É inquieto o silêncio que me acorda durante as madrugadas. Faz tempo que o ouço. É uma voz que não é de ninguém. É um som sem timbre, sem nota, sem vibração. Tudo o que me assombra, tudo o que me esclarece, tudo o que é sólido e invariavelmente derrete, me afoga em um copo fundo de palavras em código. Meu cérebro se sobrecarrega, não há verdade ou mentira, não há hoje ou ontem - é tudo sempre, é tudo aqui.
Leio os lábios invisíveis que se pronunciam, batendo seus dentes escuros e refletindo no esmalte as luzes de uma cidade morta. Mas nada é claro, e eu sou surdo. Tateio as paredes no escuro, procurando por uma porta, procurando por uma saída. Minhas mãos me enganam e eu trombo e caio.
Quem me pediu para esperar, me viu correr como um cometa. Não há lucidez, oxigênio ou calor que me prenda a algum lugar. Tudo aquilo que se repete dia após dia, minuto após minuto, faz com que eu me sinta menos vivo, menos real, como se eu estivesse me dissolvendo, me desbotando, me prendendo aos papéis de parede da decoração. Não sou daqui, eu penso. Não sou de nenhum lugar, porque minha alma é itinerante. Minhas asas se abrem e eu tenho que voar, não importa quando nem para onde.
Subo tão alto e me deparo com um buraco negro. É como se ele estivesse me esperando o tempo todo. O silêncio pressiona meus tímpanos de novo. Sinto sua língua provar do meu sangue. O nada se funde com o tudo. Suga tudo para a inexistência e, quando tudo desaparece, o nada suga a si mesmo. A partícula de nada, tão pequena que nem existe, implode e gera planetas, galáxias, estrelas. Todos eles cheios de tudo, cheios de nada. O silêncio assombra nos cantos escuros da mente, e quem ouve não entende.
sábado, 19 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Tempo, tempo, tempo
Mexendo em coisas velhas, encontrei pedaços importantes do meu passado, peças de um quebra-cabeça inconclusivo que tenta formar o que sou hoje. Há uma frase de um filme chamado "Amores Perros" de que gosto muito, e que diz "Somos também aquilo que perdemos". Somos frutos da erosão causada pelo tempo. Moldes imperfeitos das circunstâncias nas quais nos chocamos. Planos que não correram como imaginávamos, pedaços rasurados dos nossos projetos iniciais, remendos da nossa própria alma despedaçada milhares de vezes.
Eu era um garoto que não se encaixava em quase nenhum lugar. Passei por tanta coisa que às vezes parece ter sido em outra vida e, se eu parar para pensar, de fato foi, a julgar pelos inúmeros "para sempre" que vivi e que ainda existem em algum lugar, em alguma outra vida, se é que eu acredito nisso, se é que eu acredito em alguma coisa. Foram eternidades que se acabaram em um piscar de olhos, antes que eu pudesse pronunciar um protesto. Eu era o garoto que saía correndo no meio da aula de inglês e ia tomar chuva no pátio do colégio. Eu tinha (ainda tenho?) uma tristeza dentro de mim que ninguém conseguia explicar ou entender, a qual eu contemplava (ainda contemplo?) em um deleite secreto, silencioso, agridoce.
Olhando para trás, apesar do caos para o qual parece que fui predestinado, há uma certa inocência nos meus atos, uma virgindade espiritual e empírica. Quem eu era naquele tempo não tinha a menor noção das tempestades que estavam por vir, das dúvidas que surgiriam, dos medos que me assombrariam. O que eu sabia, afinal? Com 15 anos de idade, o mundo era gigantesco e eu era pequeno, mas não mais do que sou agora. Olhando para aquele garoto, tão inexperiente, tão otimista e ingênuo, eu me pergunto como seria se eu soubesse o que estava por vir.
E se eu não tivesse andado por aqueles caminhos? E se não tivesse feito as escolhas que fiz? E se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci? Quem eu seria hoje? Onde estaria, e com quem? Será que tudo estaria diferente hoje? Ou eu acabaria saindo no mesmo lugar, independente da porta pela qual eu tivesse entrado?
A resposta que encontro para essas perguntas está diante dos meus olhos todas as vezes que eu me olho no espelho: as tempestades que enfrentei me revelaram modos de sobrevivência para as próximas; as pessoas que conheci me ensinaram lições das quais jamais esquecerei; os caminhos que trilhei eram os certos, simplesmente porque a bússola dentro da minha alma indicava para eles no momento em que tomei as decisões que tomei; minhas perdas me ensinaram a cuidar dos meus ganhos; meus erros justificaram meus acertos.
Se me dessem uma nova chance de fazer tudo de novo, é claro que eu não faria tudo igual. Minha essência é testar a vida de todas as formas, e eu não perderia tempo com uma reprise de algo que já sei como acaba. O tempo não só mudou quem eu era. Ele me transformou no que sou: uma colcha de retalho dos meus erros, das minhas experiências, dos meus amores, dos meus acertos acidentais, das minhas escolhas imprudentes, dos meus ganhos e, principalmente, das minhas perdas.
E quando aquelas dúvidas aparecem, encharcadas de desespero e imediatismo, há uma resposta que ameniza temporariamente minhas aflições: tudo o que aconteceu me trouxe até aqui. E isso basta por agora.
Eu era um garoto que não se encaixava em quase nenhum lugar. Passei por tanta coisa que às vezes parece ter sido em outra vida e, se eu parar para pensar, de fato foi, a julgar pelos inúmeros "para sempre" que vivi e que ainda existem em algum lugar, em alguma outra vida, se é que eu acredito nisso, se é que eu acredito em alguma coisa. Foram eternidades que se acabaram em um piscar de olhos, antes que eu pudesse pronunciar um protesto. Eu era o garoto que saía correndo no meio da aula de inglês e ia tomar chuva no pátio do colégio. Eu tinha (ainda tenho?) uma tristeza dentro de mim que ninguém conseguia explicar ou entender, a qual eu contemplava (ainda contemplo?) em um deleite secreto, silencioso, agridoce.
Olhando para trás, apesar do caos para o qual parece que fui predestinado, há uma certa inocência nos meus atos, uma virgindade espiritual e empírica. Quem eu era naquele tempo não tinha a menor noção das tempestades que estavam por vir, das dúvidas que surgiriam, dos medos que me assombrariam. O que eu sabia, afinal? Com 15 anos de idade, o mundo era gigantesco e eu era pequeno, mas não mais do que sou agora. Olhando para aquele garoto, tão inexperiente, tão otimista e ingênuo, eu me pergunto como seria se eu soubesse o que estava por vir.
E se eu não tivesse andado por aqueles caminhos? E se não tivesse feito as escolhas que fiz? E se eu não tivesse conhecido as pessoas que conheci? Quem eu seria hoje? Onde estaria, e com quem? Será que tudo estaria diferente hoje? Ou eu acabaria saindo no mesmo lugar, independente da porta pela qual eu tivesse entrado?
A resposta que encontro para essas perguntas está diante dos meus olhos todas as vezes que eu me olho no espelho: as tempestades que enfrentei me revelaram modos de sobrevivência para as próximas; as pessoas que conheci me ensinaram lições das quais jamais esquecerei; os caminhos que trilhei eram os certos, simplesmente porque a bússola dentro da minha alma indicava para eles no momento em que tomei as decisões que tomei; minhas perdas me ensinaram a cuidar dos meus ganhos; meus erros justificaram meus acertos.
Se me dessem uma nova chance de fazer tudo de novo, é claro que eu não faria tudo igual. Minha essência é testar a vida de todas as formas, e eu não perderia tempo com uma reprise de algo que já sei como acaba. O tempo não só mudou quem eu era. Ele me transformou no que sou: uma colcha de retalho dos meus erros, das minhas experiências, dos meus amores, dos meus acertos acidentais, das minhas escolhas imprudentes, dos meus ganhos e, principalmente, das minhas perdas.
E quando aquelas dúvidas aparecem, encharcadas de desespero e imediatismo, há uma resposta que ameniza temporariamente minhas aflições: tudo o que aconteceu me trouxe até aqui. E isso basta por agora.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Sozinho é um lugar mais seguro
Eu não queria dormir sozinho. Eu tinha dez anos e tudo ao meu redor naquele quarto iluminado apenas pela luz de um abajur eram sombras, medo, fantasmas. Eu me deitava na cama para dormir, mas o que eu realmente fazia era ficar acordado, em vigília, esperando pelo momento do bote, do terror iminente e inevitável. Em pânico, eu corria para o quarto da minha irmã e, de manhã, era repreendido pelos meus pais. "Você precisa enfrentar seus medos. Isso é coisa da sua cabeça. Nada vai acontecer."
Aqueles dias se foram. Hoje, olhando para trás, vejo que, embora tudo pareça igual, está muito diferente. O aleatório é uma ilusão. Enquanto você dorme - quando você consegue ignorar seus fantasmas, enfrentar seus medos, acreditar que nada vai acontecer -, as linhas do acaso se unem em padrões quase imperceptíveis, transformando todo o cenário.
Aqueles fantasmas também se foram e eu sinto falta deles. Dos medos imaginários que eu podia enfrentar ao fechar meus olhos e fazer uma oração - porque minha fé estava intacta, virgem, inocente, antes de ter sido removida de mim a duros golpes de palavras.
Hoje meus fantasmas são outros. São alimentados por coisas empíricas. Agarram-se nas linhas soltas do acaso. São baseados em fatos reais. A diferença é que hoje eu quero - e preciso - dormir sozinho. Estar só é a única forma de combatê-los. Sozinho é minha prece. Sozinho ninguém me fere. Sozinho eu leio, eu canto, eu durmo, eu sonho, eu danço. Sozinho eu chego, eu alcanço. Sozinho eu existo de verdade, de dentro pra fora. Sozinho é um lugar mais seguro.
Enquanto escrevo essas palavras, ouço o silêncio da solidão em um lugar que, durante o dia, é confuso, é intenso, é assustador. Todos estão dormindo: as sombras, os medos, os fantasmas... E, quando eles acordarem, eu estarei dormindo, eu estarei seguro. Sozinho nada vai me acontecer.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Antigravidade
Eu pensei que soubesse lidar com isso. Com as dificuldades existentes e tangíveis; com as adversidades colocadas pelo destino; com os limites impostos pelas circunstâncias; com a geografia que não aprendemos em nenhuma instituição de ensino. Eu estava errado. Eu não sei.
Você pousou em mim como um astronauta, e eu perdi minha gravidade, de repente você era o Sol, eu estava em órbita ao seu redor, um Sol quente e distante, e eu desafiaria essa nova gravidade se soubesse que você iria me segurar, que não iria me deixar cair no universo escuro e infinito até colidir com algum corpo que não é o seu. Eu estava errado. Você não vai.
A galáxia se condensa e se contrai como um pulmão. Sinto a densidade dos dias pressionando minhas células. Meu coração bate devagar, embora minha respiração seja ofegante por tentar correr contra o tempo, contra o espaço, desafiando leis físicas milenares. Há um grito preso em minha garganta que não se propagará no vácuo. Pensei que fosse forte o bastante, que meus olhos pudessem enxergar além disso tudo, que o veneno das horas não fosse me infectar. Eu estava errado. Não sou.
Dissolvo um pouco dessa realidade em um copo d'água e bebo fazendo careta, porque é intragável. Não posso mais flertar com o impossível, procurando por uma brecha, como um hacker procura uma falha em um código de programação. A vida é mais complexa do que isso. A correnteza escura me puxa e, finalmente, me deixo levar por ela. Está em suas mãos. O Sol é seu. A gravidade é sua. Você decide.
Nossas memórias são poucas, mas nutritivas para os medos que alimento todos os dias.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Insônia
Já percebestes que não mudastes? Que continuas o mesmo? Que só mudaram as horas, o vento, o tempo, que choveu e molhou e secou, que abriu Sol e a menina que andava de bicicleta na rua caiu e se machucou e se levantou e se remediou e sarou, que os prédios abrem suas portas todas as manhãs quase no mesmo horário, que as pessoas vivem suas vidas, fazem suas compras, andam em seus carros, têm seus filhos, divorciam-se, casam-se, viúvam-se, encontram o amor de suas vidas em uma esquina machucada pelo tempo, que o cachorro andando na rua não tem dono, nunca teve, que os fiéis pedem a Deus algo que não sabem ao certo se querem mesmo ter, que as farmácias vendem remédios milagrosos para a cura da tristeza e que, no final das contas, eles só causam mais tristeza, assim como as receitas milagrosas vendidas pelas revistas e pelos jornais e pelos televisores ligados em casas de famílias na hora do jantar, forçando o pai, a mãe e os filhos a acreditarem em um modelo inexistente, que os livros têm páginas defeituosas, gramática mal digerida, histórias mal contadas, caracteres mal impressos, que o som é uma ilusão de ótica, que as leis nunca serão todas cumpridas, que a sopa esfria no prato de uma criança que se empanturrou de doces antes do jantar, que alguém está gritando em algum lugar do mundo, que ninguém vai ouvir, que telefones tocam solitários sem ninguém do outro lado da linha, que mensagens nunca chegam, que cartas extraviam, que os trens emitem ruídos para o infinito, que o infinito está lotado de estrelas que poluem o vazio, que as letras são meras construções de pequenos pontinhos de nada, que a tecnologia mal existe, que os dedos das mãos nunca tocarão o céu, que o mundo gira sempre do mesmo jeito, e que nada mudastes, que tu não mudastes, que eres o mesmo que eras há eras, que tudo é tão efêmero quanto eterno, já percebestes isso?
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Oceano
Como atrito segurando a fluência dos dias, te guardo em uma parte segura da minha memória. Então estamos aqui, rodeados por bilhões de estrelas em um universo efêmero que um dia desaparecerá. Como ele, desaparecerá o verão. Com o verão, irão embora as cores. Mas, neste momento, que pode ter durado tanto uma eternidade paradoxal quanto a velocidade de um pensamento bom, há a música rápida, em contraste com seus lábios lentos, tímidos, finos como a linha que separa o certo do errado, o lúcido do insano, o medo de todo o resto - uma linha que vale a pena cruzar. Há, também, o escuro do espaço. As luzes oscilantes revelando suas cores e as minhas e, de repente, o universo tem todas elas e mais um milhão que meus olhos não enxergam por causa dos seus.
Cabe um punhado de horas em seus olhos, profundos como o oceano. Há vida dentro deles. Há peixes buscando algo. Há areias finas e macias firmando um universo infinito de palavras, toques, sensações. E, ao mesmo tempo, eles são tão pequenos... Como se confessassem algo, e eu não desvendei sua mensagem, codificada em um bilhão de sílabas e átomos, porque você é pura linguagem e química e tudo que há em consequência dessa combinação. Há um porto, há um farol. Nada é mais convidativo do que seus olhos. Então, a âncora está prestes a ser lançada, a fincar o desconhecido, o que eu não fazia ideia de que existia até pouco tempo atrás.
Mas o tempo perdeu seu trilho, colidiu com a noite, explodiu em estrelas. Estrelas. Lembro-me delas e de tudo que desaparecerá, do verão finito, do universo finito, do porto de chegada e partida em seus olhos. Entendendo isso, como uma criança que aprendeu a subtrair números de horas, puxo a âncora e deixo que o navio em meu peito vague pelas ondas do seu oceano. Um dia partiremos.
Junto o tempo fragmentado em estrelas em um pote transparente e o guardo junto a você. Posso observá-lo quando quiser. Enquanto houver estrelas, haverá o tempo. Enquanto houver tempo, haverá você.
Cabe um punhado de horas em seus olhos, profundos como o oceano. Há vida dentro deles. Há peixes buscando algo. Há areias finas e macias firmando um universo infinito de palavras, toques, sensações. E, ao mesmo tempo, eles são tão pequenos... Como se confessassem algo, e eu não desvendei sua mensagem, codificada em um bilhão de sílabas e átomos, porque você é pura linguagem e química e tudo que há em consequência dessa combinação. Há um porto, há um farol. Nada é mais convidativo do que seus olhos. Então, a âncora está prestes a ser lançada, a fincar o desconhecido, o que eu não fazia ideia de que existia até pouco tempo atrás.
Mas o tempo perdeu seu trilho, colidiu com a noite, explodiu em estrelas. Estrelas. Lembro-me delas e de tudo que desaparecerá, do verão finito, do universo finito, do porto de chegada e partida em seus olhos. Entendendo isso, como uma criança que aprendeu a subtrair números de horas, puxo a âncora e deixo que o navio em meu peito vague pelas ondas do seu oceano. Um dia partiremos.
Junto o tempo fragmentado em estrelas em um pote transparente e o guardo junto a você. Posso observá-lo quando quiser. Enquanto houver estrelas, haverá o tempo. Enquanto houver tempo, haverá você.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
O Coelho na Cartola
Para M.
O ano que acaba hoje não foi muito grato com você. Também não foi comigo. Perdemos coisas, enfrentamos dificuldades, decepcionamos e fomos decepcionados. Tudo isso nos dá a ligeira sensação de que o ano não valeu nada, de que foi só um tapa-buraco em nossas existências, cheio de frustrações e tristeza.
Minha irmã postou algo esses dias no Facebook de que gostei muito. Dizia "A vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola". Desconheço a autoria da frase, mas foi, provavelmente, uma das coisas mais interessantes e verdadeiras que li em 2013. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola da vida, em qualquer situação. Dá pra tirar aprendizado nos erros. Dá pra tirar força nas perdas. Dá pra tirar sentido no caos.
Quando estamos perdidos na escuridão, não nos damos conta de que o escuro é tão sensível que qualquer fonte de luz o rompe, o transforma. E é disso que eu gostaria de falar: da luz que a gente tira da cartola pra quebrar o escuro. Somos seres formados de moléculas que, por sua vez, são formadas por partículas minúsculas. E essas partículas são formadas de quê? De outras partículas, imensamente menores, ainda. E elas, são formadas de quê? De algo ainda menor. Somos profundos. Somos infinitos. Somos grandes, enormes e, ao mesmo tempo, somos minúsculos - somos partículas do infinito. Tão imensos quanto o nada. Logo, qualquer coisa pode nos preencher, qualquer lufada de ar, de vida, de felicidade, qualquer ponto de luz é capaz de acabar com nossa escuridão.
Desejo que teu ano novo seja assim, cheio de coelhos na cartola. Que você consiga encontrar formas de fazer a magia acontecer, para que eles saiam de lá. Que você encontre forças dentro de você, e jamais fora, porque é a única coisa realmente verdadeira que você tem: o que está dentro do seu infinito individual. Que as feridas se cicatrizem e deixem ali marcas de guerra que te façam lembrar: apesar de tudo, eu venci - eu aprendi com as perdas, eu enfrentei o medo, a tempestade, a fúria, o sofrimento, eu caí e me levantei, eu fui forte o bastante, eu venci. Que você amadureça nos pontos certos, mas que nunca perca essa criança doce, sorridente e sonhadora que vive dentro de você.
Lembre-se do que te disse um dia: o Universo é gigantesco, infinito (assim como nós, mas infinitamente maior do que nós). Nossos problemas, nossas dores, nossos medos são tão pequenos e breves quanto um pensamento - não são nada mais do que um suspiro no vácuo. Um dia, tudo isso passa. Um dia, a tempestade acaba. Um dia, a gente acorda e tá um sol maravilhoso lá fora. Um dia, não dói mais. A gente se olha no espelho, percebe que tem alguém ali tão diferente e, ao mesmo tempo, se reconhece, ainda que haja uma sutil divergência no reflexo: eu cresci.
Faça a mágica acontecer, tire coelhos de cartolas, tire proveito do imprevisto, tire força do seu infinito. Busque o que te faz bem, e encare isso que algumas pessoas chamam de destino e outras de acaso de frente. Não olhe para trás. Seja feliz. Seja grande. Seja infinito.
Feliz ano novo. Feliz você novo.
O ano que acaba hoje não foi muito grato com você. Também não foi comigo. Perdemos coisas, enfrentamos dificuldades, decepcionamos e fomos decepcionados. Tudo isso nos dá a ligeira sensação de que o ano não valeu nada, de que foi só um tapa-buraco em nossas existências, cheio de frustrações e tristeza.
Minha irmã postou algo esses dias no Facebook de que gostei muito. Dizia "A vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola". Desconheço a autoria da frase, mas foi, provavelmente, uma das coisas mais interessantes e verdadeiras que li em 2013. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola da vida, em qualquer situação. Dá pra tirar aprendizado nos erros. Dá pra tirar força nas perdas. Dá pra tirar sentido no caos.
Quando estamos perdidos na escuridão, não nos damos conta de que o escuro é tão sensível que qualquer fonte de luz o rompe, o transforma. E é disso que eu gostaria de falar: da luz que a gente tira da cartola pra quebrar o escuro. Somos seres formados de moléculas que, por sua vez, são formadas por partículas minúsculas. E essas partículas são formadas de quê? De outras partículas, imensamente menores, ainda. E elas, são formadas de quê? De algo ainda menor. Somos profundos. Somos infinitos. Somos grandes, enormes e, ao mesmo tempo, somos minúsculos - somos partículas do infinito. Tão imensos quanto o nada. Logo, qualquer coisa pode nos preencher, qualquer lufada de ar, de vida, de felicidade, qualquer ponto de luz é capaz de acabar com nossa escuridão.
Desejo que teu ano novo seja assim, cheio de coelhos na cartola. Que você consiga encontrar formas de fazer a magia acontecer, para que eles saiam de lá. Que você encontre forças dentro de você, e jamais fora, porque é a única coisa realmente verdadeira que você tem: o que está dentro do seu infinito individual. Que as feridas se cicatrizem e deixem ali marcas de guerra que te façam lembrar: apesar de tudo, eu venci - eu aprendi com as perdas, eu enfrentei o medo, a tempestade, a fúria, o sofrimento, eu caí e me levantei, eu fui forte o bastante, eu venci. Que você amadureça nos pontos certos, mas que nunca perca essa criança doce, sorridente e sonhadora que vive dentro de você.
Lembre-se do que te disse um dia: o Universo é gigantesco, infinito (assim como nós, mas infinitamente maior do que nós). Nossos problemas, nossas dores, nossos medos são tão pequenos e breves quanto um pensamento - não são nada mais do que um suspiro no vácuo. Um dia, tudo isso passa. Um dia, a tempestade acaba. Um dia, a gente acorda e tá um sol maravilhoso lá fora. Um dia, não dói mais. A gente se olha no espelho, percebe que tem alguém ali tão diferente e, ao mesmo tempo, se reconhece, ainda que haja uma sutil divergência no reflexo: eu cresci.
Faça a mágica acontecer, tire coelhos de cartolas, tire proveito do imprevisto, tire força do seu infinito. Busque o que te faz bem, e encare isso que algumas pessoas chamam de destino e outras de acaso de frente. Não olhe para trás. Seja feliz. Seja grande. Seja infinito.
Feliz ano novo. Feliz você novo.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Erosão
É claro que o tempo passou. Fui tolo por pensar que não passaria. É o que o tempo faz, não é? Passa. Passa enquanto você dorme e enquanto você acorda encharcado de nostalgia; passa enquanto você se olha no espelho procurando os efeitos disso; passa enquanto você sente o medo, e a dor, e a paz. É claro que o tempo passaria.
Soube por fontes muito confiáveis que o tempo não passou só para mim. Passou, também, para todas aquelas pessoas que faziam parte da minha vida nesse mesmo dia, em um ano diferente. As paredes do shopping estão cheias de luzes e guirlandas, há um papai Noel gigantesco na porta, músicas natalinas tocando incansavelmente nos alto-falantes. Tudo isso dá a leve sensação de que tudo está igual como era antes, mas não está. É só uma ilusão. O tempo passou porque o papai Noel gigante está mais empoeirado e torto do que estava ano passado; porque as músicas natalinas que eu não conhecia, hoje sei de cor; porque algumas luzes estão queimadas e nada as fará acender de novo, em nenhum momento do tempo.
Deixei um chão lotado de bagunça por onde passei. Lá estão elas, jogadas até hoje: as falhas, as desistências, as frustrações. E eles: os abandonos, os medos, os gritos e os risos. Nada se moveu do lugar e, ao mesmo tempo, estão em constante órbita dentro e em volta disso que é meu ser. Por mais que eu tenha tentado me livrar disso tudo que me corrompe, que me corrói, não consigo: são vícios. De certa forma, somos viciados na dor, temos um prazer sádico em senti-la, somos dependentes físicos, químicos e psicológicos de tudo que desestabiliza nossa insustentável leveza.
Afinal, é o que nos forma, o que nos molda. É nos momentos de desespero que descobrimos nossa real força, até onde podemos ir, o quanto podemos lutar. São nossas falhas que nos ensinam, que clareiam nossos olhos, que fortalecem nossos músculos, que engrossam nossa pele. Não é a paz que erode uma rocha, mas a tempestade, as ondas vorazes, o vendaval furioso.
Quando olho para trás e vejo tudo isso, todo o caos, a febre, a vontade, o barulho e a confusão que causei, sei que, embora tenham me rendido várias cicatrizes, foi cada um desses passos que me trouxeram aqui, com a consciência que tenho, com os troféus imaginários que ganhei e escondi em algum lugar, com a deliciosa dor que costumo tomar de sobremesa.
Tudo mudou e, em algum lugar do tempo, tudo permanece o mesmo. Ainda amo, ainda sinto, ainda acordo assombrado, gritando, implorando, remoendo. Mas me levanto da cama, olho o relógio, estou atrasado, corro. A nova versão da vida que me foi concedida não tolera tempo desperdiçado com esse tipo de coisa. De vez em quando eu paro para fumar um cigarro e ter uma pausa da realidade obrigatória da qual me forcei a participar, só para testar o tempo, só para ver se ele passava, mesmo, e passou, é claro que passou, estranho seria se não passasse.
Depois olho em volta. Tudo está diferente. Mas o Natal está em todas as partes.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Infinito até que deixe de ser
Estava conversando com uma amiga quando ela me surpreendeu com a notícia de que seu namoro de mais de um ano havia acabado. "Como assim?", perguntei incrédulo. "Não era tudo que você queria?". Ela visualizou a mensagem no Facebook, ensaiou algumas mensagens que não enviou, até que, minutos depois, respondeu "Era... Até que deixou de ser."
Lembrei-me na hora do Soneto de Fidelidade de Vinícius de Moraes, que diz "Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure." Fala de amor, é claro. Dos romances que desejamos que sejam eternos. É o que todo mundo quer, afinal, quando algo é bom. Quando algo é tudo aquilo que procurávamos, tudo aquilo que queríamos. Até que deixe de ser.
Mas não é só ao amor e aos relacionamentos amorosos que isso se aplica. Que seja infinito até que deixe de ser faz sentido em vários outros departamento de nossas vidas. Nossos amigos, por exemplo, que são os melhores. São as pessoas que mais nos entendem no mundo, são a família que escolhemos para nós. Amizade é algo infinito e insuperável, certo? Certo. Até que deixe de ser.
Morar com nossos pais é uma das coisas mais prazerosas da vida, até que deixe de ser. Tem comida na mesa todos os dias, sem que você precise se aproximar do fogão - na pior das hipóteses, você apela para o freezer e o microondas. As roupas estão sempre limpas, cheirosas, amaciadas. Há sempre o abraço consolador da sua mãe, as palavras duras e verdadeiras do seu pai. Mas um dia a gente acorda e percebe que não faz mais parte daquele lugar. Que aquela convivência faz mais mal do que bem. Que as pessoas não estão mais se entendendo, falando línguas diferentes.Você percebe que o ninho era o seu lugar, até que deixou de ser.
E as profissões que escolhemos para nós? A gente sempre entra em um emprego com vários planos. O que vamos fazer com o primeiro salário? Quem vamos ser dentro da empresa em alguns meses? Era o emprego que eu queria, meu Deus, obrigado! Você lutou tanto para estar lá, vestiu-se da melhor forma para a entrevista, abriu mão dos seus piercings e cobriu suas tatuagens com as mangas longas de uma camisa social, logo você que sempre gostou de camisetas largas e confortáveis. Nos primeiros meses, mil maravilhas. Até que algumas coisas minúsculas vão se unindo e transformando tudo em uma grande bola de neve, e você descobre que não quer mais aquele emprego, que não quer mais se vestir dessa forma, que quer furar de novo o piercing que já até fechou, que não está feliz trabalhando com aquelas pessoas, dentro daquela carga horária, vivendo para o trabalho. Era o emprego perfeito, até que deixou de ser.
Também deixaram de ser as duas faculdades em que tentei me aventurar. Deixaram de ser os livros que comecei a escrever, esse, sim, vai ser um best-seller. O cara por quem eu decidi que ia lutar com todas as minhas forças deixou de valer o esforço. As amizades que acreditei que seriam eternas deixaram de ser. Os livros que comprei acreditando que seriam superinteressantes e transformadores, estão encostados na estante até hoje: deixaram de ser logo nas primeiras páginas.
Muitas coisas na vida são assim: aquelas que eram muito importantes, essenciais e insubstituíveis, deixam de ser antes que a gente perceba. O importante é conseguir encarar esses momentos. Entender que é o ciclo das coisas, posto que são chamas, e que a vida é um verdadeiro fogo de palha. Tudo é infinito até que deixe de ser. Tudo vale a pena até que deixe de valer. E depende de cada um de nós ter forças para deixar de ser cego e encarar a realidade, quando precisamos deixar de ser.
Lembrei-me na hora do Soneto de Fidelidade de Vinícius de Moraes, que diz "Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure." Fala de amor, é claro. Dos romances que desejamos que sejam eternos. É o que todo mundo quer, afinal, quando algo é bom. Quando algo é tudo aquilo que procurávamos, tudo aquilo que queríamos. Até que deixe de ser.
Mas não é só ao amor e aos relacionamentos amorosos que isso se aplica. Que seja infinito até que deixe de ser faz sentido em vários outros departamento de nossas vidas. Nossos amigos, por exemplo, que são os melhores. São as pessoas que mais nos entendem no mundo, são a família que escolhemos para nós. Amizade é algo infinito e insuperável, certo? Certo. Até que deixe de ser.
Morar com nossos pais é uma das coisas mais prazerosas da vida, até que deixe de ser. Tem comida na mesa todos os dias, sem que você precise se aproximar do fogão - na pior das hipóteses, você apela para o freezer e o microondas. As roupas estão sempre limpas, cheirosas, amaciadas. Há sempre o abraço consolador da sua mãe, as palavras duras e verdadeiras do seu pai. Mas um dia a gente acorda e percebe que não faz mais parte daquele lugar. Que aquela convivência faz mais mal do que bem. Que as pessoas não estão mais se entendendo, falando línguas diferentes.Você percebe que o ninho era o seu lugar, até que deixou de ser.
E as profissões que escolhemos para nós? A gente sempre entra em um emprego com vários planos. O que vamos fazer com o primeiro salário? Quem vamos ser dentro da empresa em alguns meses? Era o emprego que eu queria, meu Deus, obrigado! Você lutou tanto para estar lá, vestiu-se da melhor forma para a entrevista, abriu mão dos seus piercings e cobriu suas tatuagens com as mangas longas de uma camisa social, logo você que sempre gostou de camisetas largas e confortáveis. Nos primeiros meses, mil maravilhas. Até que algumas coisas minúsculas vão se unindo e transformando tudo em uma grande bola de neve, e você descobre que não quer mais aquele emprego, que não quer mais se vestir dessa forma, que quer furar de novo o piercing que já até fechou, que não está feliz trabalhando com aquelas pessoas, dentro daquela carga horária, vivendo para o trabalho. Era o emprego perfeito, até que deixou de ser.
Também deixaram de ser as duas faculdades em que tentei me aventurar. Deixaram de ser os livros que comecei a escrever, esse, sim, vai ser um best-seller. O cara por quem eu decidi que ia lutar com todas as minhas forças deixou de valer o esforço. As amizades que acreditei que seriam eternas deixaram de ser. Os livros que comprei acreditando que seriam superinteressantes e transformadores, estão encostados na estante até hoje: deixaram de ser logo nas primeiras páginas.
Muitas coisas na vida são assim: aquelas que eram muito importantes, essenciais e insubstituíveis, deixam de ser antes que a gente perceba. O importante é conseguir encarar esses momentos. Entender que é o ciclo das coisas, posto que são chamas, e que a vida é um verdadeiro fogo de palha. Tudo é infinito até que deixe de ser. Tudo vale a pena até que deixe de valer. E depende de cada um de nós ter forças para deixar de ser cego e encarar a realidade, quando precisamos deixar de ser.
sábado, 12 de outubro de 2013
À deriva
Assisti ontem ao eletrizante "Gravidade", filme estrelado por Sandra Bullock que entrou em cartaz essa semana no Brasil. A atriz vive uma jovem engenheira da NASA, Ryan Stone, em sua primeira missão espacial, com o objetivo de consertar o telescópio Hubble. Devido a uma repentina chuva de destroços de um satélite antigo, Ryan é desprendida da nave em que trabalhava e fica à deriva no espaço. Um de seus colegas, Matt (interpretado por George Clooney), a resgata, prendendo-a ao seu jetpack com um cordão.
Sem controle nenhum de seus movimentos, ela é guiada apenas por Matt, que a transporta até a Estação Espacial Internacional, onde poderá conseguir ajuda. Percebendo que não conseguirá salvar ambos, Matt decide desprendê-la de si. "É isso, ou morreremos os dois", ele argumenta, quando Ryan já está praticamente sem oxigênio e suplica ao colega que não a solte. Mas ele o faz, e o filme começa de verdade.
Por mais assustador que pareça estar flutuando sozinha no espaço, antes disso, a personagem apenas segue os movimentos do amigo. Enquanto seu oxigênio se esgota juntamente com suas chances de permanecer consciente para lutar, ela nada pode fazer por si mesma. É só quando ela está sozinha e livre que a verdadeira luta pela sobrevivência começa.
É assim no espaço, e é assim na Terra, também. Estamos todos procurando sobreviver, à deriva em plena gravidade, esbarrando uns nos outros e nos destroços que a vida lança contra nós. E não adianta gritar, ninguém está ouvindo, ninguém aparecerá para te salvar. Tudo o que você tem que fazer é soltar.
No espaço ou na Terra, às vezes é preciso desapegar-se e deixar ir para poder fazer algo por si mesmo. Abrir mão de cordões e laços que nos prendem a situações em que não podemos fazer absolutamente nada, a não ser esperar pelas decisões de outras pessoas. Desistir de ficar apenas assistindo enquanto suas chances se esgotam, e lutar ativamente, antes que seu oxigênio e suas forças acabem. "Você precisa aprender a abrir mão, Ryan", diz Matt. Todos nós precisamos.
Às vezes, é a única chance de sobreviver. A única solução é a mais assustadora: estar sozinho. Lutar por si mesmo sem a ajuda de ninguém. Agarrar-se a tudo que pareça seguro quando se está à deriva. Deixar ir e começar a procurar esperança e salvação onde parece não haver nenhuma.
Sem controle nenhum de seus movimentos, ela é guiada apenas por Matt, que a transporta até a Estação Espacial Internacional, onde poderá conseguir ajuda. Percebendo que não conseguirá salvar ambos, Matt decide desprendê-la de si. "É isso, ou morreremos os dois", ele argumenta, quando Ryan já está praticamente sem oxigênio e suplica ao colega que não a solte. Mas ele o faz, e o filme começa de verdade.
Por mais assustador que pareça estar flutuando sozinha no espaço, antes disso, a personagem apenas segue os movimentos do amigo. Enquanto seu oxigênio se esgota juntamente com suas chances de permanecer consciente para lutar, ela nada pode fazer por si mesma. É só quando ela está sozinha e livre que a verdadeira luta pela sobrevivência começa.
É assim no espaço, e é assim na Terra, também. Estamos todos procurando sobreviver, à deriva em plena gravidade, esbarrando uns nos outros e nos destroços que a vida lança contra nós. E não adianta gritar, ninguém está ouvindo, ninguém aparecerá para te salvar. Tudo o que você tem que fazer é soltar.
No espaço ou na Terra, às vezes é preciso desapegar-se e deixar ir para poder fazer algo por si mesmo. Abrir mão de cordões e laços que nos prendem a situações em que não podemos fazer absolutamente nada, a não ser esperar pelas decisões de outras pessoas. Desistir de ficar apenas assistindo enquanto suas chances se esgotam, e lutar ativamente, antes que seu oxigênio e suas forças acabem. "Você precisa aprender a abrir mão, Ryan", diz Matt. Todos nós precisamos.
Às vezes, é a única chance de sobreviver. A única solução é a mais assustadora: estar sozinho. Lutar por si mesmo sem a ajuda de ninguém. Agarrar-se a tudo que pareça seguro quando se está à deriva. Deixar ir e começar a procurar esperança e salvação onde parece não haver nenhuma.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Montanha-russa
Foram duas horas e meia de fila da Montezum, a montanha-russa do Hopi Hari. Duas horas e meia de uma espera massacrante, não pelo sol sobre mim, nem pela fila em si, mas pelo medo. Durante esse tempo, milhares de coisas passaram pela minha cabeça. E se eu cair? Será que as travas de segurança são mesmo seguras? Espera aí, elas travam apenas as pernas? E o resto do corpo? De novo, e se eu cair? Meu lábio inferior tremia, assim como minhas mãos e o resto do meu corpo. Mal conseguia me concentrar nos assuntos que meus amigos começavam. Eu comentava, ria, mas meus olhos e minha mente estavam nos carrinhos verdes da montanha-russa e em suas travas de segurança.
Mesmo assim, eu fui. Parte porque sabia que iria me arrepender se não fosse, depois de cinco horas de viagem, depois de duas horas e meia de fila. Ir ao Hopi Hari e não andar na Montezum não é ir ao Hopi Hari. Parte porque havia uma certa pressão sobre mim por parte dos meus amigos: você vai, sim, senhor. Quando vi, já estava sentado no carrinho, com o cinto atado e a trava de segurança nas pernas. O carrinho começou a andar. É agora! Não tem mais volta.
Apesar de ter sido a primeira vez que andei naquela montanha-russa, a sensação era familiar. O medo, a hesitação, a expectativa. Passamos por isso durante toda a vida. Criamos um milhão de fantasmas e acidentes imaginários dentro de nós antes de um evento grandioso e, quanto maior é a espera, maiores ficam os fantasmas e os medos. Já passou por isso quem andou de montanha-russa, mas também quem teve que falar para um público gigantesco, quem já se jogou em um relacionamento duvidoso, quem já ficou horas e dias esperando por qualquer coisa aparentemente perigosa e ameaçadora. Quantas vezes você já se perguntou "E se eu cair de cara no chão?", "E se não for seguro?", "Quais as chances de dar tudo errado?". Eu, muitas.
A Montezum tem, logo no início de seu trajeto, a maior tensão do brinquedo inteiro: uma subida enorme, infinita e lenta, muito lenta. O carrinho inclina-se e começa a subir; você olha para os lados, o parque vai ficando cada vez mais visível. A expectativa vai aumentando até que o trenzinho atinge o ponto máximo do arco. Lá de cima, dá para ver tudo. É agora, você pensa. Já era. De repente, ele despenca do outro lado do arco, desenfreadamente, uma queda-livre a 100 quilômetros por hora.
Depois que o trem começa a cair, você percebe várias coisas. Primeiro, as travas são seguras, sim. Segundo, você não vai cair. Terceiro, a sensação é incrível! Depois da expectativa e do medo, eu não conseguia parar de gritar e rir ao mesmo tempo.
Ter medo é natural. Fomos feitos para isso e estamos aqui em razão disso. O medo nos alerta dos perigos e nos faz pensar bem antes de agir. No entanto, não sabemos controlá-lo e só usá-lo quando realmente está a nosso favor. A descarga de adrenalina nos impede de pensar que, talvez, deixar de fazer algo por causa do medo pode nos privar de momentos incríveis e oportunidades únicas.
Confie em seus instintos mas, de vez em quando, arrisque-se. Enfrentar o medo e se jogar nos nossos maiores desejos rende histórias interessantes, fotos hilárias e sensações indescritíveis. A alegria que vem depois das expectativas, da subida assustadora e do ápice do medo é insubstituível. Você percebe que seus medos eram apenas medos, frutos da nossa mania de acreditar em todas as coisas existentes no universo das coisas possíveis (e nem sempre prováveis), e curte a vista, que só nos é proporcionada quando nos arriscamos e enfrentamos nossos medos.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Rascunhos
Eu começo um texto e apago. Sempre foi assim e desconfio que sempre será. Uma pequena dezena de letras, três toques no teclado e a página está em branco de novo. Aí eu marco o papel digital com mais um pouco de tinta preta digital, para apagar alguns minutos depois. Quem tem alguma aspiração a escritor, ou qualquer pessoa que já tenha começado a digitar algo, sabe como é isso. Você olha para sua pseudo-obra-prima. Não é como você queria. Não fala o que você quer falar. Aí você apaga.
Gosto da praticidade disso e talvez fosse legal se a vida fosse assim. Não está dando certo? Control A, delete. Simples. Rápido. Em um instante, está tudo em branco. Dá pra começar de novo sem nenhum rastro do que não estava como você queria. Sem nenhuma letra fora do lugar. Backspace, corrige. Agora está perfeito.
Mas a vida é escrita no caderno, com um lápis intenso que marca várias folhas sob a que você está usando. Você desiste, acha que está ficando péssimo e passa uma borracha. Mancha tudo. Decide começar tudo de novo na próxima página (porque na vida não dá pra pular mais do que isso de uma só vez). Mas a próxima página está toda marcada, porque você estava escrevendo com paixão, com coragem, com esperança - dessa vez, vai ficar perfeito. Não fica. Você vira a folha, e lá está uma nítida marca d'água do rascunho anterior, daquele que não deu certo, daquele que você só queria poder deixar para trás e começar de novo em uma folha limpa. Uma marca afundada no papel, na pele, no coração, na memória. De vez em quando seu cérebro decide passar o ladinho do lápis nesse baixo-relevo, bem de leve, e as letras ficam ainda mais nítidas, parece que acabaram de ser escritas, num negativo: o papel cinza-grafite de melancolia e nostalgia, as letras brancas, vivas, marcadas.
Tudo bem, você diz, esperançoso. Dá pra escrever. E começa a escrever por cima. E se ficar ótimo dessa vez, terá sido escrito em cima das marcas do rascunho imperfeito. Se não ficar, há sempre outra página. Com mais marcas ainda. Até que elas se misturem tanto e fiquem tão ilegíveis que não faz mais tão mal assim. Fica até bonito, se for ver. Um monte de histórias erradas e amarradas umas nas outras, criando uma textura peculiar ao papel, e outra certa, escrita por cima, para te lembrar que não há história boa que não possa ser escrita sobre uma ruim.
Pronto. Já dá pra ler. Já dá pra publicar.
Gosto da praticidade disso e talvez fosse legal se a vida fosse assim. Não está dando certo? Control A, delete. Simples. Rápido. Em um instante, está tudo em branco. Dá pra começar de novo sem nenhum rastro do que não estava como você queria. Sem nenhuma letra fora do lugar. Backspace, corrige. Agora está perfeito.
Mas a vida é escrita no caderno, com um lápis intenso que marca várias folhas sob a que você está usando. Você desiste, acha que está ficando péssimo e passa uma borracha. Mancha tudo. Decide começar tudo de novo na próxima página (porque na vida não dá pra pular mais do que isso de uma só vez). Mas a próxima página está toda marcada, porque você estava escrevendo com paixão, com coragem, com esperança - dessa vez, vai ficar perfeito. Não fica. Você vira a folha, e lá está uma nítida marca d'água do rascunho anterior, daquele que não deu certo, daquele que você só queria poder deixar para trás e começar de novo em uma folha limpa. Uma marca afundada no papel, na pele, no coração, na memória. De vez em quando seu cérebro decide passar o ladinho do lápis nesse baixo-relevo, bem de leve, e as letras ficam ainda mais nítidas, parece que acabaram de ser escritas, num negativo: o papel cinza-grafite de melancolia e nostalgia, as letras brancas, vivas, marcadas.
Tudo bem, você diz, esperançoso. Dá pra escrever. E começa a escrever por cima. E se ficar ótimo dessa vez, terá sido escrito em cima das marcas do rascunho imperfeito. Se não ficar, há sempre outra página. Com mais marcas ainda. Até que elas se misturem tanto e fiquem tão ilegíveis que não faz mais tão mal assim. Fica até bonito, se for ver. Um monte de histórias erradas e amarradas umas nas outras, criando uma textura peculiar ao papel, e outra certa, escrita por cima, para te lembrar que não há história boa que não possa ser escrita sobre uma ruim.
Pronto. Já dá pra ler. Já dá pra publicar.
sábado, 28 de setembro de 2013
You blow my mind
O que caracteriza uma explosão? Segundo a Wikipedia, explosão é um processo em que ocorre um súbito aumento de volume e uma grande liberação de energia. A pressão aumenta de repente e tudo vai aos ares. Quando um corpo se torna pequeno demais para seu conteúdo, quando o que está armazenado decide aumentar consideravelmente, de forma que mal consegue se mover dentro do corpo e ao mesmo tempo é exatamente o que deseja fazer, mexer-se com muita rapidez, ele explode.
O corpo humano é um sistema pressurizado. Quando essa pressão aumenta subitamente e o volume de tudo que estamos armazenando durante muito tempo cresce, nós explodimos. Toda a sanidade que estávamos tentando cultivar cai por terra e é como se nossos impulsos mais ferozes tomassem o controle: bum! Em um segundo, o que antes parecia um cenário de paz e sensatez se transforma em um belo desastre.
Não dá para saber exatamente em que momento uma explosão vai acontecer, e muito menos o que vai causá-la. Pode ser qualquer coisa, qualquer faísca minúscula que coloca tudo aos ares. Uma briga com a família, com o namorado, com o chefe. Uma palavra em ordem desfavorável ao seu sentido. Uma mensagem com o que você não queria ler. Um congestionamento, uma chamada à cobrar, uma discussão com um vizinho. Uma nota baixa, um saldo bancário, uma notícia ruim. Um copo de vodka com suco. O que importa é que, quando uma explosão acontece, nada está seguro; por menor que tenha sido sua causa, os danos são enormes de qualquer jeito.
Quando algo - ou alguém - explode, tudo ao redor acaba indo junto, se ferindo, quebrando. Talvez, por isso, seja mais sensato ler as placas de advertência. "Perigo! Pode explodir a qualquer momento!" ou "Apenas me deixe em paz." Porque independente de palavras amigas ou água fria, uma coisa é certa: toda explosão causa danos. Rompe cordas e fibras. Faz qualquer coisa estável se tornar frágil.
Mas, contrariando qualquer lógica, explodir talvez seja a única forma de continuar inteiro. De expulsar o volume excedente e continuar respirando.
O bom das explosões é poder olhar em volta depois. Poder procurar nos escombros e ver o que, mesmo após o impacto, foi sólido o bastante para permanecer de pé. O que, mesmo com toda a destruição e os danos causados, foi forte o bastante para continuar vivo.
O corpo humano é um sistema pressurizado. Quando essa pressão aumenta subitamente e o volume de tudo que estamos armazenando durante muito tempo cresce, nós explodimos. Toda a sanidade que estávamos tentando cultivar cai por terra e é como se nossos impulsos mais ferozes tomassem o controle: bum! Em um segundo, o que antes parecia um cenário de paz e sensatez se transforma em um belo desastre.
Não dá para saber exatamente em que momento uma explosão vai acontecer, e muito menos o que vai causá-la. Pode ser qualquer coisa, qualquer faísca minúscula que coloca tudo aos ares. Uma briga com a família, com o namorado, com o chefe. Uma palavra em ordem desfavorável ao seu sentido. Uma mensagem com o que você não queria ler. Um congestionamento, uma chamada à cobrar, uma discussão com um vizinho. Uma nota baixa, um saldo bancário, uma notícia ruim. Um copo de vodka com suco. O que importa é que, quando uma explosão acontece, nada está seguro; por menor que tenha sido sua causa, os danos são enormes de qualquer jeito.
Quando algo - ou alguém - explode, tudo ao redor acaba indo junto, se ferindo, quebrando. Talvez, por isso, seja mais sensato ler as placas de advertência. "Perigo! Pode explodir a qualquer momento!" ou "Apenas me deixe em paz." Porque independente de palavras amigas ou água fria, uma coisa é certa: toda explosão causa danos. Rompe cordas e fibras. Faz qualquer coisa estável se tornar frágil.
Mas, contrariando qualquer lógica, explodir talvez seja a única forma de continuar inteiro. De expulsar o volume excedente e continuar respirando.
O bom das explosões é poder olhar em volta depois. Poder procurar nos escombros e ver o que, mesmo após o impacto, foi sólido o bastante para permanecer de pé. O que, mesmo com toda a destruição e os danos causados, foi forte o bastante para continuar vivo.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
It's time!
Já mencionei que existem pássaros que migram todos os anos e que eles simplesmente sabem a hora de abrir asas e se aventurar rumo ao que precisam encontrar? É um fenômeno interessante. Ainda não se sabe ao certo que tipo de sinal eles conseguem sentir, mas em um minuto eles estão em um lugar e, no outro, algo os diz que é hora de partir. Nada pode deter esse instinto, apesar de muitos se perderem na rota. Quando a hora chega, esses pássaros voam. Ao mesmo tempo e em direção a um mesmo lugar.
Um instante tão pequeno quanto um pensamento é o catalizador de grandes mudanças. Pense em todas as grandes transformações da sua vida: elas começaram vagarosamente, mas chegou um momento em que algo simplesmente explodiu dentro de você, acelerando bruscamente o processo. Geralmente esse catalizador é a dor. Algo dentro de nós que indica que precisamos mudar, porque ficar muito tempo em uma mesma posição cansa, causa dores, faz com que os membros formiguem até adormecerem completamente. Ficar parado adormece a vida. Dores do crescimento, já ouviu essa expressão? É quando os ossos estão ficando maiores do que o corpo estava acostumado. Crescer dói. Mudar dói. Tudo que estava inerte e precisou se movimentar repentinamente causa dor.
E então você sente que algo precisa ser transformado. Não importa como, nem o quê - você simplesmente sente os sinais, como os pássaros. Algum tipo de magnetismo vital se choca com sua zona de conforto e promove um caos, uma fome, uma necessidade. É hora de voar por alimento e calor. Para a alma. Tudo que a gente precisa, às vezes, é de algo que encha nossos olhos e nos surpreenda. De um caos que nos deixe cegos de medo a ponto de querermos apostar tudo para voltar a enxergar e ver uma paisagem diferente. Depois da tempestade, vem a calmaria, é o que dizem. Para, depois, vir outra tempestade.
Talvez, assim como os pássaros, seja difícil dizer em que ponto exato essas transformações aparentemente silenciosas começam. Por que você está em um lugar confortável e, de repente, não é mais o bastante? Por que o paraíso se transforma em um inferno rarefeito em um piscar de olhos? Por que sentimos essa necessidade vital de quebrar ciclos? Por que, de repente, parece que seu próprio corpo é pequeno demais para sua alma? Você não sabe dizer ao certo, não é?
Há momentos na vida em que você simplesmente sabe que é hora de voar, de mudar alguma coisa, de promover transformações fora e dentro de você. E então, como acontece com os pássaros, nada pode te parar. Você simplesmente abre suas asas... e voa.
Um instante tão pequeno quanto um pensamento é o catalizador de grandes mudanças. Pense em todas as grandes transformações da sua vida: elas começaram vagarosamente, mas chegou um momento em que algo simplesmente explodiu dentro de você, acelerando bruscamente o processo. Geralmente esse catalizador é a dor. Algo dentro de nós que indica que precisamos mudar, porque ficar muito tempo em uma mesma posição cansa, causa dores, faz com que os membros formiguem até adormecerem completamente. Ficar parado adormece a vida. Dores do crescimento, já ouviu essa expressão? É quando os ossos estão ficando maiores do que o corpo estava acostumado. Crescer dói. Mudar dói. Tudo que estava inerte e precisou se movimentar repentinamente causa dor.
E então você sente que algo precisa ser transformado. Não importa como, nem o quê - você simplesmente sente os sinais, como os pássaros. Algum tipo de magnetismo vital se choca com sua zona de conforto e promove um caos, uma fome, uma necessidade. É hora de voar por alimento e calor. Para a alma. Tudo que a gente precisa, às vezes, é de algo que encha nossos olhos e nos surpreenda. De um caos que nos deixe cegos de medo a ponto de querermos apostar tudo para voltar a enxergar e ver uma paisagem diferente. Depois da tempestade, vem a calmaria, é o que dizem. Para, depois, vir outra tempestade.
Talvez, assim como os pássaros, seja difícil dizer em que ponto exato essas transformações aparentemente silenciosas começam. Por que você está em um lugar confortável e, de repente, não é mais o bastante? Por que o paraíso se transforma em um inferno rarefeito em um piscar de olhos? Por que sentimos essa necessidade vital de quebrar ciclos? Por que, de repente, parece que seu próprio corpo é pequeno demais para sua alma? Você não sabe dizer ao certo, não é?
Há momentos na vida em que você simplesmente sabe que é hora de voar, de mudar alguma coisa, de promover transformações fora e dentro de você. E então, como acontece com os pássaros, nada pode te parar. Você simplesmente abre suas asas... e voa.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Minta pra mim
Diga a verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade. É o que imploramos o tempo todo. Não suportamos o fato de não saber o que está por trás das coisas mais importantes, e quando estamos mergulhados em dúvidas e medos, ela parece ser a salvação, a lufada de ar que nossos pulmões precisam.
O problema com a verdade é que ela nunca é o que você gostaria de ouvir. Ela derruba todas as suas expectativas e sai do roteiro que você havia planejado para a sua vida. Assim, de vez em quando, por mais que imploremos pela verdade como se ela fosse salvar nossas vidas, ela é a última coisa que queremos saber. Talvez porque queremos mais cinco minutinhos do doce sono da mentira que inventamos para nós mesmos. Talvez porque, quanto mais tarde soubermos da verdade, mais tempo teremos para nos preparar para ela.
Mas não se pode contar com os muros que erguemos para nos proteger, nem com os mapas de emergência que traçamos para fugir dela. A realidade tem uma forma peculiar de se apresentar à prova de qualquer preparação. Quando você menos espera, ela está à sua frente, como um balde de água fria te acordando sem piedade: amores acabam do nada, pessoas morrem em um piscar de olhos, amigos nos decepcionam. E quanto mais tempo demorarmos para aceitar isso, mais difícil será quando formos obrigados a encarar.
Por mais que tentemos fingir que não vemos, ela está lá, o tempo todo. No fundo do seu subconsciente, nos sinais que captamos sem perceber. Ninguém pode esconder a verdade por muito tempo, nem das outras pessoas e tampouco de si mesmo. Com o tempo, ela se torna aquele ferimento que você optou por não tratar e que cresceu e inflamou; aquele sintoma que você ignorou e que piorou, e que nenhum remédio consegue amenizar mais. No final do dia, ela te cutuca, e você pode até tentar ignorar, mas nada é maior do que aquela voz dentro da sua cabeça que te diz de novo e de novo o que você precisa saber. O que você quer ouvir. Mas que você prefere evitar. E então você reza para que, da próxima vez, você saiba mentir melhor para você mesmo porque, por pior que seja uma realidade inventada, ela é mil vezes melhor do que a verdade.
O problema com a verdade é que ela nunca é o que você gostaria de ouvir. Ela derruba todas as suas expectativas e sai do roteiro que você havia planejado para a sua vida. Assim, de vez em quando, por mais que imploremos pela verdade como se ela fosse salvar nossas vidas, ela é a última coisa que queremos saber. Talvez porque queremos mais cinco minutinhos do doce sono da mentira que inventamos para nós mesmos. Talvez porque, quanto mais tarde soubermos da verdade, mais tempo teremos para nos preparar para ela.
Mas não se pode contar com os muros que erguemos para nos proteger, nem com os mapas de emergência que traçamos para fugir dela. A realidade tem uma forma peculiar de se apresentar à prova de qualquer preparação. Quando você menos espera, ela está à sua frente, como um balde de água fria te acordando sem piedade: amores acabam do nada, pessoas morrem em um piscar de olhos, amigos nos decepcionam. E quanto mais tempo demorarmos para aceitar isso, mais difícil será quando formos obrigados a encarar.
Por mais que tentemos fingir que não vemos, ela está lá, o tempo todo. No fundo do seu subconsciente, nos sinais que captamos sem perceber. Ninguém pode esconder a verdade por muito tempo, nem das outras pessoas e tampouco de si mesmo. Com o tempo, ela se torna aquele ferimento que você optou por não tratar e que cresceu e inflamou; aquele sintoma que você ignorou e que piorou, e que nenhum remédio consegue amenizar mais. No final do dia, ela te cutuca, e você pode até tentar ignorar, mas nada é maior do que aquela voz dentro da sua cabeça que te diz de novo e de novo o que você precisa saber. O que você quer ouvir. Mas que você prefere evitar. E então você reza para que, da próxima vez, você saiba mentir melhor para você mesmo porque, por pior que seja uma realidade inventada, ela é mil vezes melhor do que a verdade.
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