABIA, Leo, que não iria dar certo, nada disso iria funcionar porque nós dois estávamos vibrando em frequências tão diferentes que eram quase opostas, e quando eu pensei que finalmente a gente tinha chegado num ponto comum, foi exatamente neste instante do tempo que tudo veio abaixo, como aqueles programas científicos em que alguém consegue atingir a mesma frequência vibratória de uma taça de cristal e ela explode, foi assim com a gente também, foi assim que a gente explodiu, virou caquinhos de cristal sangrentos, foi assim que a gente se feriu: quando atingimos uma frequência em comum. Em comum, e não igual, é bom dizer. A gente nunca esteve na mesma sintonia. Aqui está minha resposta sobre o tempo: ele me fez ver isso.

Sobre culpa, também, você menciona culpa, mas como uma afirmação e não como pergunta, mas eu me reservo no direito de comentar: sim, eu sinto culpa. Porque eu não soube entender certos problemas seus, porque eu desejei morrer tantas vezes enquanto você tentava me arrancar um sorriso, porque eu deveria ter sido alguém melhor, eu deveria ter entrado em uma academia dez anos antes de te conhecer para te poupar de um corpo tão sem sal, eu deveria ter dormido mais para não ter olheiras tão grandes e crônicas, eu deveria ter continuado meu tratamento com antidepressivos e terapia para não ser tão pessimista, para não chorar tanto por motivos bobos, eu deveria ter estudado para estar em uma faculdade legal e ser qualquer coisa acima de um medíocre sem emprego e sem uma perspectiva concreta de vida, eu deveria ter lido menos comédias românticas e mais livros cult para ter ideias diferentes das que você está acostumado a ouvir, eu nunca deveria ter abandonado tantos empregos, eu deveria ter me dedicado mais a algum deles para ter dinheiro e um pouco mais de independência, eu sei, Leo, eu sinto culpa por tudo isso, sim, eu sinto culpa por ser assim, eu sinto culpa por não ter sido bom o bastante. É um comentário, uma confissão, não use isso contra mim.

Então você terminou a mensagem dizendo que tudo bem se era assim, se eu queria ir embora e não conversar mais com você e nunca mais olhar para esses teus olhos tão ridiculamente lindos pra caralho, tudo bem se eu não quisesse buscar minhas roupas e meus livros e minhas tintas, tudo bem se era pra ser assim, e você postou coisas no seu Facebook, fotos de festas, músicas que não falavam absolutamente nada sobre a gente, piadas que só você e seus amigos imaturos entenderiam, tudo para mostrar que não se importava, que sua vida continuou sem mim, que eu não estava fazendo a menor falta e que você poderia muito bem encontrar outra pessoa para ocupar o meu lugar na sua casa, na sua cama, você não está nem aí, eu sei, você vai seguir e eu não fui nada, eu sei. Você está mentindo para mim e para você mesmo, eu sei.

Eu sei, Leo, eu sei que ninguém nunca vai fazer as loucuras que eu fiz por você, ninguém nunca vai abrir mão de tanta coisa, ninguém nunca vai torrar tanta grana com você como eu torrei, ninguém vai te surpreender com coisas tão pequenas, ninguém nunca vai ser o que eu fui, eu sei que você sabe disso porque eu sei disso, e eu costumo ter dúvidas sobre as coisas, mas quando eu sei de uma coisa, eu sei, da mesma forma que eu sabia que eu nunca deveria ter te visto pela segunda vez, da mesma forma que eu sabia que te amava, da mesma forma que eu sabia exatamente o que iria escutar se não tivesse acelerado o carro antes de te dar a chance de falar, eu sei disso tudo da mesma forma que sei que se você tivesse me pedido para ficar, eu teria ficado, e que se você aparecer aqui agora, eu vou abrir mão de mais um monte de coisa por você de novo e vou acreditar quando você disser que me ama de novo, eu sei, eu sei de muita coisa, Leo, mas se tem uma coisa que eu nunca soube e que eu nunca vou saber é como esquecer de você. E essa é a resposta para o seu "a gente se vê um dia". Não. Por favor, não apareça. Porque vai ser difícil te deixar ir de novo.

Queime as minhas roupas,
Fred.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Não falta


Vontade não falta. De mudar as coisas, de entrar em outra frequência, de tirar todos os móveis do lugar e pintar as paredes de branco pra poder preenchê-las com enfeites de cores vivas. Vontade não falta de pegar um carro e passar por mil lugares estranhos e afáveis. De beber e não ter pressa. De desligar o celular sem me preocupar com "e se ele ligar?" Vontade não falta de jogar tudo pro alto, dar adeus às velhas dores, encontrar motivos bons. Vontade não falta de deitar em uma cama que nem é minha, sentindo o calor de um corpo que não é meu mas que decidiu ser, nem que por algumas horas e saber: vontade não falta de estar ali. Vontade não falta. De me apaixonar e valer a pena. De me libertar das minhas prisões mentais. Vontade não falta. Falta força, só.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fly away, breakaway


Há algumas espécies de pássaros que migram, todos os anos, para lugares mais quentes quando o inverno chega. É intrigante e ninguém sabe dizer ao certo como eles sabem para onde ir, mas assim que os primeiros sinais de frio começam a aparecer, um pássaro decide levantar voo, e então o bando inteiro o segue.

É uma lei de sobrevivência, não só para os pássaros que migram, mas para todo ser vivo de sangue quente: buscar calor. Quando fica frio, quando um inverno se instala, quando é impossível aguentar o vazio e o gelo de uma estação, é o que fazemos para continuar a viver.

Como sabemos para onde ir? Como esses pássaros fazem para encontrar o lugar exato, todo ano? Qual é o segredo da busca? Não pode ser apenas instinto. É o que você sente dentro que te move para o lugar certo. O frio que você sente te leva para o calor que você procura. Talvez seja assim com os pássaros, também. Magnetismo e força vital.

O que nos diferencia dos pássaros, além das características óbvias, é que nós não estamos em bando. Cada um de nós sabe o momento exato de alçar voo. Cada pessoa tem que decidir sozinha quando o frio deixa de ser agradável e se torna mortal. Somos pássaros solitários e essa é a parte mais difícil das nossas migrações: no momento em que você decide abrir as asas, você está voando sozinho.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O som de um novo começo


É sempre igual quando nos cansamos de alguma coisa, e isso acontece o tempo todo na vida: começamos a implorar por mudanças. Transformações na vida como a conhecemos em algo completamente novo, empolgante, brilhante. Desejamos acordar e encontrar as coisas em lugares diferentes, abrir a porta do quarto e dar de cara com novas possibilidades, novos ângulos, perspectivas às quais não havíamos prestado atenção ainda.

Assim, é irônica a forma como, mesmo desejando tanto estas mudanças, continuamos agindo da mesma forma e cometendo os mesmos erros. E a verdade é que queremos as mudanças tanto quanto as tememos. Porque, e se você descobrir no meio do processo que mudar significa abrir mão de certas coisas? E se você se deparar com uma mudança tão grande que requer um espaço que já está ocupado dentro de você há muito tempo, e então se ver obrigado a esvaziá-lo? Algumas mudanças são verdadeiras reformas, exige que derrubemos paredes, reconstruamos estruturas, mudemos as nossas bases. 

Mudar é perder coisas. A gente sabe que se as coisas mudarem, vamos sorrir de uma forma diferente. Ninguém quer isso. Então lutamos contra tudo aquilo que nos leve a caminhos diferentes, fechamos os olhos para as possibilidades que aparecem e que poderiam, de fato, mudar nossas vidas.O problema é que não podemos manter as coisas como elas estão para sempre: a vida muda o tempo todo, querendo ou não. Em um dia, em um segundo, em um instante. Você pode insistir em se manter no mesmo caminho para sempre, mas vai chegar uma hora em que você vai dar de cara com um muro infinitamente alto e terá que escolher continuar pela esquerda ou pela direita - menos em frente. Vai chegar um momento em que a única escolha será a mudança. Você está preparado para isso?

Ou você provoca suas próprias mudanças ou terá que aceitar as que a vida impor. E eu não sou um especialista nisso, mas aqui vai o que eu sei sobre as mudanças: as pessoas que mais sofrem são aquelas que lutam contra as transformações e, de repente, são obrigadas a mudar.

"Sem luz, sem luz nos seus olhos azuis brilhantes,
Eu nunca pensei que a luz do dia pudesse ser tão violenta,
Uma revelação à luz do dia, 
Você não pode escolher o que fica e o que desaparece,
E eu faria qualquer coisa pra você ficar."
(No Light, No Light - Florence and the Machine)

*O título deste texto é inspirado na música "Now is the start - A Fine Frenzy"

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Eu tenho um medo


Quem é você no final do dia? Quando todas as luzes se apagaram e não há nada além do travesseiro, o cobertor e sua cabeça. Sua cabeça bagunçada, cheia de medos, de perguntas, sua cabeça com seus pensamentos tristes, ousados, difíceis. Quem é você quando tudo o que você podia fazer no hoje esgotou seu prazo?

Eu li em algum lugar que a paisagem do deserto no final do dia é diferente da paisagem no começo dele. O vento move as dunas e se você se perder em um deserto provavelmente será difícil sair dele, já que tudo ao seu redor vai estar diferente em algumas horas.

Um dia nunca termina como começa, por mais monótono que seja. E ainda assim temos a péssima mania de olhar para o passado. Vasculhamos ele. Procuramos fotos do passado das pessoas com quem estamos e nada é mais assustador do que este pensamento: virar passado. Ser a areia que é jogada para outra duna, no outro lado do deserto. Transformar-se em uma memória, ou nem isso: ser apenas um pretérito (im)perfeito.

Só que a gente nunca sabe como um dia vai acabar. E esta talvez seja a maior angústia que nós temos: não saber. Essa é a razão pela qual consultamos horóscopos. Por isso existem meteorologistas. Ultrassom, radiografia, pai de santo, adivinha, bola de cristal, por isso a gente lota clínicas de psicanálise, contrata detetives, hackers, bisbilhota até o limite, até a gente achar o que a gente quer. Porque a gente não suporta não saber. Não saber é uma prisão, é paranoia, é claustrofóbico, rarefeito. Não saber o que vai acontecer, não saber o que fazer para impedir. Não ter um mapa no final do dia que te ajude a sair do deserto, uma bússola que te dê as coordenadas. Isso deixa muita gente louca.

O que sobra pra nós no final? Do dia. Do amor. Do medo. O que sobra pra nós quando tudo aquilo que a gente conhece e aprendeu a amar acaba, muda, transforma-se, quando a paisagem não é mais a mesma e a gente se perde em um deserto dentro da gente?


De vez em quando sobra uma mensagem que a gente esquece de apagar no celular. Sobra uma foto, uma música, um texto que a gente escreveu, um ingresso de cinema, um cupom fiscal. Sobra a dor e um caminho de volta coberto por areia. Sobra a paisagem, deformada. A gente grita e ninguém aparece para nos salvar.


Não é isso que eu quero ser, um passado, um acontecimento, uma página virada. Não quero ser protagonista de uma dessas fotos que não significam mais muita coisa, não quero ser uma memória, boa ou ruim. 


Quem eu serei no final do dia? E o que me trouxe aqui? O que aconteceu com a minha paisagem? Ninguém sabe. E isso me tira o sono quase todas as noites.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Em nossas mãos



Você deve conhecer aquela história de que, se você jogar uma moeda em um determinado poço mágico e fizer um pedido, ele se tornará realidade. Pessoas fazem isso, apesar de parecer tolice. Elas se viram de costas, fecham os olhos, cruzam os dedos, pedem com força, e atiram uma moedinha de ouro em um poço profundo.


Pode ser que o desejo dessas pessoas se realizem, mas as chances de ter sido por causa da moeda jogada no poço são praticamente nulas. Mas ninguém pode julgar essas pessoas, porque todos nós fazemos o mesmo com as nossas vidas o tempo todo. Que atire a primeira moeda de ouro quem nunca abriu mão de algo precioso e verdadeiro em troca de promessas vazias, amores falsos, empregos duvidosos, quem nunca abriu mão de algo seguro em troca do incerto? 


Jogar coisas valiosas e que às vezes demoramos para conseguir dentro de um poço sem se dar conta de que aquela moeda, única, nunca vai voltar. A gente vive fazendo isso!


A verdade é que a gente nunca sabe o valor das coisas quando as temos em nossas mãos. São lindas, brilhantes, são perfeitas. São exatamente aquilo que procurávamos para nós, exatamente aquilo que nos complementa. Mas o fato de as termos faz com que nos esqueçamos de como elas vieram parar aqui. E não foi fácil. Foi necessário tempo, anos de dor e decepções até a gente encontrar o que estava procurando. E então, em um momento de descuido, em um minuto de indiferença e orgulho, nós perdemos: o tempo, as pessoas, o amor verdadeiro, as amizades insubstituíveis, as oportunidades únicas, a felicidade.

Depois que perdemos as coisas, nós as observamos em fotos antigas, tentamos enxergar lá no fundo do poço, e só então percebemos o quanto eram importantes: quando não as temos mais. E o que podemos fazer quando uma oportunidade se foi, quando uma pessoa seguiu sem a gente, quando o amor verdadeiro passou pelos nossos olhos e a gente nem deu atenção?

Nós achamos que vamos ter uma segunda chance, que se pode abusar da sorte, que dá pra consertar os erros que cometemos. Mas, na maioria das vezes, nós só temos uma oportunidade para aproveitar o que nos foi dado, para nos sentir gratos por isso e não deixar escapar aquilo que é tão precioso, raro, insubstituível. Às vezes, a gente só tem uma moeda. E perdê-la para um poço muito fundo muitas vezes é irreversível.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Julho




Eu tenho um limite que não vai daqui ali, é um espaço dentro da minha cabeça, um buraco na minha alma, uma carga infinita que eu consigo carregar mesmo quando não dá mais pra mover as pernas. Eu luto. Mesmo quando está escrito em todos os livros, em todos os espelhos, em todos os seus dois olhos que eu vou perder, que eu vou desabar, que eu vou precisar de descanso. Eu luto e dissolvo o tempo na água, engulo com sede, é amargo, passa rápido, o tempo mal chega no estômago e já foi embora pelos meus poros, junto com todas as certezas que trouxe consigo, junto com uma luz que eu pensei ter visto na sua janela, junto com a textura desconfiada da tua língua.

Um livro ao lado da cama, o cheiro do papel e da tinta, eu queria que fosse nossa história e que fosse feliz. Eu alimento meus peixes e invejo a simplicidade das cores que eles pintam com seus movimentos puros, ingênuos, autênticos, soníferos.

Sou um ótimo colecionador de pedaços, sei exatamente como você respira quando dorme, sei o sabor que tem teu queixo, sei da folha de outono seca, laranja e quente que você guarda dentro do peito. Sei das manchas no teu pescoço e da cicatriz no teu espírito. Cada núcleo das tuas células é condutor de uma eletricidade azul, cor de um quarto iluminado só com a luz do poste, e eu levo um choque quando com os lábios toco tua testa e teu nariz e teu ombro. Sei o quanto eu gosto disso. Sei disso tudo e não sei absolutamente nada.

Só tem chocolate no teu copo de sorvete, só tem chocolate nos teus olhos derretidos, a maré que te arrasta é a mesma que me joga pra longe do oceano, de cara na areia, o sal ardendo em meus olhos e eu juro que não estou chorando, é apenas o sal, são apenas meus olhos, são apenas os teus...

De repente a madrugada me engole, eu giro até cair na cama, meu sono é um monólogo rápido, meu cérebro é uma pedra fria, cinza e maciça, eu não consigo pensar. Eu desenho formas abstratas no silêncio, com o silvo da minha respiração difícil e eu brinco que é de verdade que você vai ficar.

Eu queria que você ficasse aqui pra sempre, você e a música na tua voz, você e tua risada, você e seu humor, você e suas mãos e seus dedos, você e sua mordida, você e suas gírias, você e eu quando estou com você, porque é o melhor eu que eu conheço, é o eu mais completo dentre todos os meus eus, eu nunca preciso de muita coisa quando você está aqui, eu só preciso te dizer todas as coisas que eu te digo, eu só preciso me deitar no teu ombro e ouvir o ar entrando pela tua garganta, é tudo que eu preciso, é tudo que o meu melhor eu precisa: você e tudo isso aí que eu mencionei, você e eu, você e essa vontade enorme que eu tenho todos os dias de ser teu.

Julho se arrasta pelas minhas veias como mel escorrendo para o ralo, lentamente, provocante. Julho é uma piada, é uma tragédia grega, é uma comédia romântica barata, julho é uma guerra, é um desafio, julho é tudo e é nada. Julho te levou e você estará aqui quando julho acabar. Eu estarei aqui, também. Eu estarei aqui em julho e em todos os outros meses, eu estarei aqui enquanto eu tiver tempo, eu estarei aqui enquanto eu tiver forças, eu estarei aqui, cara. Eu estarei aqui. Porque eu vou ficar. Eu queria que você também ficasse...


Porque eu não vou a lugar algum sem você.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Placebo


Era uma vez aquela dor de cabeça que você curou com uma aspirina. E na manhã seguinte ela estava lá de novo, e por algumas horas você conseguiu ficar sem ela, graças a outro comprimido, que foi eficaz apenas até a hora do almoço. Um mês depois, a aspirina deixou de fazer efeito e você procurou um médico, para descobrir que o problema era mais sério do que apenas uma dorzinha de cabeça.

Era uma vez uma manchinha que você cobriu com base, e que se transformou em um câncer. Um resfriado inofensivo que resistiu ao antibiótico errado e se transformou em pneumonia. Era uma vez uma história mal contada que você relevou, fingiu que acreditou, e descobriu tarde demais que se tratava de uma traição.

O corpo avisa a gente. Quando tem alguma coisa errada, quando algo está onde não deveria estar, a gente sente isso na pele, nos ossos, nos músculos, na mente. Chamam isso de sintomas e existem milhares de remédios para todos eles, o que nos fez desenvolver essa mania irracional de remediar temporariamente coisas maiores do que parecem ser.

Nós nunca prestamos atenção nesses sintomas. Tratá-los mais a fundo geralmente requer tempo, muitas vezes exige métodos complicados e dolorosos. Então nós apenas os ignoramos, tratamos certas dores com meios que são eficazes apenas por um determinado momento, cobrimos feridas expostas, levamos adiante situações que fazem mal. Mas a cada dia fica mais difícil varrer tudo para debaixo do tapete, e um dia as dores se tornam incuráveis, as feridas inflamam, o tapete se torna pequeno demais.

Por mais que você tente ignorar um sintoma, mais cedo ou mais tarde terá de lidar com a causa dele. Então olhe mais de perto, preste mais atenção, não ignore seus instintos. Se tem uma voz no fundo da sua cabeça, não cale-a. Dê olhos e ouvidos a todos os sinais. No final, é deles que sairá a verdadeira cura: a verdade.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Acidente


Hoje eu quis dirigir o carro em alta velocidade na direção de um poste, um muro, um viaduto. Eu quis fechar meus olhos, tirar o cinto, soltar o volante, acelerar. Sentir a força da inércia. Eu quis desistir de tudo. Deixar tudo isso pra lá. Não sentir mais essa dor, não sentir mais essa falta.

Hoje os pássaros pararam de cantar nos fios e ficaram apenas sentados, esperando, observando. O mundo estava coberto de cinzas. Hoje a verdade desabrochou como uma flor negra e horrível. Hoje as páginas que eu tinha escrito sobre você se dissolveram, queimaram, doeram. Nunca foram reais. As músicas que eu escrevi mentalmente sobre quem você era, hoje se arranharam em galhos secos, se distorceram.

Hoje eu tentei ser forte mas não consegui. Eu tentei dizer todas as coisas, mas a voz falhou na primeira sílaba. Doeu tanto que eu não consegui chorar. Hoje eu deixei você ir. Aceitei a verdade sobre as suas mentiras. Engoli cada uma delas como se fossem veneno e agora estou me sentindo morto aos pouquinhos. Hoje eu sei que nunca existiu amor. Que foi só o tempo que precisava passar. Que foi só a primeira gota da tempestade. Hoje eu vejo isso.

Hoje eu me senti perdido, sem saber de onde eu vim, como foi que eu vim parar aqui, nessa tristeza tão grande, nessa falta de esperança tão morta? Senti como se você tivesse me raptado, me enfiado dentro do porta-malas de um carro e me levado para qualquer lugar, mais longe do que eu queria ir, e então me soltou aqui, e eu não sei voltar, eu não sei dormir, eu não sei comer. Eu deveria ter gritado, pedido por socorro na primeira noite, "me tirem daqui!", mas acho que ninguém me ouviria porque nem eu mesmo me ouvi.

Hoje eu esperei você ligar, mandar uma mensagem, me devolver um pouquinho da atmosfera, dizer que quer mais do que qualquer outra coisa me ver, passar o dia comigo, me levar para ver um filme nem que seja dublado, que quer muito passar horas só deitado, sem dizer nada, só deixando que cada gotinha de amor pingue dentro desse coração que você fechou, caia na sua corrente sanguínea e derreta o gelo que você me propôs segurar mas que eu não consegui por muito tempo. Hoje eu esperei. Uma, duas, cem milhões de horas. Esperei por uma resposta para a minha pergunta, um protesto ao meu ultimato, esperei que o Universo voltasse a fazer sentido. A tela do celular está escura, fria, vazia até agora.

Hoje eu quis dirigir o carro em alta velocidade na direção de um poste, um muro, um viaduto. E eu quis que você me impedisse. Que você me desse outra escolha. Eu quis que você me ligasse e me escolhesse.

Tem um incêndio começando. O que você faz? Corra. Pegue tudo o que é importante, salve seus livros, seus discos e seus entes queridos, e fuja o mais rápido que você puder. Porque quando as portas e as janelas estiverem bloqueadas pelo fogo e você descobrir que é tarde demais para tentar se salvar, tudo o que você poderá fazer será ficar olhando. E tudo o que restará de você serão cinzas.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Longe demais



Quando eu conto sobre a minha vida amorosa para as pessoas, geralmente a reação é a mesma. Eu fui alguém que repetiu dois anos de ensino médio basicamente por causa de relacionamentos. Eu saí de um emprego por causa de um namoro que acabou. Eu me prendi oito meses a um relacionamento com alguém que não teve a decência de ser grato pelas coisas boas que eu fiz e, em vez disso, jogou minha confiança no lixo. Eu já me vi abrir mão de várias coisas, inclusive de mim mesmo, por pessoas que passaram, deixaram um rastro de bagunça, como um tornado, e então se foram, fizeram questão de ir. Sempre que alguém ouve minhas histórias mal resolvidas, a conclusão é de que eu passei dos limites, enfiei os pés pelas mãos, joguei pérolas aos porcos. Fui idiota demais, ingênuo demais, cego demais. Fui longe demais.

Existe um limite para todos nós, uma carga máxima que cada um consegue carregar, seja ela física ou emocional. É impossível levantar um ônibus com as mãos ou carregar uma tonelada nas costas. Mas uma vez que nossa carga emocional não pode ser medida com números ou qualquer outro tipo de lógica, como a gente sabe que é demais? Qual é o limite que cada um de nós consegue arrastar, e por quanto tempo? Por quanto tempo é possível empurrar uma carga emocional, e puxar alguém junto ao mesmo tempo? Como a gente sabe que está indo longe demais?

Eu obviamente gostava destas pessoas por quem eu me esforcei. Fiz todas as coisas que podia para mantê-las ao meu lado e quando elas decidiram fazer o contrário, eu sofri. Desabei de lá de cima de alguma montanha  imaginária da qual eu tentava alcançar o topo (se é que existe um topo, um auge, nesse tipo de coisa). Todas as vezes que eu pisava em falso, era um escorregão, e eu me machucava de alguma forma, caía alguns metros, segurava em algum ponto da montanha e voltava a subir, mas dessa vez mais fraco, mais ferido, menos confiante de que algum dia veria o sol nascer por trás dela. Até que o chão tremia, eu perdia o equilíbrio e decidia que não valia mais a pena. Eu soltava. Caía de costas no chão e ficava sem ar com o impacto. O céu girava, eu me sentia nauseado.

É assim quando a gente decide se soltar de uma montanha tão importante para nós, que a gente deu tanto duro pra conseguir escalar, é triste e faz o coração doer, a garganta queima e a gente chora de repente, em momentos aleatórios e inesperados, dentro do trabalho, enquanto dorme, enquanto come, como se alguém nos tivesse dado um soco na boca do estômago, dolorido, inesperado. As pessoas que nos amam olham para nós depois, feridos e frustrados, cheios de poeira e sangue pela pele, com a roupa amarrotada, os lábios ressecados e a olheira monstruosa. "Reaja", essas pessoas dizem. "Você não merece isso. Vai lá, toma um banho, encara a vida, encara o sol, procura outra montanha para escalar. Você já foi longe demais!"

Eu entendo cada um de vocês. Peço desculpas, do fundo do meu coração, por não reagir, por não encarar as coisas desta forma tão positiva. É que eu não acho que algo esteja acabado até que realmente tenha acabado, até que eu não tenha mais forças para lutar e decida me soltar dessa montanha que eu encontrei sem querer.

Sei que quando eu decidir me soltar, haverá pessoas lá embaixo para me segurar, ou pelo menos para me ajudar a levantar do chão, e eu sou profundamente grato por isso. Mas infelizmente cabe a cada um de nós saber o quanto está disposto a se esforçar por algo, e quando não vale mais a pena. Quando não dá mais para aguentar o peso e a gente sente que foi longe demais, acho que a gente está completamente errado: fomos longe, sim, mas eu diria que fomos longe o bastante para dizer para nós mesmos "aguentei o máximo que pude". E então a gente se permite soltar, descansar e, depois do baque repentino e das feridas que a gente vai ter que curar, respirar novamente.


Mas, até lá, é uma bela de uma subida. E haja força.

domingo, 1 de julho de 2012

Laranja


Eles têm um método na Indonésia para capturar macacos: é colocada uma laranja, ou qualquer outra fruta grande dentro de uma cumbuca, com um espaço pequeno o suficiente para que apenas a mão do animal consiga entrar. O macaco, procurando por alimento, enfia sua pata na cumbuca e agarra a fruta. Feito. Ele está preso. A mão conseguiria sair com a mesma facilidade com que entrou, se não fosse pelo detalhe chave do mecanismo: o animal não solta a fruta, que é grande demais para passar pelo buraco, impedindo-o assim de se libertar.

Parece uma estupidez gigante à primeira vista, mas não é incomum ver isso acontecendo o tempo todo, não só na Indonésia, não só com os macacos, mas aqui e com todos nós. Quem nunca se viu preso a uma laranja, colocando em risco a própria sobrevivência e, mesmo sabendo disso, recusando-se a deixá-la? Quem nunca se enfiou sem pensar em um espaço muito pequeno, acreditando que ali dentro haveria algo delicioso, suculento e vital, mas que acabou se mostrando um verdadeiro cativeiro?

Todos já nos sentimos como animais irracionais, lutando por algo que nunca vai poder ser conciliado com a vida, com a liberdade, uma escolha entre a laranja e a sobrevivência, entre o amor que encontramos sem querer e a paz de espírito que demoramos longos meses para construir, entre fazer alguém feliz e ser feliz, amar e sentir-se amado - todos nós já tivemos laranjas difíceis de soltar.

Lutamos, ralamos os pulsos, gritamos, gastamos toda a nossa energia, só para descobrir no final que se quisermos mesmo encontrar alguma liberdade é preciso soltar a laranja. O buraco na cumbuca não vai aumentar. A laranja não vai se adaptar ao buraco. E ficar preso a ela é suicídio. A única forma de sobreviver a este tipo de prisão é, obviamente, abrir mão. Por mais brilhante e perfumada que seja uma laranja, não vale a pena se colocar em risco por ela. 


Os macacos que sobrevivem acabam descobrindo que existem outras laranjas pela floresta, que muitas delas estão apenas penduradas em galhos, livres, e que nada pode ser mais suculento e valioso do que uma laranja que está conciliada com a harmonia, a paz de espírito e a liberdade.

sábado, 30 de junho de 2012

Goodbye



Eu tive que me acostumar com as despedidas. A vida as impôs várias vezes no decorrer da minha existência, e por mais que elas continuem acontecendo constantemente, por mais que eu tenha me acostumado com elas, há uma parte difícil em cada despedida com que eu nunca vou aprender a lidar.

Há um espaço em todas as despedidas. Um espaço vazio onde havia algo importante, essencial, acolhedor. Uma ausência no espaço entre seus dedos. Uma casa vazia e ruas pelas quais você não vai passar por um bom tempo. O espaço entre um minuto e o outro, entre julho e agosto. Dizer adeus é quase como uma amputação, um membro fantasma que estará ali durante muito tempo, mesmo não estando mais. Toda despedida leva consigo um pedaço de você, um pouco do seu oxigênio.

Eu disse adeus várias vezes, e cada uma delas foi dolorosa de uma forma particular. Despedir-se significa uma determinada gama de perdas. Ninguém é igual a ninguém, nenhum amor é igual ao outro, nenhuma história se repete, e isso faz com que cada despedida seja única, dolorosa, e a gente nunca vai se acostumar com isso: a perda de algo singular e insubstituível.


No geral, eu aprendi algo sobre ter que dizer adeus: ame alguém com toda a energia vital que lhe foi dada. Esforce-se. Faça tudo o que puder se seu coração sentir que deve. Leve cupcakes para a pessoa se ela teve um dia ruim, beije-a como se fosse a última vez, respire o ar quente que sobe do pescoço dela quando ela está deitada ao seu lado. Ame-a e deixe que ela saiba disso. Mas tenha em mente que nada dura para sempre, e acredite nisso com todas as forças que você conseguir reunir para convencer-se de alguma coisa. 


No momento em que você pensa que tem algo, ele se vai. E na maioria das vezes não há nada que você possa fazer para ele ficar.

Goodbye, brown eyes, goodbye for now.
Goodbye, sunshine, take care of yourself. 
(Goodbye - Avril Lavigne)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Tomorrow




Quando algumas coisas ruins acontecem, nós demoramos para reagir. Se você cai, o corpo demora alguns segundos para sentir dor. Alguém que sofre um acidente de trânsito entra em choque na hora, fica imóvel, sem reação, mal respira. Uma notícia ruim é tão inacreditável que a gente tem que fechar os olhos para processá-la.

De uma forma geral, quando algo ruim acontece, existe sempre algo pior por vir. O momento do impacto é neutro: o pior é o que vem depois. Gostamos de mentir para nós mesmos que amanhã será melhor, amanhã fará sol, amanhã tudo será diferente. Mas nem sempre é assim. Na maioria das vezes, amanhã é mais difícil do que hoje.

Hoje é o dia em que a notícia foi dada, em que a bomba explodiu, em que você se chocou com a verdade. Hoje é imóvel, é silencioso, é repentino. Mas amanhã é o dia em que você vai descobrir que é verdade, mesmo, que não foi só um sonho ruim, que você dormiu, acordou e realmente aconteceu, as paredes realmente vieram abaixo, o chão sumiu, o nó na sua garganta está mais apertado do que nunca, você estava indo em uma velocidade muito alta e não se deu conta de que havia um muro à sua frente.

Amanhã é o dia em que você vai ter que aprender a dar os primeiros passos de novo: pra fora da cama, e depois do quarto, e então de casa, encarar o mundo seguindo em frente lá fora, os carros seguindo para qualquer lugar, as pessoas entrando e saindo de seus locais rotineiros, a vida acontecendo naturalmente, mesmo que pareça que houve uma interrupção no tempo, que o mundo parou um pouquinho. Será o primeiro "tudo, e com você?" que você vai responder para alguém, tentando não transparecer a verdade. Amanhã você terá que aprender a sorrir de uma forma diferente, a engolir certas lembranças ásperas no meio de um dia útil. É o primeiro dia depois da mudança; é o começo da cura. Amanhã são horas intactas, cheias de escolhas e recaídas. Amanhã é a primeira refeição que você vai engolir por obrigação. Amanhã é o primeiro expediente que você vai fazer sentindo o tempo se arrastar, ouvindo todas as pessoas falarem de coisas que, por alguma razão, te lembre do impacto. 


Amanhã é ir para a casa depois do trabalho sem vê-lo, para não dificultar as coisas. Amanhã é a força que você vai ter que descobrir onde encontrar. Amanhã você vai se perguntar por quê. Não haverá respostas. E amanhã vai doer. 


Amanhã é pesado, é o dia um, é o (re)começo da escalada. O principal motivo de adiarmos as coisas é que, de alguma forma, sabemos que as consequências das nossas escolhas geralmente são mais difíceis do que imaginamos que seriam. No entanto, depois de amanhã, vem outro amanhã. E então outro, e mais outro, e mais outro. E se soubermos encarar todos os dias, sem adiá-los, sem temê-los, um belo dia a gente acorda em um amanhã que se transformou em um hoje, e descobrirá que hoje realmente é melhor, que realmente faz sol, que as coisas estão mesmo diferentes.

Porque amanhã realmente é difícil. Mas será ainda pior se não nos permitirmos hoje dar início ao primeiro passo de toda a dor e também de toda a cura: o depois.

sábado, 23 de junho de 2012

A verdade em suas mentiras



Você sabe quando uma pessoa está mentindo. Dizem que ela emite vários sinais, tão pequenos que não somos capazes de interpretar conscientemente, mas que no fundo de nossa mente, sem saber, nós os captamos. Alguém que está mentindo não te olha nos olhos, talvez porque tenha medo de que você enxergue a verdade diretamente na fonte da mentira: a alma.

Mas nós enxergamos, mesmo assim. A mentira tem cheiro. Conseguimos ver a mentira de longe. Aquela contração de um milionésimo de segundo entre as sobrancelhas da pessoa, que nós nem sabemos que vimos, faz um alarme apitar dentro das nossas cabeças, e a gente sabe quando algo não é verdadeiro. Todos nós temos este mecanismo, alguns de nós nem sabem que têm, outros não o desenvolveu.

A diferença, no entanto, não está em como enxergamos a mentira. Está em como não queremos enxergar a verdade. Às vezes ela é tão fria e difícil que preferimos acreditar na mentira que nos é contada. Programamos nosso próprio cérebro para acreditar em uma história cheia de buracos porque sabemos que se a verdade resolver vir à tona, vai doer. Então nós tapamos os olhos, ignoramos os sinais, e só ouvimos. Deixamos que a mentira entre e nos conforte, mesmo quando ela tem arestas mal aparadas que não se encaixam em lugar nenhum.

Mas por mais que tentemos acreditar nas mentiras dos outros, existe essa voz em algum lugar que não nos deixa mentir para nós mesmos. Não adianta tentar tapar o sol com a peneira. Ela está ali, clara, nua e crua, bem debaixo do nosso nariz: a versão real dos fatos; a resposta para todas as nossas perguntas; o antídoto para todos os venenos que circulam em nossas mentes. A verdade.

A verdade desata a maioria dos nós, clareia tudo aquilo que parece confuso e sem sentido, preenche as lacunas das nossas dúvidas. A verdade é a única coisa que pode nos salvar, e, mesmo assim, é a última coisa que queremos enxergar nos olhos de alguém.

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