terça-feira, 29 de maio de 2012
Escrevi e mandei
Sabe aquela história do "escrevi mas não mandei"? Aquela mensagem que fica gritando no fundo do seu cérebro enquanto você tenta fazer outras coisas mais úteis e você a digita para se livrar dela, mas não manda de fato, para evitar o turbilhão de consequências que ela pode desencadear? Bom, digamos que eu mandei.
Não vou dizer que mandei aquela mensagem despretensiosamente, só por mandar. A gente não faz uma coisa dessas, não se desafia assim, não injeta mais adrenalina no sangue do que acha que pode produzir, não se joga de cabeça na água gelada, se a gente não achar que vai valer a pena, que a gente vai ter uma resposta positiva e que tudo ficará bem. Existe esse sentimento estúpido e delicioso, como uma rebeldia da alma: a esperança. Esse buraco microscópico no muro que deixa uma frestinha de luz entrar. A esperança é esse pequeno empurrãozinho... esse MALDITO empurrãozinho que faz você rolar ladeira abaixo e se quebrar todo.
A mensagem era simples, no geral. Nada meloso demais, nada depressivo demais. "Me liga se quiser sair pra conversar um dia, não quero mais essa mágoa entre a gente, sinto falta da sua amizade mas não vou mais te procurar porque não quero ser insistente, então tá na sua mão." Mais ou menos isso.
A gente tenta, eu sei, todo mundo já passou por isso. Todo mundo já se sentiu a ponto de explodir se não fizesse algo, se não saísse da inércia por alguns minutos, do "deixa rolar", do "se for pra ser, será". Nada pode ser mais irritante do que isso, esperar que a vida, o Universo, Deus, Santo Antônio, a mãe Tereza ou, quem quer que seja, resolva sua vida, como se você não fosse o autor dela, o protagonista e diretor da sua própria existência. De vez em quando eu pego meu violão, desafinado mesmo, e começo a tocar acordes aleatórios só pra sentir que eu estou tirando música de algo, fazendo o ar vibrar e produzir algum som diferente do silêncio de costume, só pra ter certeza de que de vez em quando dá pra romper um ciclo de mesmice, nem que seja com um violão desafinado. De vez em quando eu pego meu celular e mando mensagens para ele, pra tentar quebrar essa parede imensa que ficou entre a gente por tão pouco, por coisas que foram ditas e feitas no momento do mais puro sofrimento e raiva.
Mandei essa mensagem e minha cabeça deu várias voltas. Toda vez que o celular vibra eu dou um pulo, saio do corpo, entro em alfa, meu coração pula uma batida, tudo isso na fração de segundos que antecede o ato triste de pegar o celular e ver que não foi ele. Nunca é ele. É sempre uma tela sensível ao toque - a mais insensível de todas - mostrando o horário pra me fazer lembrar que talvez seja tarde pra tentar algo que não deu certo nem quando tinha que dar, e o nível da bateria - um lembrete cruel de que minha paciência também está se esgotando.
Como eu queria poder mudar certas coisas, entender por que é que ele tem tanta resistência em falar comigo, mesmo eu não tendo feito nada demais, mesmo depois de tudo que a gente teve, e eu não tô falando de amor não, porque eu sei que amor acaba e deixa um rastro de sujeira pra trás, como um tsunami que chega de repente, assusta todo mundo, entra na vida das pessoas tirando tudo do lugar e depois vai embora, deixando dor e desordem por onde passa. Eu me refiro à amizade que a gente teve, mesmo. Àquela vez em que eu abracei ele no carro e chorei no ombro dele, com a cara enterrada na camiseta rosa com cheirinho de limpa, por um motivo que era só meu. Às nossas risadas e cumplicidade. À tanta coisa que ainda parece viva e nítida pra mim, mas que pelo jeito não tiveram tanto valor assim pra ele. Como eu queria poder entender isso: pra onde vão todas essas memórias e todos esses sentimentos? Como é possível alguém esquecer tudo isso, vomitar tudo, fingir tão bem que nunca aconteceu que de fato deixa de existir no tempo? Como pode algo continuar tão vivo dentro de mim, como uma estrela que não tem a menor intenção de explodir, enquanto pra ele ficou tudo em um universo paralelo que implodiu e se transformou em uma rocha cinza, fria, do tamanho de um grão de areia?
Até agora eu não obtive nenhuma resposta. Nem dessas perguntas, nem da mensagem que eu mandei. Mas a mensagem que eu gostaria de deixar no final deste texto não é pessimista. O que eu realmente gostaria de dizer pra todo mundo que está lendo isso aqui, e que escreve mas não manda, é: mande! Arrisque até sua última ficha. Se tem algo gritando no fundo do seu cérebro, significa que precisa ser dito ou feito o quanto antes.
Às vezes a resposta não é a esperada. Às vezes sequer existe uma resposta. E dói - o silêncio, a tela com o horário e o nível da bateria, o desprezo. A indiferença. É como um daqueles sonhos em que você quer correr e gritar mas não consegue sair do lugar, por mais que mova suas pernas, e nem emitir sons, mesmo que seus pulmões estejam quase explodindo por tentar gritar. A indiferença sufoca, desespera, "claustrofoba", dói. Dói.
Mas, se você não fizer nada, algum dia vai descobrir que ficar parado e não saber como teria sido se... (e esse "se..." deixa muita gente louca), dói mais ainda.
sábado, 26 de maio de 2012
Borboletas Mortas
Quando você foi, daquela maneira tão triste e violenta, ficou um vazio. Eu tive que te arrancar de dentro de mim com tanta força, que um pedaço meu foi junto. Eu virei pedra.
Eu aprendi a guardar certas coisas dentro de mim, bem lá no fundo, onde ninguém consegue ver ou tocar, a jogar no lado seguro da vida, a ser feliz com o que eu tenho hoje e não com memórias velhas de coisas que nem aconteceram, coisas que eu criei em minha mente um dia para fingir que tudo estava bem. Eu me tornei maior, mais forte e mais sóbrio. Às vezes um pouco mais sério e frio do que eu gostaria, mas são só os efeitos colaterais de se enterrar dentro de si mesmo.
Só que, de vez em quando, você aparece nos meus sonhos, os transforma em pesadelos, e eu não posso dizer com certeza mas acho que eu paro de respirar por alguns segundos na minha cama, porque eu sempre acordo com essa pressão enorme no peito e essa sensação de afogamento. É possível se afogar dentro da gente? Eu te enterrei na parte mais escura da minha memória, no inconsciente, no outra-vida-outro-lugar, mas de vez em quando você teima em aparecer, em mostrar teu rosto - todos esses traços incoerentes e exóticos e lindos - que eu tenho lutado tanto pra esquecer. Mas esses sonhos nunca são bons, eles duram uma eternidade, um filme inteiro, um romance ruim de mil páginas, têm começo-meio-e-fim, e geralmente acabam com você me traindo e eu volto a experimentar aquela sensação horrível de ter alguém esmagando seu coração com os dedos.
Por sua causa, eu aprendi a boicotar meus sentimentos. Aprendi a me distanciar de tudo aquilo que pode me tocar mais profundamente do que na pele. A evitar mudanças súbitas de temperatura interna. Matei todas as borboletas no meu estômago. Aprendi a fechar os olhos quando descubro que o rosto de alguém consegue provocar mudanças climáticas tão grandes dentro de mim que preocupariam o Greenpeace.
Eu só não aprendi, até hoje, a lidar com toda essa bagunça que você deixou dentro e fora de mim.
Mas em toda a história, é nossa obrigação
Saber seguir em frente, seja lá qual direção.
Eu sei.
(Assinado Eu - Tiê)
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Poeira
Eram duas horas da tarde de um dia útil quando o telefone vibrou sobre a mesinha, tocando aquela música de que tanto gosto, e eu não prestei muita atenção no número de algum telefone fixo que o visor exibia, antes de atender.
A voz entrou e fez várias curvas no meu cérebro, tentando encontrar um nome, um rosto, algo que me fizesse saber de quem vinha aquele alô, tão familiar e tão estranho, como se viesse de outra vida, de outro planeta, em outra galáxia, em algum universo paralelo e impossível.

O tempo é uma coisa engraçada. Nada nem ninguém pode pará-lo, a gente tem que aceitar isso, e de repente uma voz consegue parar seu tempo em uma fração de segundos tão grande que você mal consegue respirar. A poeira dançando na luz que entra pela janela congela, e você se pergunta se o resto do mundo também sentiu essa freada brusca, esse tranco, essa sensação de ter caído em um completo vácuo e tentar gritar mas saber que sua voz não vai se propagar no nada por mais que você tente emitir algum som, algum pedido de socorro, algum pedido de perdão.
Tudo por uma simples voz, vinda de algum lugar do tempo em que você não pode mais estar, nunca mais poderá, porque é assim que as coisas são, a gente deixa muita coisa pra trás e depois fica se perguntando em qual ponto exato desta linha de tempo a gente deixou tudo cair das nossas mãos, tão fracas, tão brancas, tão cansadas de tentar se segurar a uma linha fina e cortante.
Que força é essa capaz de tirar a gente da gente, de fazer a mente morrer e nascer em tão pouco tempo, que força é essa que muda o magnetismo dos nossos polos, faz a gente perder o Norte, faz o chão estremecer e abrir-se em um buraco negro que suga a gente para tão longe e depois cospe a gente com tanta violência para o agora, para a realidade, para as duas horas da tarde de um dia útil de maio, que força é essa que abre páginas e queima capítulos, que faz a gente querer ser minúsculo, do tamanho de um grão de poeira dançante que agora está parado, e que se transforma em um desejo de ser enorme, do tamanho do mundo, que agora está parado também... que força é essa?
Como um suspiro de quem suga a vida de volta pra dentro, com tanta ânsia, com tanta sede, o mundo voltou a girar, bem devagar como quem está acordando, retomando a consciência, aquela fração de segundo empoeirada e anestésica se desmancha e a poeira retoma seu curso em direção a quê, afinal? Tudo se reconstitui, era uma voz, era apenas uma voz, de um garoto, em uma galáxia empoeirada e distante.
As coisas que a gente mais quer mudar são exatamente aquelas que serão sempre as mesmas.
A voz entrou e fez várias curvas no meu cérebro, tentando encontrar um nome, um rosto, algo que me fizesse saber de quem vinha aquele alô, tão familiar e tão estranho, como se viesse de outra vida, de outro planeta, em outra galáxia, em algum universo paralelo e impossível.

O tempo é uma coisa engraçada. Nada nem ninguém pode pará-lo, a gente tem que aceitar isso, e de repente uma voz consegue parar seu tempo em uma fração de segundos tão grande que você mal consegue respirar. A poeira dançando na luz que entra pela janela congela, e você se pergunta se o resto do mundo também sentiu essa freada brusca, esse tranco, essa sensação de ter caído em um completo vácuo e tentar gritar mas saber que sua voz não vai se propagar no nada por mais que você tente emitir algum som, algum pedido de socorro, algum pedido de perdão.
Tudo por uma simples voz, vinda de algum lugar do tempo em que você não pode mais estar, nunca mais poderá, porque é assim que as coisas são, a gente deixa muita coisa pra trás e depois fica se perguntando em qual ponto exato desta linha de tempo a gente deixou tudo cair das nossas mãos, tão fracas, tão brancas, tão cansadas de tentar se segurar a uma linha fina e cortante.
Que força é essa capaz de tirar a gente da gente, de fazer a mente morrer e nascer em tão pouco tempo, que força é essa que muda o magnetismo dos nossos polos, faz a gente perder o Norte, faz o chão estremecer e abrir-se em um buraco negro que suga a gente para tão longe e depois cospe a gente com tanta violência para o agora, para a realidade, para as duas horas da tarde de um dia útil de maio, que força é essa que abre páginas e queima capítulos, que faz a gente querer ser minúsculo, do tamanho de um grão de poeira dançante que agora está parado, e que se transforma em um desejo de ser enorme, do tamanho do mundo, que agora está parado também... que força é essa?
Como um suspiro de quem suga a vida de volta pra dentro, com tanta ânsia, com tanta sede, o mundo voltou a girar, bem devagar como quem está acordando, retomando a consciência, aquela fração de segundo empoeirada e anestésica se desmancha e a poeira retoma seu curso em direção a quê, afinal? Tudo se reconstitui, era uma voz, era apenas uma voz, de um garoto, em uma galáxia empoeirada e distante.
As coisas que a gente mais quer mudar são exatamente aquelas que serão sempre as mesmas.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Debaixo da Pele
Quando você quer algo com tanta intensidade que dói e, de repente, você o perde. Quando você ama com tanta força que se cansa, e então se decepciona. Quando aquilo que você mais precisa é exatamente aquilo que te destrói aos poucos. Ninguém nos disse como lidar com isso. Mas a verdade é que estamos expostos a vários tipos de danos, o tempo todo, durante toda a vida. Podemos nos cortar ou nos queimar. Corremos o risco de perder nossos sentidos. Alguns de nós ficam loucos. Nossa mente tem uma conexão direta com nossa pele e ferir-se é consequência de estar vivo - nem mesmo o mais forte de nós está isento disso.
O problema é que quanto maior for uma ferida, quanto mais dor ela causar, maior a nossa vontade de escondê-la. Não queremos aceitar, então a escondemos, apesar da dor que mal nos deixa dormir à noite, apesar da energia que ela consome, fingimos que ela não existe. E ela dói, e sangra e uma hora a gente não consegue mais suportar. Por mais escondidos que estejam alguns cortes, mais cedo ou mais tarde será impossível disfarçar.
Passamos tempo demais negando uma ferida e enquanto isso ela inflama. Todos os nossos valores são esquecidos e a gente profere palavras pontiagudas, incendiamos lugares mentalmente, desejamos a morte, desejamos morrer. É o efeito colateral de toda ferida que não foi permitida curar-se: ardemos em febre e deliramos as vinganças mais diabólicas. Queremos ferir de volta, expor a nossa dor para o mundo inteiro ver e unir-se a nós contra quem nos feriu.
Demora para que a gente perceba que algumas feridas não irão se curar sozinhas, e que só dependem da gente. Escondê-las é adiar o inevitável: uma hora será necessário encará-las. Porque você pode fingir que elas não existem por quanto tempo achar necessário, negá-las para si mesmo e para o resto do mundo. Mas quando você pensar que elas se curaram e que são apenas cicatrizes, descobrirá que ainda estão ali.
O problema é que quanto maior for uma ferida, quanto mais dor ela causar, maior a nossa vontade de escondê-la. Não queremos aceitar, então a escondemos, apesar da dor que mal nos deixa dormir à noite, apesar da energia que ela consome, fingimos que ela não existe. E ela dói, e sangra e uma hora a gente não consegue mais suportar. Por mais escondidos que estejam alguns cortes, mais cedo ou mais tarde será impossível disfarçar.
Passamos tempo demais negando uma ferida e enquanto isso ela inflama. Todos os nossos valores são esquecidos e a gente profere palavras pontiagudas, incendiamos lugares mentalmente, desejamos a morte, desejamos morrer. É o efeito colateral de toda ferida que não foi permitida curar-se: ardemos em febre e deliramos as vinganças mais diabólicas. Queremos ferir de volta, expor a nossa dor para o mundo inteiro ver e unir-se a nós contra quem nos feriu.
Demora para que a gente perceba que algumas feridas não irão se curar sozinhas, e que só dependem da gente. Escondê-las é adiar o inevitável: uma hora será necessário encará-las. Porque você pode fingir que elas não existem por quanto tempo achar necessário, negá-las para si mesmo e para o resto do mundo. Mas quando você pensar que elas se curaram e que são apenas cicatrizes, descobrirá que ainda estão ali.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Amanhã você não fez
Tive uma professora em um curso que eu fiz que, ao se despedir, dizia "Sejam felizes por vinte e quatro horas." A reação das pessoas era sempre a mesma: riam e comentavam "Nossa, mas só por vinte e quatro horas? E amanhã?" E talvez esse seja exatamente o nosso problema: amanhã.
A gente entra em depressão no domingo porque amanhã é segunda-feira. Sofremos de insegurança em um relacionamento que está indo bem hoje, mas que amanhã pode acabar. Lemos o horóscopo do mês pra saber o que vai acontecer no futuro, compramos revistas pra saber o que vai acontecer na novela a semana inteira, nos preocupamos com a vida pós-morte. Mas e a pré-morte? E o domingo ensolarado que está fazendo hoje? E a mensagem inesperada que você recebeu nessa madrugada?
Temos o péssimo costume de querer viver no futuro, resolver coisas que nem aconteceram ainda, e no final das contas, a gente não vive hoje e nem o amanhã, porque quando ele chega, a gente já está preocupado com o depois de amanhã. A vida se transforma na cenoura pendurada na frente do cavalo, que a persegue eternamente, sem nunca conseguir saboreá-la de fato.
Não estamos satisfeitos em ser felizes hoje, queremos ser felizes para sempre. Queremos que o feriado não acabe nunca, que o amor verdadeiro dure até que a morte nos separe ou além. Pagamos mais caro por produtos com garantia estendida de vinte e cinco anos. Ignoramos que talvez as felicidades instantâneas sejam as mais sinceras e raras, que amores de curto prazo são capítulos bons das nossas vidas que doem ao ir embora, mas que nos tornam mais maduros, nos ensinam a dar valor nos momentos, porque realmente a gente nunca sabe quando (e se) eles vão acabar... mas a gente aprende que, depois que acabou, depois que um momento único e incrível se foi, não tem mais volta. A gente só pode viver eles no agora.
Acho que era mais ou menos isso que a professora Gláucia queria dizer. Ser feliz em vinte e quatro horas é mesmo um desafio. Mas a vida não espera, nem tem garantia estendida. É o único prazo garantido que a gente tem pra ser feliz.
A gente entra em depressão no domingo porque amanhã é segunda-feira. Sofremos de insegurança em um relacionamento que está indo bem hoje, mas que amanhã pode acabar. Lemos o horóscopo do mês pra saber o que vai acontecer no futuro, compramos revistas pra saber o que vai acontecer na novela a semana inteira, nos preocupamos com a vida pós-morte. Mas e a pré-morte? E o domingo ensolarado que está fazendo hoje? E a mensagem inesperada que você recebeu nessa madrugada?
Temos o péssimo costume de querer viver no futuro, resolver coisas que nem aconteceram ainda, e no final das contas, a gente não vive hoje e nem o amanhã, porque quando ele chega, a gente já está preocupado com o depois de amanhã. A vida se transforma na cenoura pendurada na frente do cavalo, que a persegue eternamente, sem nunca conseguir saboreá-la de fato.
Não estamos satisfeitos em ser felizes hoje, queremos ser felizes para sempre. Queremos que o feriado não acabe nunca, que o amor verdadeiro dure até que a morte nos separe ou além. Pagamos mais caro por produtos com garantia estendida de vinte e cinco anos. Ignoramos que talvez as felicidades instantâneas sejam as mais sinceras e raras, que amores de curto prazo são capítulos bons das nossas vidas que doem ao ir embora, mas que nos tornam mais maduros, nos ensinam a dar valor nos momentos, porque realmente a gente nunca sabe quando (e se) eles vão acabar... mas a gente aprende que, depois que acabou, depois que um momento único e incrível se foi, não tem mais volta. A gente só pode viver eles no agora.
Acho que era mais ou menos isso que a professora Gláucia queria dizer. Ser feliz em vinte e quatro horas é mesmo um desafio. Mas a vida não espera, nem tem garantia estendida. É o único prazo garantido que a gente tem pra ser feliz.
domingo, 4 de março de 2012
Eu quero inteiro
Não nascemos inteiros. Nascemos cheios de lacunas e adquirimos nossas peças que faltam conforme a vida passa. Mas quando estaremos completos? Talvez nunca.
Mesmo assim, nos entregamos em uma jornada de busca, procurando coisas que talvez nos completem. Pessoas, objetos, momentos. Um relacionamento sério. Uma boa posição em um vestibular. Um emprego bem remunerado. Uma casa com margaridas saudáveis na janela. Tudo isso dá uma sensação temporária de integração e a gente acha que conquistar essas coisas vai fazer com que nada mais falte. E então a gente chega mais perto, estica um dedo e toca isso que a gente pensa que é concreto, e tudo se desmancha. Porque não é real. Porque não é inteiro.
Este é o maior problema em querer estar completo -- a gente acaba aceitando o que nos é dado, acreditando ser algo completo. Mas então descobrimos que são apenas migalhas que não chegam nem perto de matar a fome, pedaços insossos e mornos do que a gente realmente busca, produtos perecíveis que, após abertos, devem ser consumidos em 8 dias. Grande erro, querer se completar com metades.
Tenho quase 20 anos e passei boa parte desse tempo me desperdiçando com pedaços, com pessoas incompletas que nunca justificaram suas passagens em minha vida, amores mornos e sonos leves. Perdi tempo tendo que aceitar poréns e entretantos. Me alimentei do mínimo, aceitei minutos, me contentei com promessas. Nada nunca foi inteiro, real ou palpável. Nada nunca teve nenhum efeito que passasse do comum, do sóbrio. Não é assim que eu escolho as coisas, daqui pra frente. Quero coisas inteiras, vivas, quentes. Quero sensações autênticas. Quero pessoas verdadeiras. Quero acordar pela manhã e saber que existe algo que me prende no chão além da gravidade. Quero um tempo que diga a que veio.
Talvez pareça radical, mas é assim que eu sou, oito ou oitenta, tudo ou nada. Não por querer me completar -- já passei por essa fase e entendi que só a gente pode se completar e que esperar que alguém te complete é como esperar que o mundo gire ao seu redor. Eu quero, na verdade, me complementar. Vou até ali e já volto me parece muito vago, eu quero é ir e ficar e descobrir e criar raízes e fazer dar frutos. E para isso, coisas pela metade não me bastam. Que seja inteiro, ou então melhor que não seja.
Mesmo assim, nos entregamos em uma jornada de busca, procurando coisas que talvez nos completem. Pessoas, objetos, momentos. Um relacionamento sério. Uma boa posição em um vestibular. Um emprego bem remunerado. Uma casa com margaridas saudáveis na janela. Tudo isso dá uma sensação temporária de integração e a gente acha que conquistar essas coisas vai fazer com que nada mais falte. E então a gente chega mais perto, estica um dedo e toca isso que a gente pensa que é concreto, e tudo se desmancha. Porque não é real. Porque não é inteiro.
Este é o maior problema em querer estar completo -- a gente acaba aceitando o que nos é dado, acreditando ser algo completo. Mas então descobrimos que são apenas migalhas que não chegam nem perto de matar a fome, pedaços insossos e mornos do que a gente realmente busca, produtos perecíveis que, após abertos, devem ser consumidos em 8 dias. Grande erro, querer se completar com metades.
Tenho quase 20 anos e passei boa parte desse tempo me desperdiçando com pedaços, com pessoas incompletas que nunca justificaram suas passagens em minha vida, amores mornos e sonos leves. Perdi tempo tendo que aceitar poréns e entretantos. Me alimentei do mínimo, aceitei minutos, me contentei com promessas. Nada nunca foi inteiro, real ou palpável. Nada nunca teve nenhum efeito que passasse do comum, do sóbrio. Não é assim que eu escolho as coisas, daqui pra frente. Quero coisas inteiras, vivas, quentes. Quero sensações autênticas. Quero pessoas verdadeiras. Quero acordar pela manhã e saber que existe algo que me prende no chão além da gravidade. Quero um tempo que diga a que veio.
Talvez pareça radical, mas é assim que eu sou, oito ou oitenta, tudo ou nada. Não por querer me completar -- já passei por essa fase e entendi que só a gente pode se completar e que esperar que alguém te complete é como esperar que o mundo gire ao seu redor. Eu quero, na verdade, me complementar. Vou até ali e já volto me parece muito vago, eu quero é ir e ficar e descobrir e criar raízes e fazer dar frutos. E para isso, coisas pela metade não me bastam. Que seja inteiro, ou então melhor que não seja.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
As brigas que perdi
Nos ensinaram a lutar por aquilo que queremos e a nunca desistir. Por mais que as coisas continuem difíceis, por mais que você esteja derrotado, lute. No final, terá valido a pena e você terá sua recompensa. Foi assim que conseguimos a maior parte do que temos e somos. Mesmo com os tombos, fomos obrigados a aprender a andar, e se algum dia tivéssemos desistido, nunca chegaríamos longe com nossas próprias pernas. Mas no meio desse processo começamos a confundir lutar com insistir.
Insistimos demais. Em tudo. Em relacionamentos que nunca vão dar certo, e a gente sabe disso, mas continua insistindo. Em confiar em pessoas que nos decepcionaram dezenas de vezes. Em ser legais com completos idiotas. Em perder tempo tentando consertar as coisas. Em ligar. Em procurar saber e se importar. Em tentar reatar laços que na verdade nunca passaram de nós mal dados.
Insistimos tanto em querer mudar as coisas que ignoramos o fato de que talvez elas não sejam mutáveis e a única saída é simplesmente desistir. E isso fere o nosso orgulho, a nossa honra. Nos disseram que isso é fraqueza, que os fortes lutam, os fortes persistem. Eu diria que os fortes sabem quando desistir.
É preciso encarar a verdade, mesmo quando ela não é exatamente como gostaríamos que fosse. Algumas lutas simplesmente não valem a pena. São lutas perdidas e insistir nelas é inútil. É necessário abandoná-las, arquivá-las, dar-se por vencido e procurar razões melhores para lutar.
No final das contas, o que tem que ficar, fica, assim como o que tem que ir, vai. Se não te faz bem, se não preenche espaços, se não acrescenta nada, se não te traz uma vibe positiva, é sinal de que tem que ir. Abra mão daquilo que nunca foi verdadeiro. Abra mão daquilo que não te serve mais, daquilo que nunca serviu pra muita coisa. Aquilo que não te faz bem, não vai te fazer falta.
Desistir de brigas impossíveis, desgastantes e invencíveis significa lutar por si mesmo. Esta é a única coisa da qual você nunca deve desistir.
Insistimos demais. Em tudo. Em relacionamentos que nunca vão dar certo, e a gente sabe disso, mas continua insistindo. Em confiar em pessoas que nos decepcionaram dezenas de vezes. Em ser legais com completos idiotas. Em perder tempo tentando consertar as coisas. Em ligar. Em procurar saber e se importar. Em tentar reatar laços que na verdade nunca passaram de nós mal dados.
Insistimos tanto em querer mudar as coisas que ignoramos o fato de que talvez elas não sejam mutáveis e a única saída é simplesmente desistir. E isso fere o nosso orgulho, a nossa honra. Nos disseram que isso é fraqueza, que os fortes lutam, os fortes persistem. Eu diria que os fortes sabem quando desistir.
É preciso encarar a verdade, mesmo quando ela não é exatamente como gostaríamos que fosse. Algumas lutas simplesmente não valem a pena. São lutas perdidas e insistir nelas é inútil. É necessário abandoná-las, arquivá-las, dar-se por vencido e procurar razões melhores para lutar.
No final das contas, o que tem que ficar, fica, assim como o que tem que ir, vai. Se não te faz bem, se não preenche espaços, se não acrescenta nada, se não te traz uma vibe positiva, é sinal de que tem que ir. Abra mão daquilo que nunca foi verdadeiro. Abra mão daquilo que não te serve mais, daquilo que nunca serviu pra muita coisa. Aquilo que não te faz bem, não vai te fazer falta.
Desistir de brigas impossíveis, desgastantes e invencíveis significa lutar por si mesmo. Esta é a única coisa da qual você nunca deve desistir.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Pessoas Nada a Ver
É uma das minhas coisas favoritas para se fazer: entrar numa loja Americanas e encher a cesta de chocolates, salgadinhos, cookies e todo o tipo de guloseima que eu tiver direito. Você sai de lá se sentindo outra pessoa, cientista nenhum conseguiria explicar a descarga repentina de endorfina no sangue.
Em um desses ataques de gula e completa falta de discernimento, eu estava na fila do caixa, com a cesta cheia de gorduras saturadas e outras coisas que provavelmente entopem veias, esperando a minha vez. Como de costume, comecei a olhar a banca de revistas que fica ao lado da fila. Algum desses popstars adolescentes era capa de uma revista também adolescente (acho que era a Capricho), e a manchete dizia: "Fulano declara para nossa reportagem: Todo mundo já se apaixonou por alguém nada a ver". Me chamou a atenção.
Era dezembro, eu ainda estava namorando, mas à partir desse dia eu comecei a colocar as pessoas involuntariamente em uma lista mental de "pessoas nada a ver". Tente isso e você verá que elas estão por todas as partes. Quem nunca se apaixonou por um cara completamente incompatível? Um marmanjo com síndrome de Peter Pan? Ou um fedelho antipático, imaturo e prepotente? Quem nunca conheceu um completo babaca com mania de grandeza que acha que tem a verdade suprema sobre tudo? Quem nunca passou noites acordado por um idiota que te iludiu, te prometeu amor, e depois se interessou por alguém que não chegaria nem aos seus pés? Ou, voando ainda mais alto, quem nunca se viu fora de si por um cara comprometido que, na maior cara de pau, te ofereceu uma "amizade colorida em off"?
Pois é. Acho que todo mundo já trombou com alguém nada a ver. A gente se entrega, se apaixona, se humilha, sofre anos por alguém que nunca vai combinar com a gente, alguém que não é nem um centésimo daquilo que você procura. Mas você está ali, tentando, dando a cara à tapa, dando murro em faca, enfiando o pé na jaca entre outras rimas que resumem uma coisa só: você se destruindo por uma pessoa nada a ver. Nada a ver com seus planos, nada a ver com o que você acredita, nada a ver com você.
E aí o relacionamento acaba -- porque relacionamentos com pessoas nada a ver eventualmente têm um fim -- e você continua insistindo em se importar, em ser amigo, em estar do lado de alguém que nunca esteve do seu lado, nunca foi seu amigo nem durante o relacionamento, depois então... pfff, esquece!
Talvez seja por isso que a gente sofre. Por tentar encontrar em alguém algo que não existe. Por esperar de moleques atitudes maduras. Por sonhar com relacionamentos duradouros e decididos com pessoas que não sabem nem que filme querem ver no cinema e deixam todas as escolhas para você. Por imaginar que algum dia o cara que te abandona numa briga no grupo de teatro da escola vá te dar apoio em alguma situação mais importante.
Pode parecer papo de livro de autoajuda, mas não é nada mais do que a realidade. A vida oferece oportunidades pra gente ver quem esteve ali o tempo todo, quem merece ficar, quem combina com nossas expectativas... e quem não tem nada a ver com nada. Essas últimas, acredite, não merecem fazer parte do seu campo de visão. Elas não têm nada a acrescentar, nada a ser aproveitado. Elas não têm nada de bom a ser visto.
Em um desses ataques de gula e completa falta de discernimento, eu estava na fila do caixa, com a cesta cheia de gorduras saturadas e outras coisas que provavelmente entopem veias, esperando a minha vez. Como de costume, comecei a olhar a banca de revistas que fica ao lado da fila. Algum desses popstars adolescentes era capa de uma revista também adolescente (acho que era a Capricho), e a manchete dizia: "Fulano declara para nossa reportagem: Todo mundo já se apaixonou por alguém nada a ver". Me chamou a atenção.
Era dezembro, eu ainda estava namorando, mas à partir desse dia eu comecei a colocar as pessoas involuntariamente em uma lista mental de "pessoas nada a ver". Tente isso e você verá que elas estão por todas as partes. Quem nunca se apaixonou por um cara completamente incompatível? Um marmanjo com síndrome de Peter Pan? Ou um fedelho antipático, imaturo e prepotente? Quem nunca conheceu um completo babaca com mania de grandeza que acha que tem a verdade suprema sobre tudo? Quem nunca passou noites acordado por um idiota que te iludiu, te prometeu amor, e depois se interessou por alguém que não chegaria nem aos seus pés? Ou, voando ainda mais alto, quem nunca se viu fora de si por um cara comprometido que, na maior cara de pau, te ofereceu uma "amizade colorida em off"?
Pois é. Acho que todo mundo já trombou com alguém nada a ver. A gente se entrega, se apaixona, se humilha, sofre anos por alguém que nunca vai combinar com a gente, alguém que não é nem um centésimo daquilo que você procura. Mas você está ali, tentando, dando a cara à tapa, dando murro em faca, enfiando o pé na jaca entre outras rimas que resumem uma coisa só: você se destruindo por uma pessoa nada a ver. Nada a ver com seus planos, nada a ver com o que você acredita, nada a ver com você.
E aí o relacionamento acaba -- porque relacionamentos com pessoas nada a ver eventualmente têm um fim -- e você continua insistindo em se importar, em ser amigo, em estar do lado de alguém que nunca esteve do seu lado, nunca foi seu amigo nem durante o relacionamento, depois então... pfff, esquece!
Talvez seja por isso que a gente sofre. Por tentar encontrar em alguém algo que não existe. Por esperar de moleques atitudes maduras. Por sonhar com relacionamentos duradouros e decididos com pessoas que não sabem nem que filme querem ver no cinema e deixam todas as escolhas para você. Por imaginar que algum dia o cara que te abandona numa briga no grupo de teatro da escola vá te dar apoio em alguma situação mais importante.
Pode parecer papo de livro de autoajuda, mas não é nada mais do que a realidade. A vida oferece oportunidades pra gente ver quem esteve ali o tempo todo, quem merece ficar, quem combina com nossas expectativas... e quem não tem nada a ver com nada. Essas últimas, acredite, não merecem fazer parte do seu campo de visão. Elas não têm nada a acrescentar, nada a ser aproveitado. Elas não têm nada de bom a ser visto.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Perseguindo Linhas
Linhas. Estamos cercados delas. Algumas foram feitas para serem ultrapassadas. Outras significam "perigo, não ultrapasse!". Onde quer que você vá, haverá placas e linhas te indicando algo que você não pode fazer.
Quanto mais determinada for uma linha, quanto mais proibição ela expressa, mais queremos saber o que existe do outro lado. Por que ela está aqui? Por que é proibido ultrapassá-la? Sem pensar duas vezes, quebramos uma barreira imaginária e estamos sujeitos aos riscos do outro lado da linha.
Algumas linhas não têm o menor sentido de existir. Nos disseram que era proibido, e nós acreditamos. Algumas delas, fomos nós mesmos que traçamos, por proteção, por sobrevivência, ou simplesmente pelo prazer de cruzá-las. Outras têm um motivo importante de estar ali e cruzá-las pode ser realmente perigoso.
Quando você ultrapassa uma linha, você o faz por sua conta e risco. O que está do outro lado pode ser prejudicial à sua saúde física ou mental. Pode ser algo irreversível. Às vezes pode ser mortal. Mas como resistir ao impulso de querer saber o que pode acontecer? Somos seres de sangue quente. Gostamos do desafio, gostamos da adrenalina de fazer algo proibido. E de fato o fazemos. Respiramos fundo e nos arriscamos.
Cruzar uma linha significa invadir uma propriedade privada, de vez em quando. Interferir em algo que não é seu. Invadir um território que já foi conquistado por alguém. E isso não é seguro e nem ético.
O bom das linhas é que elas não são paredes. Em alguns casos, quando as feridas são superficiais, você ainda tem a chance de correr, cruzá-las de volta ao lado seguro e permitido. Afastar-se. Seguir seu caminho até que outra linha tentadora apareça. E decidir se vale a pena cruzá-la ou não.
Quanto mais determinada for uma linha, quanto mais proibição ela expressa, mais queremos saber o que existe do outro lado. Por que ela está aqui? Por que é proibido ultrapassá-la? Sem pensar duas vezes, quebramos uma barreira imaginária e estamos sujeitos aos riscos do outro lado da linha.
Algumas linhas não têm o menor sentido de existir. Nos disseram que era proibido, e nós acreditamos. Algumas delas, fomos nós mesmos que traçamos, por proteção, por sobrevivência, ou simplesmente pelo prazer de cruzá-las. Outras têm um motivo importante de estar ali e cruzá-las pode ser realmente perigoso.
Quando você ultrapassa uma linha, você o faz por sua conta e risco. O que está do outro lado pode ser prejudicial à sua saúde física ou mental. Pode ser algo irreversível. Às vezes pode ser mortal. Mas como resistir ao impulso de querer saber o que pode acontecer? Somos seres de sangue quente. Gostamos do desafio, gostamos da adrenalina de fazer algo proibido. E de fato o fazemos. Respiramos fundo e nos arriscamos.
Cruzar uma linha significa invadir uma propriedade privada, de vez em quando. Interferir em algo que não é seu. Invadir um território que já foi conquistado por alguém. E isso não é seguro e nem ético.
O bom das linhas é que elas não são paredes. Em alguns casos, quando as feridas são superficiais, você ainda tem a chance de correr, cruzá-las de volta ao lado seguro e permitido. Afastar-se. Seguir seu caminho até que outra linha tentadora apareça. E decidir se vale a pena cruzá-la ou não.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
O último dia da sua vida
O tempo todo morrem pessoas no mundo. É um fato. Se não fosse assim, não haveria espaço e recursos para tanta gente viva. A natureza então determina isso: precisamos morrer, mais cedo ou mais tarde.
Não sou perito em estatística, mas poderia supor quase com certeza que a maioria das pessoas que morrem, morrem inesperadamente, de uma hora para a outra. Estão em seus carros em uma viagem de férias tão esperada. Estão caminhando pelas ruas até a padaria mais próxima. Assistem a algum filme no cinema. E antes mesmo que possam evitar, sofrem acidentes de trânsito, são assaltadas ou enfartam. Em alguns minutos, todos os planos, as pendências e os sentidos se foram.
Isso sempre fez com que pensássemos a respeito: e se a minha vida acabar hoje? E se eu não tiver tempo de fazer tudo que eu quero? Viva hoje como se fosse o último dia, é o que dizem por aí. Não concordo que isso seja tão fácil na prática.
Tudo na vida exige tempo. Não somos seres instantâneos, não podemos resolver todas as nossas pendências em vinte e quatro horas. A maioria delas precisa de tempo e calma. Se todo mundo levasse esse ditado ao pé da letra, provavelmente hoje realmente seria o último dia de muita gente: a vida acontece dia após dia, e a pressa seria no mínimo fatal.
Mas a verdade é que a ideia de partir e deixar algumas coisas pendentes nos assusta. Um "me desculpa" que você não disse. Uma declaração de amor que você adiou. Uma visita que você não faz à sua avó há algum tempo. Uma carta que você ainda não mandou. Um beijo que você nunca pediu. Uma ligação que você não fez. Um emprego que você não mandou para o inferno. Um DVD que você ainda não devolveu à locadora. E se eu morrer hoje e deixar todas essas pendências? Será que eu vou conseguir descansar em paz?
Precisamos de espaço para deixar as coisas acontecerem. Claro, não faço uma apologia à inércia. Mas a maioria das coisas precisa de tempo e espaço para se desenrolar. Se apressarmos a vida com medo de morrer, se acelerarmos veículos com medo de não dar tempo de chegar, se nos jogarmos de cabeça em tudo porque hoje pode ser o último dia e não dá tempo de pensar bem antes de pular, acabamos anulando os nossos dias e no intuito de resolver pendências, criamos mais e mais. Acabamos não vivendo em paz, com medo de não conseguir descansar.
Ninguém sabe quando vai morrer. Se soubéssemos, seria fácil. Deixaríamos tudo para a última hora. Resolveríamos tudo no último dia. E não aproveitaríamos ele para coisas que realmente valem a pena.
As pendências que deixamos não são por nossa culpa. A maioria delas tem a ver com o medo, e o medo não é algo que possamos controlar. Então aproveite seu tempo vivo. Respeite seus limites e não se cobre (tanto). Ame as pessoas ao seu redor e faça com que elas saibam disso. Divirta-se sempre que puder. Dê prioridade ao que vale a pena. Cuide da sua saúde, dos seus amigos, dos seus animais de estimação, dos seus pais, irmãos e avós.
Viva como se você fosse morrer, mas um dia. Não hoje.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
gravidade
Existe uma força que nos prende ao chão que nunca conseguiu segurar meus pensamentos. Sempre foi assim, desde que o planeta existe e se, por algum motivo, a gravidade sumir, tudo se desprende e se choca e provavelmente a vida seria extinta em poucas horas. Estar preso ao chão é uma questão de sobrevivência.
Mas às vezes queremos mudar isso. Damos saltos maiores do que podemos alcançar, no intuito de encontrar alguma forma de alimentar nossos dias que não esteja presa na superfície terrestre. Não gostamos da textura do chão, da realidade: fria e dura. Pulamos. Do alto dos edifícios mais altos, dos desejos mais improváveis, dos impulsos mais irresistíveis. Esticamos nossos pés, abandonamos o chão. Em um segundo estamos fora dele.
E então? Quem foi que nos ensinou a voar assim? Baseado em qual lei da física? Ninguém e nenhuma. Quando tentamos alcançar as nuvens, a primeira sensação é boa. Desafiar a gravidade. Abrir asas imaginárias e libertar-se de quem somos, das coisas que deixamos cair no chão pelo caminho. Quando tiramos os pés do chão, tudo pode acontecer.
Mas, e quando o vôo começa a se transformar em queda? E isso é inevitável. Querendo ou não, em algum momento seremos puxados de volta para a superfície, para o concreto, para o que é real. Não importa o quanto estar nas nuvens seja bom, nós não fomos criados para estar nelas. Invariavelmente caímos, de frente com o solo. Não existe pára-quedas na vida, e a queda é livre. Isso dói. Quebra nossos ossos, arranha nossa pele, sobrecarrega nosso cérebro com sinais elétricos. Ficamos imóveis por vários dias, até tudo o que existia antes se recompor.
No entanto, algumas coisas são perdidas com as quedas, e não podemos substituí-las. Será uma cicatriz, uma sequela que estará sempre ali para nos lembrar dos perigos de estar fora do chão. E alguns de nós não conseguem se recuperar nunca.
Então sonhe. Não tenha medo de querer tocar o Sol. Nossos sonhos não podem ser puxados pela gravidade. Mas não se esqueça de tirar seus sapatos, sentir o chão grudado em seus pés e agradecê-lo por estar ali.
Mas às vezes queremos mudar isso. Damos saltos maiores do que podemos alcançar, no intuito de encontrar alguma forma de alimentar nossos dias que não esteja presa na superfície terrestre. Não gostamos da textura do chão, da realidade: fria e dura. Pulamos. Do alto dos edifícios mais altos, dos desejos mais improváveis, dos impulsos mais irresistíveis. Esticamos nossos pés, abandonamos o chão. Em um segundo estamos fora dele.
E então? Quem foi que nos ensinou a voar assim? Baseado em qual lei da física? Ninguém e nenhuma. Quando tentamos alcançar as nuvens, a primeira sensação é boa. Desafiar a gravidade. Abrir asas imaginárias e libertar-se de quem somos, das coisas que deixamos cair no chão pelo caminho. Quando tiramos os pés do chão, tudo pode acontecer.Mas, e quando o vôo começa a se transformar em queda? E isso é inevitável. Querendo ou não, em algum momento seremos puxados de volta para a superfície, para o concreto, para o que é real. Não importa o quanto estar nas nuvens seja bom, nós não fomos criados para estar nelas. Invariavelmente caímos, de frente com o solo. Não existe pára-quedas na vida, e a queda é livre. Isso dói. Quebra nossos ossos, arranha nossa pele, sobrecarrega nosso cérebro com sinais elétricos. Ficamos imóveis por vários dias, até tudo o que existia antes se recompor.
No entanto, algumas coisas são perdidas com as quedas, e não podemos substituí-las. Será uma cicatriz, uma sequela que estará sempre ali para nos lembrar dos perigos de estar fora do chão. E alguns de nós não conseguem se recuperar nunca.
Então sonhe. Não tenha medo de querer tocar o Sol. Nossos sonhos não podem ser puxados pela gravidade. Mas não se esqueça de tirar seus sapatos, sentir o chão grudado em seus pés e agradecê-lo por estar ali.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Abelha
Fevereiro sempre chega pra mim trazendo um pouquinho de esperança, assim como uma abelha que sempre tem um pouquinho de pólen amarelo-vivo preso em suas perninhas. Depois da transição dos primeiros dias do ano, a nostalgia deixa meus dedos e eu posso começar de novo. É sempre assim. Sempre em fevereiro. Sempre no carnaval.
E já faz alguns carnavais que eu tenho aprendido a deixar a banda tocar. Não adianta fugir de certas verdades ou fingir que existe mais algo a ser dito depois de ter ouvido tanta, tanta coisa ruim. Comecei o ano me livrando de algumas coisas que não me faziam mais bem e de outras que nunca mais seriam as mesmas. Não prestar primeiros-socorros a feridos é omissão de socorro. Mas uma vez que o coração para de bater, não adianta tentar reanimá-lo por muito tempo: algumas coisas não têm conserto, não têm volta, não foram feitas para durar para sempre.
Depois de se encontrar e encontrar aquilo que falta em você mesmo, depois de levantar do tombo causado pelo espanto, depois de resistir à maçã mais venenosa do paraíso e de aprender a deixar as coisas irem embora, vem o sol e também as asas. A tempestade passou, afinal. Vem fevereiro, a esperança. Vem o carnaval, o amarelo e as outras cores e os recomeços - todos nós precisamos de recomeços.
Nenhuma abelha fica pra sempre no mesmo campo. É hora de voar e levar sol amarelo-pólen para outras flores. Não faz sentido insistir em procurar vida em um jardim que deixou de ter vida há muito tempo.
E já faz alguns carnavais que eu tenho aprendido a deixar a banda tocar. Não adianta fugir de certas verdades ou fingir que existe mais algo a ser dito depois de ter ouvido tanta, tanta coisa ruim. Comecei o ano me livrando de algumas coisas que não me faziam mais bem e de outras que nunca mais seriam as mesmas. Não prestar primeiros-socorros a feridos é omissão de socorro. Mas uma vez que o coração para de bater, não adianta tentar reanimá-lo por muito tempo: algumas coisas não têm conserto, não têm volta, não foram feitas para durar para sempre.
Depois de se encontrar e encontrar aquilo que falta em você mesmo, depois de levantar do tombo causado pelo espanto, depois de resistir à maçã mais venenosa do paraíso e de aprender a deixar as coisas irem embora, vem o sol e também as asas. A tempestade passou, afinal. Vem fevereiro, a esperança. Vem o carnaval, o amarelo e as outras cores e os recomeços - todos nós precisamos de recomeços.Nenhuma abelha fica pra sempre no mesmo campo. É hora de voar e levar sol amarelo-pólen para outras flores. Não faz sentido insistir em procurar vida em um jardim que deixou de ter vida há muito tempo.
"Esqueça o que dissemos
Antes que fiquemos velhos demais.
Mostre-me um jardim que esteja explodindo em vida."
(Snow Patrol - Chasing Cars)
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Let it go
Partes que não são mais nossas vão embora pelo ralo todos os dias. Nossas células morrem e dão lugar a novas. Nossos dentes caem quando somos crianças para que possam nascer outros maiores e mais fortes.
Coisas que um dia fizeram parte de nós deixam de ser nossas o tempo todo, no decorrer de toda uma vida e outras aparecem para preencher espaços que foram criados involuntariamente.
Não adianta querer lutar contra isso. Além de inútil, seria lutar contra a lei da própria natureza: partes nossas têm de ir embora para dar lugar a uma nova versão de nós mesmos, só que mais fortes, mais resistentes, mais aptos a encarar dias diferentes, invernos mais frios, noites mais escuras. Crescemos e no decorrer deste processo abandonamos pedaços de nós mesmos.
É triste, a princípio, o pensamento de ter coisas arrancadas sem a nossa permissão. Elas nos foram dadas e à partir de então começamos a nos acostumar com a ideia de que elas são nossas e de que são instransferíveis e insubstituíveis. fazemos planos com elas e contamos com a sua eternidade sem nos darmos conta de que amanhã elas possam ser apenas doces lembranças.
Mas então descobrimos que existem coisas tão únicas quanto as outras. Nada é igual a nada. Ninguém é igual a ninguém. Um passeio de mãos dadas terá sempre um cheiro diferente dos outros. Beijos têm sabores diferentes e toques são tão singulares quanto nossas impressões digitais. No entanto, sempre existirão pessoas novas e únicas, caminhos inexplorados, beijos com novas texturas e toques com temperaturas diferentes.Aquilo que perdemos fica marcado em nossas mentes para sempre, assim como tudo aquilo que ganhamos será sempre nosso, por mais que um dia tenha de ir embora. Tomar um banho de chuva para renovar a pele faz bem e a única maneira de não se machucar quando algumas partes de nós precisam ir embora é aceitar que novas composições estão chegando e, enfim, deixá-las ir.
"As brigas que ganhei, nenhum troféu como lembrança pra casa eu levei.
As brigas que perdi, estas sim, eu nunca esqueci, eu nunca esqueci."
(Pato Fu - Perdendo Dentes)
sábado, 14 de janeiro de 2012
O caminho mais fácil nem sempre é melhor que o da dor
Morda a maçã mais vermelha e proibida daquela árvore e todo o seu paraíso ruirá. Aproxime-se mais do fogo e queime suas memórias preciosas. Dê um beijo nos lábios mais saborosos e você saberá o que é a dor.
Perdura a verdade de que noites de inverno são tão frias quanto mãos que se separam e que as folhas do outono caem de seus galhos fortes e secam na terra, sem outro destino para optarem: sozinhas.
Tentamos ser destemidos numa escuridão na qual nos obrigaram a ficar, de castigo. Imaginamos que exista alguma porta para qual correr e encontrar a luz do sol. Nos dedicamos ao pensamento de segurança. E então descobrimos que a escuridão é um lugar seguro. Ninguém pode ver suas fraquezas quando não há luz.
Existe veneno nas coisas mais simples, e elas são as que mais nos atraem.
Perdura a verdade de que noites de inverno são tão frias quanto mãos que se separam e que as folhas do outono caem de seus galhos fortes e secam na terra, sem outro destino para optarem: sozinhas.
Tentamos ser destemidos numa escuridão na qual nos obrigaram a ficar, de castigo. Imaginamos que exista alguma porta para qual correr e encontrar a luz do sol. Nos dedicamos ao pensamento de segurança. E então descobrimos que a escuridão é um lugar seguro. Ninguém pode ver suas fraquezas quando não há luz.
Existe veneno nas coisas mais simples, e elas são as que mais nos atraem.
sábado, 7 de janeiro de 2012
The Same Old Fears
Trombei mais uma vez naquilo que eu gosto de chamar de espanto. E tudo caiu, como um muro fraco.
Construí barreiras ao meu redor e acreditei que elas fossem me livrar de todo o mal, amém. Mas não é assim, não quando o mal vem de cima, e todo mundo tem teto de vidro.
Chuvas de verão efêmeras que não dizem a que vêm, e um ano que já começou acabando. E eu comecei cansado, cansado desse amor que circula na boca das pessoas, só na boca mesmo, que nunca chega nem perto de coração nenhum, que sequer entra em contato com artéria ou sangue pra se transformar em oxigênio ou algo assim.
Quando é que não vão ser só metades e eu não vou precisar me afogar em um mar de poréns, entretantos, pelo menos e, principalmente, por quês?
As piores coisas aparecem de repente. Vêm sem que você esteja preparado para elas. Deixam sequelas em seus lábios. Queimam pedaços do seu pulmão. Não por tristeza, não é tristeza que me faz escrever isso, não é nem de longe tristeza - eu conquistei uma liberdade que havia me esquecido que tinha. Falo isso em nome da raiva. Da raiva por ter acreditado. Da raiva por ter me doado tanto, me desrespeitado tanto, adoecido e me curado sem a ajuda de nenhuma alma viva ou morta que alguma vez tenha estendido uma mão suja para me ensinar qual era o caminho menos apedrejado. E no final eu escolhi o caminho errado, fui correndo com força e crença, doei todos os meus minutos para alguém que os despedaçou como folhas secas do outono onde tudo isso começou. E no final, corri de olhos fechados, acreditando em vozes que não existem, acreditando em amores inventados, e eu corri, corri, corri e trombei mais uma vez naquilo que eu gosto de chamar de espanto.
Cansei da hipocrisia dos dias que fingem que passam mas que deixam um rastro de coisas todas iguais às de sempre.
Construí barreiras ao meu redor e acreditei que elas fossem me livrar de todo o mal, amém. Mas não é assim, não quando o mal vem de cima, e todo mundo tem teto de vidro.
Chuvas de verão efêmeras que não dizem a que vêm, e um ano que já começou acabando. E eu comecei cansado, cansado desse amor que circula na boca das pessoas, só na boca mesmo, que nunca chega nem perto de coração nenhum, que sequer entra em contato com artéria ou sangue pra se transformar em oxigênio ou algo assim.Quando é que não vão ser só metades e eu não vou precisar me afogar em um mar de poréns, entretantos, pelo menos e, principalmente, por quês?
As piores coisas aparecem de repente. Vêm sem que você esteja preparado para elas. Deixam sequelas em seus lábios. Queimam pedaços do seu pulmão. Não por tristeza, não é tristeza que me faz escrever isso, não é nem de longe tristeza - eu conquistei uma liberdade que havia me esquecido que tinha. Falo isso em nome da raiva. Da raiva por ter acreditado. Da raiva por ter me doado tanto, me desrespeitado tanto, adoecido e me curado sem a ajuda de nenhuma alma viva ou morta que alguma vez tenha estendido uma mão suja para me ensinar qual era o caminho menos apedrejado. E no final eu escolhi o caminho errado, fui correndo com força e crença, doei todos os meus minutos para alguém que os despedaçou como folhas secas do outono onde tudo isso começou. E no final, corri de olhos fechados, acreditando em vozes que não existem, acreditando em amores inventados, e eu corri, corri, corri e trombei mais uma vez naquilo que eu gosto de chamar de espanto.
Cansei da hipocrisia dos dias que fingem que passam mas que deixam um rastro de coisas todas iguais às de sempre.
"Nós somos apenas duas almas perdidas
Nadando em um aquário, ano após ano.
Correndo pelo mesmo velho chão,
o que encontramos?
Os mesmos velhos medos."
(Pink Floyd - Wish You Were Here)
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